23 de jun de 2019

O arbítrio disfarçado desliza para o arbítrio escancarado


A matéria na Folha de hoje, parceria do jornal com o Intercept Brasil, mostra mais do mesmo. Seu sentido é demonstrar que a colaboração criminosa entre juiz e promotores não foi pontual, não foi “um descuido”, mas estruturante de toda a operação.

Confirma, também, que Teori Zavascki era visto como um empecilho pela orcrim de Curitiba.

Mas o impacto dos diálogos depende sobretudo do entendimento de que o juiz deve ser imparcial – é uma exigência legal, ética e lógica de sua função.

A direita não tardou em afinar o discurso para sua base desinformada e cognitivamente pouco capaz: contra o PT, vale tudo. Quando mais linhas legais e éticas foram atravessadas, quanto mais violência foi empegada, mais “heroica” foi a ação.

É a barbárie política, que eles assumiram faz tempo.

Diante do Congresso, do Judiciário e da imprensa, Moro e seus cúmplices adotam um conjunto contraditório de desculpas esfarrapadas.

Afinal, ninguém precisa hackear celular para inventar conversa. É só inventar. E ninguém se daria ao trabalho de inventar conversa que “não tem nada demais”. Se é para inventar conversa, é para incriminar.

Moro se defende do mesmo jeito que condenava: sem ligar para a lógica.

Não importa, na verdade. Ele não tem a pretensão de convencer ninguém que tenha feito o primeiro semestre do curso de Direito. Ou que, alfabetizado, tenha lido o artigo 254 do Código de Processo Penal.

Sua aposta é que os poderes da República assumirão de vez que o Estado de direito é uma farsa e varrerão para baixo do tapete o mais grave escândalo de corrupção do Judiciário de que já se teve notícia no país.

O arbítrio disfarçado desliza, como de costume, para o arbítrio escancarado.

Luis Felipe Miguel

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