10 de mai de 2019

Tábata e as secundaristas das ocupações vão desenhar o futuro da educação

Os maiores avanços civilizatórios brasileiros ocorreram quando foi possível montar pactos sociais em torno de temas relevantes.


Os maiores avanços civilizatórios brasileiros ocorreram quando foi possível montar pactos sociais em torno de temas relevantes.

Foi assim com a saúde. O grande pacto que se consolidou na Constituição de 1988 criou uma bancada da saúde, independentemente de partidos políticos. Foi o que garantiu a continuidade das políticas de saúde passando por Itamar, FHC, Lula e Dilma até desembocar no mais consistente programa de política industrial integrado da história: o Programa de Desenvolvimento Produtivo, que a mídia tratou de destruir devido à disputa partidária.

No governo Collor, a implementação da Câmara Setorial da Indústria Automobilística foi o primeiro passo consistente para se praticar pactos democráticos. Viam-se, ali, a indústria automobilística, fornecedores variados, sindicatos de trabalhadores em torno de um mesmo objetivo: conferir competitividade à indústria brasileira frente aos competidores externos.

O auge desse modelo foi na fase final do governo Lula. A Conferência de Inovação juntou empresas inovadoras, pesquisadores, sindicatos de técnicos em laboratórios, universidades. A da educação criou consensos relevantes entre associações de secretários municipais, ONGs do setor privado, sindicatos de professores.

Por tudo isso, não se entende a campanha que alguns setores fazem contra a jovem deputada Tábata Amaral, querendo provar o que? Que ela não é uma líder de esquerda, porque aprova a reforma da Previdência entre outros temas liberais.

E não é mesmo. Mas a análise a ser feita é outra: Tabata é uma guerreira da educação em uma cidadela, dos liberais, que precisa, mais do que nunca, ser inoculada com bandeiras sociais, reforçando o papel da ONG Todos Pela Educação.

O grande desafio consiste em encontrar os pontos em comum entre as bandeiras liberais e da esquerda.

Lembro-me de um Brasilianas, ao qual compareceram a representante do movimento Todos Pela Educação, a presidente da associação das secretárias de educação do estado e uma sindicalista.

Na praça, havia uma discussão sobre os modos de melhorar a educação. Uma corrente primária abominava qualquer forma de avaliação. Outra corrente, tão primária quanto, colocava os indicadores como ponto único de motivação. Educadores de pensamento primário chegaram a sugerir que cada escola ostentasse a nota IDEB na entrada para manter os alunos permanentemente convocados para a guerra das notas. E eram incensados por uma mídia incapaz de entender a educação acima dos lugares-comuns.

No Brasilianas, explicitou-se o consenso: o professor tem que ser bem remunerado e contar com condições boas de ensino. Postas essas duas pré-condições, sua atuação tem que ser medida e avaliada.

Nos últimos anos, antes do desastre do impeachment, houve enormes avanços nos modelos de avaliação. Mais que isso, foram sendo identificadas as melhores práticas e disseminadas para o restante da rede, os levantamentos passaram a levar em conta o contexto social de cada escola, as relações entre pais, alunos e professores. Do pequeno Piauí vieram lições preciosas de modelos educacionais, assim como do Ceará. Depois, o próprio MEC identificou algumas dezenas de escolas modelo, e seus exemplos foram disseminados. Enfim, um modelo para tratar com a complexidade do mundo real, e que foi atropelada pelo golpe “iluminista” do Ministro Luis Roberto Barroso.

Essa discussão terá que ser retomada quando o país recuperar os valores civilizatórios. E louve-se o fato de que, em um dos lados da grande frente em defesa da educação, estará Tábata do Amaral. Porque do outro lado estarão as bravas meninas líderes do mais emocionante movimento gerado pelas redes sociais: o da ocupação das escolas secundárias.

Luís Nassif
No GGN

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