19 de jun. de 2019

Moro e Lava Jato nunca foram unanimidade

Tudo considerado, o fato mais relevante a respeito da imagem de Sergio Moro e da Lava Jato é que nunca contaram com o apoio unânime (ou perto disso) da opinião pública brasileira. Os números relativos à sua taxa de aprovação sempre foram bons, mas abaixo do que deveriam ser.  

Ainda não há pesquisas a respeito do que ocorreu depois das revelações do The Intercept Brasil. Muito antes delas, porém, a proporção dos que colocavam em dúvida o juiz e a operação já era elevada.    

Não se esperava isso lá atrás, quando começou. De um lado, tínhamos a corrupção, identificada pela ampla maioria das pessoas como um grave problema de nosso sistema político e administrativo (mais grave, na verdade, do que é objetivamente). De outro, um grupo de juízes, promotores e delegados, tidos como destemidos e competentes, dispostos a enfrentar os poderosos e a não deixar pedra sobre pedra. A marca de fantasia que adotaram era boa: prometia que, a jatos d’água, iriam limpar a sujeira.   

Tratava-se, no entanto, de uma dupla mentira, que a mídia corporativa impingiu ao País. Ao invés de mostrar que o estereótipo era falso, referendaram e consolidaram a noção de que a corrupção é a causa dos males nacionais. Escamotearam as evidências de incompetência e parcialidade de Moro e companheiros, a fim de glorificá-los como heróis.  

Nunca se investiu tanto, no Brasil, para produzir uma imagem. Desde quando engatinhava, essa imprensa os apresentou como se fossem a resposta contra a corrupção, como se houvesse um Dragão da Maldade que só os Santos Guerreiros seriam capazes de derrotar. Nem uma coisa, nem outra, era verdade mas tinha função: criava um caminho para combater, com aparente legitimidade, o PT e a liderança de Lula.     

Todas as emissoras de televisão, a começar pelo Sistema Globo, os jornais, revistas e veículos de internet ligados aos conglomerados de mídia martelaram durante anos nessa tecla, mas não conseguiram convencer a sociedade. Uma parcela expressiva não comprou a tese do heroísmo dos lavajatistas, especialmente nos segmentos populares. A República de Curitiba só foi efetivamente endeusada pelos antipetistas, até com razão, pois, no fundo, seu alvo primordial sempre foi o PT, como os vazamentos de suas conversas deixam claro.       

A lenda de que esses personagens são um consenso nacional, que “O Brasil apoia a Lava Jato”, fez parte da construção política que levou ao golpe contra Dilma, à prisão de Lula e à eleição do patético cidadão que hoje a encarna. Não passa, contudo, de uma fabricação.    

Em abril de 2017, em seu auge, depois da escalada contra as empreiteiras, de diversas prisões políticas e da formalização de cinco denúncias contra Lula, uma pesquisa CUT/Vox mostrou que não chegava à metade a parcela da população que considerava que Moro “fazia uma luta justa e usava métodos corretos”. Eram 46%. A maioria estava entre os que opinavam que “a luta de Moro era justa, mas usava métodos questionáveis, que não deveria usar” (16%), que “não fazia uma luta justa e agia politicamente” (19%) ou “não sabia” (19%).   

Um ano depois, em abril de 2018, 59% dos entrevistados em outra pesquisa CUT/Vox estavam de acordo com a frase “O processo, a condenação e a prisão de Lula ocorreram por motivos políticos”, enquanto 32% concordaram com a ideia oposta, de que “Foi um processo normal, sem se misturar com a política”. Agora, em abril de 2019, o quadro permaneceu sem mudanças em nova pesquisa CUT/Vox, sendo 55% os que viam as decisões contra Lula como “políticas” e 37% os que as achavam “normais”. Na mesma pesquisa, 49% responderam que “Sergio Moro condenou Lula à prisão para impedir que fosse candidato a presidente”, enquanto 43% opinaram que havia sido por Lula haver “praticado ilegalidades”. Mesmo entre admiradores de Bolsonaro, apenas 69% avaliaram que Moro agiu sem motivação política.  

O notável é quanto se gastou nesse mito da unanimidade em torno do lavajatismo, que contribuiu para a blindagem de seus atores. E quanta gente agiu oportunisticamente em função dele, achando que respondia “ao clamor das ruas” e se adequava “aos anseios populares”. No Congresso e no Judiciário, em especial nos Tribunais Superiores, não foram poucos os que mudaram suas convicções para se ajustar àquilo que “o povo quer”.   

Perderam tempo. O cenário que Moro e companhia têm pela frente é de desmoralização crescente, seja no plano ético e moral, seja no da eficácia, com a incompetência que exibem no governo do aliado. Quem aderiu ao lavajatismo para se dar bem está se dando mal.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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