4 de mai de 2019

Uma lição de resistência


A entrevista de Lula à Folha de S.Paulo e ao El País ainda vibra nesta redação e o que nos toca em primeiro lugar é a lição de altivez e desassombro que a marca para sempre. As palavras do ex-presidente sobre as razões que o levam a manter a resistência a partir da prisão curitibana nos comovem e nos empolgam.

Fundamental na análise deste momento crucial da história nacional o depoimento de Lula, dado antes do início da entrevista e gravado pelo valente Ricardo Stuckert, extraordinário e fidelíssimo biógrafo de quem acompanha a largo tempo. A Folha não o publicou, ao contrário do El País, representado por Florestan Fernandes Júnior, e pelo site online da Fórum. Alguns trechos, os mais significativos, estão abaixo.

Lúcida e implacável a análise da sequência de ações que do impeachment de Dilma Rousseff levam à condenação sem provas, aos desmandos de Temer e à eleição de Jair Bolsonaro. Fio condutor: a demência como forma de governo, o entreguismo do súdito e a demolição do Estado. O entrevistado reconhece a unicidade da conspiração à brasileira, do fatídico jeitinho de inventar motivos e enganar a plebe rude e ignara. Sublinha Lula haver países ameaçados, ou a pique, de perder as benesses criadas pela democracia, enquanto o Brasil nem chegou a conquistá-las. Os primeiros passos essenciais neste sentido, dados pelo governo petista, foram engolidos pelo golpe e suas consequências.

Tenho pelo meu eterno presidente, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema à República, uma amizade irrecorrível vincada pela franqueza a caracterizar uma relação de autêntica substância. Ele nunca deixou de se abrir comigo e eu nunca deixei de expor meu pensamento. Lula me cita a propósito do caso Battisti: é fato que insisti junto ao então presidente, a lamentar a espantosa ignorância de quantos viam um herói em um mero terrorista, ex-ladrãozinho do arrabalde romano. Preferiu dar ouvidos a quem nada sabe a respeito da história recente da Itália. Já a história deste Brasil brutalmente desigual ele a conhece a fundo e desnuda em toda a sua malignidade.

A situação em que precipitamos ele a percebe desde as raízes, aponta inclusive a diferença abissal a separar os atuais parlamentares que desonram o País e o Congresso que editou em 1988 a nova Constituição, presidido por Ulysses Guimarães, notabilíssima personagem merecedora da melhor lembrança. E a mim vem à memória o dia do começo de janeiro de 1984, quando o doutor e o governador Montoro me pediram para procurar o jovem líder do PT e reiterar o convite a participar da manifestação das Diretas Já convocada em São Paulo na Praça da Sé no aniversário da cidade, a 25 daquele mês. Logo almocei com Lula e ouvi dele o que esperava: “Estarei lá, obviamente”. Acompanhava-me um amigo caríssimo, jornalista italiano de passagem por São Paulo, e ele carregou a certeza de que eu era um potentado da República, a despeito do meu esforço de demovê-lo desta convicção. Lula foi à manifestação e figurou na linha de frente do palanque diante de uma plateia de 500 mil pessoas. Ao cabo da memorável festa cívica, um grupo dirigiu-se à Avenida Paulista e incendiou uma perua da Globo.

Outro era o Brasil. Compreensível agora do ponto de vista político o apoio irrestrito que Lula dá ao PT, a meu ver partido tíbio diante do descalabro terrificante dos dias de hoje. Mas Lula é um ser de emoções à flor da pele, generoso por natureza, amigo irredutível dos amigos – e não lhe faltaram os traidores. Por causa desse aspecto da sua personalidade, se quisermos encantador, e apesar do QI muito elevado, do senso de humor agudo, da vocação da tirada irônica, às vezes ele tropeça em enganos diria mesmo ingenuamente. Nem sempre a paz na terra premia os homens de boa vontade, conforme cantaram os anjos na noite de Nazaré. De todo modo, por raciocínios distintos, apreciei a sabedoria que o inspirou ao falar de Guilherme Boulos e Ciro Gomes.

Se eu estivesse entre os entrevistadores, não teria hesitado em fazer perguntas a respeito de uma alta corte naturalmente incumbida de velar pelo cumprimento da Constituição. Como sabemos, deu-se o exato contrário. O Supremo poderia ter agido desde 2014 para impedir a criminosa atuação da Lava Jato ao longo de um processo que transforma o juiz imparcial em inquisidor disposto a condenar sem provas ao sabor das fantasias dos pregadores de uma cruzada. E ignorou os poderes que lhe permitiam intervir no processo de impeachment de Dilma Rousseff para coibir mais um desacato à Lei Maior e a clamorosa injustiça cometida contra Lula. Um Supremo conivente e velhaco aderiu, tal o verbo correto, ao golpe de forma decisiva em todas as suas passagens. E ainda teria perguntado como enxerga agora os Toffolis e Fachins da vida, as Rosa Webers e Cármen Lúcias, e outros que o quiseram onde hoje se encontra.

De minha parte, recordo que no dia 15 de abril de 2015, Dilma no início do segundo mandato de Joaquim Levy a tiracolo, almocei com Lula em minha casa, com a companhia do professor Belluzzo e de minha filha Manuela. Lá pelas tantas, ao enfrentar um ossobuco com raspa de limão sobre o tutano, sustentei a necessidade imperiosa de uma pronta reação. O plano do golpe estava em andamento desde a eleição e o impeachment da presidenta e a condenação sem provas pelo inquisidor curitibano já figuravam no script. Não se tratava de profecias, mas de constatações. Sugeri: aluga um ônibus e organiza uma caravana, começa por sua terra, Garanhuns, atravessa o Nordeste, vai ao Norte, desce para Salvador, depois Belo Horizonte, enche as praças, abre os olhos do povo, faz um barulho do capeta. Como sempre, disse o que penso. A caravana saiu quando era tarde, Lula já condenado. Ninguém me tira da cabeça que, se ele aceitasse minha sugestão, não haveria golpe e tudo o mais.

O prólogo

Trechos do documento lido antes da entrevista

• Aquele golpe começou a ser preparado em 2013 quando a Rede Globo de Televisão usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o governo e até contra o sistema democrático. Tudo valia para tirar o PT do governo, inclusive a mentira e a manipulação pela mídia.

• O novo Brasil que estávamos criando junto com o povo e as forças produtivas nacionais foi retratado pela Rede Globo e seus seguidores na imprensa como um país sem rumo e corroído pela corrupção. Nem em 1954 com Getúlio nem em 1964 contra Jango se viu tanta demonização contra um partido, um governo ou um presidente. Centenas de horas do Jornal Nacional e milhares de manchetes de revistas contra nós. Nenhuma chance de defender nossas opiniões. Mesmo assim, em 2014, derrotamos os poderosos nas urnas pela quarta vez consecutiva.

• Para quem não conhece o Brasil, nossas elites dizimaram milhões de indígenas desde 1500, destruíram florestas, enriqueceram por 300 anos à custa de escravos tratados como se fossem bestas. Colonos e operários tratados como servos. Divergentes como subversivos, mulheres como objetos. Diferentes, como párias. Negaram terra, dignidade, educação, saúde e cidadania ao nosso povo.

• Criamos o PT em 1980 para defender as liberdades democráticas, os direitos do povo e dos trabalhadores. O acúmulo das lutas do PT e da esquerda brasileira, do sindicalismo dos movimentos sociais e populares nos levou a consolidar um pacto democrático na Constituinte de 1988. Esse pacto foi rompido pelo golpe do impeachment em 2016 e por seu desdobramento que foi a minha condenação sem culpa, e minha prisão em tempo recorde para que eu não disputasse as eleições.

Mino Carta

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