23 de jun de 2019

Quando Teori se irritou, Lava Jato articulou apoio a Moro


O The Intercept trabalhou parte de seu material com a Folha de S.Paulo. Nesta leva de conversas analisadas, o material traz a articulação da Lava Jato para apoio a Moro na questão das planilhas com políticos vazada para a imprensa.

A intenção não era só blindar o juiz Sergio Moro, mas também impedir que o Supremo Tribunal Federal colocasse fim às investigações da Lava Jato. Tal receio tinha motivo, já que as planilhas encontradas pela Polícia Federal com um executivo da Odebrecht, expunha políticos que tinham direito a foro especial. Foro especial significa que teriam que ter autorização da Corte. Corria o ano de 2016.

Nas mensagens, claro temor de que o ministro Teori Zavascki desmembrasse os inquéritos, sob controle de Moro em Curitiba, e os esvaziasse. Corriam céleres as investigações sobre a Odebrecht. Segundo os diálogos, teria sido um descuido da Polícia Federal, que anexou os documentos da Odebrecht aos autos do processo sem preservar seu sigilo. A lista foi parar nas mãos do jornalista Fernando Rodrigues.

Moro acionou Deltan, reclamando do vacilo e avisando que colocara os papéis sob sigilo. E temeu que o ato pareceria uma afronta ao Supremo. Começa aí a discussão da estratégia. Moro disse que enviaria pelo menos um inquérito em andamento em Curitiba, e sobre qual mandar. Ato contínuo, após bronca de Moro sobre o vacilo, Deltan lhe promete apoio incondicional.

Quando Moro disse temer que sua atuação fosse examinada pelo Conselho Nacional de Justiça, o fiel escudeiro se dispôs a falar com o representante do Ministério Público Federal no CNJ e prometeu acelerar uma das denúncias que a força-tarefa estava preparando. Nesta denúncia, o caso seria encaminhado ao STF já com os acusados e crimes definidos na denúncia.

Deltan procura então o delegado Márcio Anselmo para passar a reclamação do juiz. Disse que Moro estava chateado, e repetiu diálogo com o juiz.  Pediu então ajuda para solucionar a pendenga. O delegado não entendia o vazamento da lista como algo tão grave e Deltan pediu que ele fosse mais cuidadoso, para que não fosse usado pelo STF contra a operação e contra Moro.

Em novo diálogo, Moro pediu a Deltan que ajudasse a controlar o Movimento Brasil Livre (MBL), que protestou na frente do apartamento do ministro Teori Zavascki, em Porto Alegre. Chamou-os de tontos e que aquilo não ajudava em nada. Deltan se dispôs a procurar saber, mas achava que o melhor era não fazer nada, não era bom se meter. Depois Deltan avisou que não tinham contato com o MBL e o juiz se aquietou.

Moro então, no dia 28 de março, após o MP enviar manifestação formal sobre os processos, enviou ao STF dois inquéritos e uma ação penal, incluindo aqueles com a lista da Odebrecht, para decisão formal de Teori sobre o que fazer. Teori devolveu os processos para Curitiba, deixando no STF somente as planilhas com políticos, preservadas sob sigilo.

A Folha fez pedido ao CNJ e conseguiu levantamento dos processos abertos contra Sergio Moro por sua atuação na Lava Jato. Foram 55 processos abertos e 34 já foram arquivados sem punição para o ex-juiz.

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