30 de jun de 2019

Procurador recupera arquivos e é o primeiro a reconhecer autenticidade das mensagens de colegas


O ministro Sérgio Moro, o procurador Deltan Dallagnol, a procuradora Monique Cheker — ou Mô, que foi como Deltan chamou a amiga ao entrar no twitter (ver acima) — e a própria Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) estão em uma campanha febril, nas últimas horas, para desqualificar as mensagens trocadas entre procuradores e publicadas pelo Intercept Brasil.

A ofensiva começou depois de um erro de identificação cometido pelo site de Glenn Greenwald, já corrigido.

A campanha, turbinada pelos robôs que organizam manifestação de apoio a Moro e à Lava Jato nas próximas horas, tenta tirar credibilidade das novas revelações feitas pelo Intercept.

Elas demonstram que, em grupos do aplicativo Telegram, os próprios integrantes do MPF, ligados ou não à Lava Jato ou à Força Tarefa de Curitiba, fizeram críticas ao comportamento do então juiz federal Sérgio Moro, especialmente depois que ele aceitou tornar-se ministro do governo de Jair Bolsonaro.

Num vazamento especialmente danoso para o chefe da Força Tarefa, Deltan Dallagnol, ficou demonstrado que ele tentou acelerar ação inespecífica contra o principal articulador da candidatura de Fernando Haddad, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, na reta final da campanha de 2018.

Wagner havia sido eleito senador pela Bahia e, em caso de vitória de Haddad, poderia ocupar um cargo chave no governo petista.

Além disso, uma denúncia contra Wagner na véspera do segundo turno poderia repercutir na votação maciça da qual Haddad dependia — na Bahia e em todo o Nordeste — para ter chance de vencer.

Como os arquivos aos quais o Intercept Brasil teve acesso incluem mensagens de caráter pessoal, é natural que procuradores ajam para desmentir ou lançar dúvidas sobre o conteúdo das mensagens.

Afinal, a troca de fotos, vídeos e informações de caráter pessoal e de toda natureza, através do uso de aplicativos, é prática corriqueira entre usuários.

O Intercept garante que mensagens de caráter pessoal não serão reveladas, mas na dúvida não é inesperado que as pessoas tentem se proteger em relação a colegas, amigos, parentes e familiares.

Um balde de água fria na ofensiva capitaneada pelo ministro da Justiça Sérgio Moro, no entanto, foi jogado por um procurador que recuperou alguns arquivos e confirmou a autenticidade das mensagens mais recentes publicadas pelo Intercept.

O procurador, que preferiu não se identificar, falou ao Correio Braziliense. É a primeira pessoa a assumir que tem arquivos das conversas.

O ex-juiz federal Sérgio Moro confirmou que já teve conta no Telegram, mas afirma que se desligou do aplicativo e, por isso, não tem os arquivos de suas mensagens.

Em nota, a Força Tarefa havia dito que “os procuradores descontinuaram o uso e desativaram as contas do aplicativo ‘Telegram’ nos celulares, com a exclusão do histórico de mensagens tanto no celular como na nuvem. Houve reativação de contas para evitar sequestros de identidade virtual, o que não resgata o histórico de conversas excluídas”.

A justificativa é de que foi resposta a um suposto ataque de hacker ou hackers, que está sendo investigado pela Polícia Federal.

A ação da Força Tarefa, no entanto, recebeu críticas.

“A destruição de documentos públicos armazenados em celulares funcionais é mais um ardil dos procuradores na luta desesperada pela sobrevivência e na guerra contra a verdade. Ao dar sumiço nas provas, eles ingenuamente pretendem impedir a eventual auditoria e a comparação dos conteúdos oficiais com aqueles já revelados e com os que ainda serão revelados pelo Intercept”, escreveu o colunista Jeferson Miola, em texto reproduzido no Viomundo.

O ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão já havia desmontado a alegação de que a publicação das mensagens pelo Intercept violava a privacidade dos procuradores, argumentando que os aparelhos celulares utilizados eram funcionais, ou seja, fornecidos pelo Estado.

O procurador ainda não identificado, entrevistado pelo Correio Braziliense, pode tornar-se testemunha-chave numa investigação oficial, já que deixou claro que “consegui recuperar alguns arquivos no celular”.

Leia a reportagem:

Procurador confirma ao Correio autenticidade de mensagens sobre Moro

Sérgio Moro e Dallagnol questionam os diálogos publicados pelo The Intercept.


Em nota divulgada no final da tarde deste sábado (29/6), a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) “alerta a sociedade sobre a impossibilidade de considerar como verdadeiras” mensagens divulgadas pelo site The Intercept em que procuradores da República fazem críticas ao ministro Sérgio Moro.

Ouvido pelo Correio, um procurador, porém, confirma, que as mensagens sobre Moro são verdadeiras.

Integrantes da força-tarefa da Lava-Jato revelam preocupações com a possibilidade de que o então juiz Sérgio Moro aceitasse convite para compor a equipe de ministros do presidente Jair Bolsonaro.

Nas mensagens publicadas, a procuradora Monique Cheker critica a condução dos processos da Lava-Jato pelo ministro na época em que ele era juiz no Paraná.

“Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”, teria dito Monique.

Em um grupo no aplicativo Telegram, os procuradores teriam demonstrado preocupação com o fato de Moro marcar encontros com o presidente Jair Bolsonaro após o resultado das eleições do ano passado.

Um dos que participam do diálogo é o procurador Alan Mansur, coordenador da Lava-Jato no Pará. Ele revela temor com a ida de Moro para o Ministério da Justiça.

“Tem toda a técnica e conhecimento para ser um excelente ministro da Justiça. E tentar colocar em prática tudo que ele acredita. Porém, o fato de ter aceitado, neste momento, entrar na política e desta forma, é muito ruim pra imagem de imparcialidade do sistema de justiça e MP em geral”, disse.

Minutos antes da reportagem entrar no ar, o jornalista Glenn Greenwald, do The Intercept, apresentou a reprodução de uma conversa, citando o procurador Ângelo Goulart Villela. A matéria publicada, porém, citou na verdade Ângelo Augusto Costa, um homônimo.

Pelo Twitter, Sérgio Moro afirmou que as controvérsias da publicação revelam que as mensagens não ocorreram.

“Isso só reforça que as mensagens não são autênticas e que são passíveis de adulteração. O que se tem é um balão vazio, cheio de nada. Até quando a honra e a privacidade de agentes da lei vão ser violadas com o propósito de anular condenações e impedir investigações contra corrupção?”, disse.

No posicionamento divulgado, a ANPR ressaltou a “preocupação quanto à divulgação de mensagens atribuídas a integrantes do Ministério Publico Federal com indícios de terem sido adulteradas e de serem oriundas de crime cibernético”.

A entidade destacou ainda que se “manterá implacável na defesa das prerrogativas funcionais dos procuradores da República, garantidas pela Constituição para que eles possam defender, com independência e autonomia, a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses sociais e individuais indisponíveis”.

Veracidade

Ao Correio, um dos procuradores que estava no grupo em que ocorreram as conversas, disse, sob a condição de anonimato, que os trechos divulgados são verdadeiros.

“Me recordo dos diálogos com os procuradores apontados pelo site. O grupo não existe mais. No entanto, me lembro do debate em torno do resultado das eleições e da expectativa sobre a ida de Moro para o Ministério da Justiça”, disse.

O integrante do Ministério Público Federal (MPF) também declarou que conseguiu recuperar parte do conteúdo.

“Consegui recuperar alguns arquivos no celular. Percebi que os trechos divulgados não são de diálogos completos. Tem mensagens anteriores e posteriores às que foram publicadas. No entanto, realmente ocorreram. Não posso atestar que tudo que foi publicado até agora é real e não sofreu alterações. No entanto, aquelas mensagens que foram publicadas ontem (sexta) são autênticas”, completou.

No Viomundo

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