1 de jun de 2019

Marco Antonio Villa: de vetor do neoconservadorismo brasileiro a corpo estranho


Já dizia o bom e velho Sartre que estamos condenados a escolher. Por evidente, toda escolha tem seu custo (aventuras aí incluídas). O historiador Marco Antonio Villa talvez só tenha se dado conta disso agora, posto que não aprendemos com os erros, mas com as consequências deles.

Dos muitos e variados meios de comunicação que se engajaram na tarefa de negar e corroer as bases do sistema político brasileiro elegendo os governos do PT como foco de “ todo o mal que aí está”, é provável que o Grupo Jovem Pan tenha sido o mais bem-sucedido. Astuta, velhaca, como é típico da mídia que persegue audiência a qualquer preço, a Jovem Pan captou o ânimo “anti-establishment” e anti-PT como ninguém. Surfou habilmente nessa onda, cresceu e, em época de vertiginosa preguiça cognitiva, ganhou proeminência sobre os concorrentes.

É aí que entra o Villa. Quer se goste dele ou não, trata-se de acadêmico com perfil, trajetória e produção. Ocorre que resolveu trocar tudo isso pela ribalta das personas célebres. Não se enganem: na ponta do lápis, pode até valer a pena. Mas o custo da aventura costuma ser bem alto.

Travestido de “jornalista”, Villa usou e abusou, por alguns anos, do proselitismo político. Quem ouvia ou assistia a seus comentários tinha a impressão de estar diante dos batidos faroestes italianos em que mocinhos e bandidos eram perfeita e nitidamente identificáveis. E dá-lhe surtos indignados contra “ladrões”, “incompetentes” e “corruptos”. Aliás, o professor fez das falas contra a corrupção sua cruzada pessoal.

Ambos, Jovem Pan e Villa, surfaram a onda conservadora e dela se fartaram. Villa concorreu obstinadamente para inflar o ventre da besta; para engordar a estrutura que lhe amplificava os brados de pretensa retidão e integridade. Na companhia de dois ou três garotos mal saídos das fraldas, digital influencers (seja lá o que isso signifique), fez amiúde o papel grotesco do intelectual orgânico da direita ressentida.

Não obstante, nunca é demais repetir, a escolha infeliz não veio sem custos. A agenda da Jovem Pan estava (e assim continua) assentada no obscurantismo, na ignorância, na apreciação rasa, ligeira, enfim, na ode ao lugar-comum. E Marco Antonio Villa, por mais, digamos, exótico que pareça, guarda da formação acadêmica um certo compromisso com a verdade e decência intelectuais. Em outras palavras, a brisa do Iluminismo não cessa de soprar mesmo para aqueles cujos holofotes são mais atrativos que a investigação da realidade social tal como ela se apresenta.

Villa não deu conta. Compatibilizar (alguma) honradez intelectual e condescendência com o governo Bolsonaro – e tudo aquilo que ele congrega e representa – foi demais até para ele. Coube ao Grupo Jovem Pan expurgar o (agora) corpo estranho. E dá-lhe sentimento de indignação e injustiça…

Paulo Emílio Douglas de Souza – Cientista político
No GGN

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