6 de mai de 2019

Por que o Bolsonarismo odeia as Universidades, os professores e Paulo Freire?

Imagem: Luiz Carlos Cappellano
Esse entra e sai e fica não fica de Ministros e colaboradores no Governo Bolsonaro está ensinando, na prática, uma coisa que pouquíssimas pessoas compreendem: que uma boa gestão pública não funciona, e nem se sustenta, por um viés meramente gerencial e técnico. Bons gestores precisam saber fazer política, ou suas técnicas, ideias ou táticas de gestão não lhe servirão de nada.

O gestor que não tem experiência ou maturidade política acredita que o Discurso do Mestre funciona sem falhas. O Discurso do Mestre é o nome do tipo de laço social nomeado por Jacques Lacan, onde o Mestre, agente do discurso, vai se relacionar com o outro colocando-o na posição de escravo. O Mestre, nesse tipo de laço, é aquele que acredita que basta dar uma ordem para que o outro o obedeça: sem questionamentos, sem críticas e sem falhas. Tomando o outro como seu escravo, o Mestre precisa apenas “levantar o dedo e fazer funcionar”, se autorizando pelo seu poder e seu saber.

Obviamente que numa organização privada, o Discurso do Mestre funciona um pouco melhor, já que o Mestre pode impor mais seu poder sobre seus subordinados. Pode simplesmente demiti-los, por exemplo, quando não cumprem seu papel subserviente de “escravos”. Mas em se tratando de gestão pública, a coisa não é tão fácil assim, afinal, nesse tipo de gestão, o Mestre cumpre uma função, mas não pode encarná-la. Na seara pública republicana, um prefeito, um ministro, um presidente ou outro gestor qualquer, apenas cumpre um papel por um determinado tempo, na medida que não é dono do poder (apesar de alguns acreditarem que são).

Portanto, a gestão pública faz uma coisa bastante interessante com o Discurso do Mestre. Num fluxo de poder invertido, o Mestre vai precisar ser autorizado pelos seus subordinados. Pela via da palavra, da argumentação, do compromisso pelo trabalho, o Mestre terá que conquistar seus subalternos, funcionários ou parceiros, na medida em que eles não aceitarão passivamente a condição escravos. Na gestão pública, um líder precisa compreender que o poder está com o outro, e ele precisará conquistar tal poder para si e canalizá-lo para o bem comum. E conquistar fazendo política: política na melhor acepção desta palavra.

Isso quer dizer que gestão pública dá muito mais trabalho, pois demanda maturidade e experiência política. Demanda capacidade de articulação e argumentação, de trabalho em equipe, de respeito pelo outro e, sobretudo, de aceitação de que as coisas não funcionarão com um “estalar de dedos”. Gestão pública demanda mais desejo do que força, pois é o exercício constante do fracasso do poder. Ao contrário do que se imagina, não é um trabalho fácil. Não por acaso, as privatizações são vistas como saída para os impasses no trabalho de alguns gestores. O servidor público é a certeza do fracasso para o gestor que não sabe fazer política.

E o que temos nesse Governo é, exatamente, a total incapacidade para a política, que ele declaradamente, rejeita e denega. Aliás, Bolsonaro se elegeu prometendo exatamente isso, que botaria “ordem no caos” com sua pose de militar-macho-chefe-violento, colocando no poder um Mestre capaz de comandar pela força, sem precisar da política. Para isso, também se apoia no nome de Deus, na expectativa que nos comportemos sempre como fiéis devotados.

Mas a realidade chegou rápido para o Governo, como já se sabia. Os Ministros já esbanjam mal-estar em seus cargos, e alguns já “deram baixa”. O próprio Bolsonaro, em poucos meses, admitiu não ter nascido para ser presidente, mas para ser militar. Ou seja, admitiu que só sabe exercer o poder pela força, e que é inábil para a política. E de fato é; um desastre.

Assim sendo, não havendo desejo e nem capacidade para que este Governo se sustente pela via da política, lhe resta seguir pela via original: a da força ou a religiosa, que coloca o outro na condição de escravo, súdito, soldado ou fiel. Por isso, os professores e as Universidades são os maiores inimigos deste Governo. São os que, por sua relação com o saber/poder, não vão se submeter facilmente, e que podem ainda ensinar os outros a não se submeterem também. Esse Governo precisa de pastores e gurus, não de professores.

Isso explica também a paranoia dessa gente com Paulo Freire e sua obra. Em seu último livro – Pedagogia da Autonomia – Freire se ocupa de uma ética educativa que considera o valor, o poder, a cultura e a singularidade do educando. Um educador que faça uso da ética de Paulo Freire, deseja que seu aluno aprenda a construir seu próprio caminho, e não que siga o que ele mandar. Educar para a autonomia é educar para a impertinência, para a libertação, para a indignação. É educar para convocar o exercício da política em toda parte, tudo que esse Governo não precisa e não quer.

Paulo Freire só incomoda por ser absolutamente necessário na resistência ao Bolsonarismo.

Precisamos de Paulo Freire na veia, no café, no shampoo e pendurado na frente da porta de casa…

Paulo Freire!

Rita Almeida
No GGN

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.