11 de mai de 2019

Parece o PSL, mas é a Lava Jato


Eu não estarei lá, mas sei exatamente como vai ser: haverá gente vestindo camisetas estampadas com o rosto das personagens sentadas à mesa, distribuição de adesivos com o nome delas, selfies, clima de ufanismo e auto-celebração. Também se verá, na plateia, peças em verde e amarelo da campanha presidencial de Jair Bolsonaro – natural, já que a estrela do evento é figura de proa do governo de extrema-direita – e, provavelmente, partidários empunhado o simpático "pixuleco", o boneco do ex-presidente Lula vestido de presidiário.

Não estou falando de uma reunião do PSL, o outrora nanico partido que foi inflado pela onda reacionária de 2018, mas do “Congresso Nacional sobre Macrocriminalidade e Combate à Corrupção”, promoção da Escola da Magistratura do Paraná, a Esmafe, uma entidade privada vinculada à associação que reúne juízes federais no estado e que fatura oferecendo cursos para “capacitar profissionais a conquistarem o cargo desejado, notadamente para o concurso de provimento de cargo de juiz federal".

Sergio Moro, ex-juiz, hoje político, é naturalmente a estrela do congresso, marcado para segunda-feira e com ingressos à venda num site que costuma vender entradas para shows e espetáculos. Além dele, estarão no teatro alugado pela Esmafe, o Positivo, maior de Curitiba, o juiz Marcelo Bretas, o procurador de Justiça e artista naïf Deltan Dallagnol, os delegados Márcio Anselmo e Igor Romário de Paula, o juiz de segunda instância João Pedro Gebran Neto (o relator da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4ª Região que não viu problemas em caminhar quase de braços dados com uma política adversária de Lula, a deputada federal Joice Hasselmann, que no passado de jornalista era dada a plagiar colegas) e grande elenco. Todo ele, claro, ligado à Lava Jato – vozes críticas ficam para a próxima.

"Isso aí parece convenção de partido político dos Estados Unidos", zombou uma pessoa que por anos trabalhou lado a lado com Moro na Justiça Federal do Paraná, com quem falei por telefone. No prédio em que a instituição funciona, em Curitiba, o evento foi motivo de piada pelos corredores. "Não será exatamente um debate de ideias", me resumiu um funcionário graduado.

Não importa. Com a outrora inatacável reputação abalada por más notícias, declarações desastradas, recuos forçados, fotos constrangedoras e o embaraço de ter se tornado colega de um alvo da Polícia Federal, Moro talvez queira mesmo o carinho incondicional de seu público. Curitiba, cidade provinciana que julga receber menos atenção do que merece, se ufana da operação policial que a fez famosa e moradia – forçada – de gente importante.

Para seus fãs, tanto faz se Moro, ao aceitar se tornar ministro de Jair Bolsonaro, colocou em xeque a propalada isenção de toda a Lava Jato e tornou verossímil o discurso de Lula – que jamais conseguiu explicar por que não achou nada demais que empreiteiras com negócios bilionários com o governo dele decidissem reformar de graça um sítio que ele frequentava e um apartamento que pretendia comprar – de que a maior investigação brasileira sobre corrupção foi na verdade só um pretexto para tirá-lo da corrida eleitoral.

O problema é a que a coisa não parece se resumir a isso. Moro jura não ter ambições eleitorais, mas, dados os seus movimentos recentes, há quem só acreditará nisso em 2022 – se o nome dele não estiver na urna (ou nas cédulas de papel, a depender da vontade de Bolsonaro). Bretas, embora juiz, já se confessou picado pela mosca azul da política, defendeu o governo Bolsonaro e é amicíssimo do também ex-juiz, atirador e dublê de governador Wilson Witzel. Dallagnol, coordenador da operação, mandou que uma empreiteira espalhasse cartazes atribuindo à Lava Jato – e não ao Ministério Público, veja bem – a redução do pedágio no Paraná.

Em política, se diz que não há vácuo de poder. Com a incerteza que a guerra aberta entre olavistas e militares criou no governo federal, a Lava Jato – que há tempos já não faz questão de parecer apartidária – achou que é hora de colocar seu bloco na rua. Just in case.

Rafael Moro Martins
No The Intercept

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