26 de jun. de 2019

Beijos e abraços

Os franceses se beijam, e não apenas quando estão se condecorando. Mas dois franceses só chegam ao ponto de se beijarem no fim de um longo processo de desinformalização do seu relacionamento que começa quando um propõe ao outro que abandonem o “vous” e passem a se tratar por “tu”. Os russos se beijam com qualquer pretexto e dizem que lá a progressão não é do aperto de mão para o abraço e o beijo, mas de beijos protocolares para beijos cada vez mais longos e estalados. Na Itália, os homens andam de braços dados na rua, sem que isso indique que estão noivos.

Os anglo-saxões são mais comedidos e mesmo os americanos, que são ingleses sem barbatanas, reagem quando você, esquecendo onde está, ameaça abraçá-los. Ninguém é mais informal do que um americano, ninguém mais antifrancês na maneira em que vai do “vous” ao “tu” sem nenhum ritual intermediário. Mas a informalidade não se estende a demonstrações físicas, como aquele nosso hábito de bater no braço quando se aperta a mão de alguém, aquela a amostra grátis de abraço. Somos da terra do abraço, mas também temos nossas hesitações afetivas. O brasileiro é expansivo, mas tem, ao mesmo tempo, um certo pudor dos seus sentimentos. O meio termo encontrado é o insulto carinhoso.

Não sei se é uma característica exclusivamente brasileira, mas é uma instituição nacional.

– Seu filho da mãe!

– Seu cafajeste!

São dois amigos brasileiros que se encontram.

– Não! Só me faltava encontrar você. Estragou meu dia.

– Este lugar já foi mais bem frequentado!

Depois dos insultos, se abraçam com fúria. Os sonoros tapas nas costas – outra instituição nacional – chegam ao limite entre a cordialidade e a costela quebrada. Eles se adoram, mas ninguém se engane. É amor de homem. E, quanto maior a amizade, maior a agressão. Você pode ter certeza que dois brasileiros são íntimos quando põem a mãe no meio. A mãe é o ultimo tabu brasileiro. Você só insulta a mãe do seu melhor amigo.

– Sua mãe continua na zona?

– Aprendendo tudo com a sua!

– Dá cá um abraço!

E lá vêm os tapas.

Luís Fernando Veríssimo

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