20 de jun. de 2019

As Dicotomias de Moro, ou as Argumentações de Schrödinger


Vou cobrar insalubridade não sei de quem, mas vou. Assisti ao showzinho depoimento do atual ministro da justiça e ex-juiz Sérgio Moro, que foi se explicar à comissão de Constituição e Justiça do Senado sobre a Vaza-Jato.

Eu vou afirmar que Sérgio Moro fez, sim, media training para comparecer ao Senado. Não tenho provas (algo me diz que elas vão surgir rapidinho), mas tenho convicções baseadas em evidências que começo a expor a seguir. Vamos lá.

Moro repetiu ad nauseam, com o objetivo de reforçar/fixar bem fixadinho os seguintes frames:

– Agi dentro da legalidade

– Agi com imparcialidade

– Cumpri com meu dever

– Foi hacker

– Divulgação dessas mensagens é crime

– Objetivo é minar a Lava Jato

– Objetivo é minar as instituições

– O trabalho é [resultado de] jornalismo sensacionalista

Duas palavras que Moro não disse em nenhum momento (eu, pelo menos, não ouvi): Intercept e Glenn Greenwald. O conselho profissional que ele deve ter recebido: “Não reforce o nome do seu algoz. Ninguém precisa saber o nome do seu algoz.” E Moro obedeceu ao comando do media training.

O que me causou espanto foi entender a lógica argumentativa do Batoré de toga marreco de Maringá atual ministro da Justiça. Vou batizá-la de Dicotomias de Moro ou Argumentações de Schrödinger, por dois motivos: primeiro porque eu também entendo de frames, e segundo pra deixar bem claro qual o procedimento discursivo do conge de Rosanja ministro de Bolsonaro.

Para explicá-la, permitam-me uma brevíssima parábola do filósofo que, preso e condenado à morte, ouviu de seu carrasco: “Diga uma verdade irrefutável e eu te solto.” O filósofo, então, declarou: “Eu minto.” Foi solto.

Tal qual o filósofo maroto da parábola, Moro apresentou pelo menos três argumentações contraditórias:

– O celular foi hackeado – o celular não foi hackeado, foi clonado

– Eu não reconheço as mensagens – as mensagens não têm nada de mais

– Eu não uso o Telegram – eu já usei o Telegram.

Em cima dessa construção discursiva, ele trabalhava as falas:
  • Um senador acusava Moro de crime citando as mensagens –> Moro dizia não se lembrar dos diálogos, portanto não tinha como afirmar se os diálogos são reais ou não. Podem ser, mas não são, mas podem ser, mas não são.
  • Um senador elogiava ou defendia Moro, citando as mensagens –> Moro não entrava no mérito da veracidade das mensagens, concordava com o interlocutor e agradecia a fala.
As inferências resultantes dessas afirmações são igualmente dicotômicas, pra não dizer contraditórias: afirmar não reconhecer as mensagens dá a entender que as mensagens são inegociavelmente falsas. Por outro lado, afirmar que as mensagens não têm nada de mais dá a entender que existe a possibilidade de as mensagens serem verdadeiras.

Afirmar “não uso o Telegram” dá a entender que as mensagens nunca existiram; afirmar “já usei o Telegram” dá a entender que as mensagens existiram.

E aí? Em qual Moro acreditamos? Spoiler: em qualquer um. Lá na frente, um deles será taxado de mentiroso, e será imediatamente salvo pelo outro Moro, aquele que dizia o contrário.

Estratégia de mestre, devo reconhecer. Tão genial mas tão genial que até mesmo um sujeito de poucas habilidades cognitivas é capaz de executar. (Mas quem elaborou essa jogada não foi um marreco qualquer, não! Foi profissional de alta estirpe!)

Outrossim (sempre usei essa palavrinha, nunca fui réquer, me deixem!), o ministro da justiça citou ad nauseam um texto que, lá na frente, pode (e vai) ser usado contra ele, do jurista americano Matthew Stephenson, The Incredibly Shrinking Scandal (https://globalanticorruptionblog.com/2019/06/17/the-incredible-shrinking-scandal-further-reflections-on-the-lava-jato-leaks/). Corri atrás desse texto (lincado pelo Antagonista, que Deus me perdoe) e achei bem interessante avisar aqui que o autor ressalva que:

– O texto ainda é passível de atualização, como foi atualizado desde a última semana, quando os textos do Intercept começaram a sair

– Não é especialista em leis brasileiras

– É possível que o juiz e o MP tenham se comportado com viés ideológico contra Lula. Ele ainda não detectou isso, mas reconhece a possibilidade.

E o pobrezinho ainda pergunta, inocentemente, o que seria uma notícia apócrifa, citada nas mensagens: “seria uma fonte anônima, não identificada, o que significa que a identidade da fonte é desconhecida inclusive da acusação, ou é uma forma de dizer que a acusação não vai formalizar nos autos o nome do informante, o que caracterizaria uma fonte confidencial, e não anônima?”

Quando ele descobrir que pode ser fake news plantada de propósito pelo MP via Imprensa colaborativa eu conto pra vocês qual foi a reação dele. Mas adianto que já tô com pena dele, coitadinho…

Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim
No GGN

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