9 de mai de 2019

O que a oposição está indo fazer nos quartéis?

Até 2018, os militares – como corporação – só chegaram ao poder no Brasil pela via do golpe de Estado. Não vale colocar na conta os mandatos de Hermes da Fonseca (1910-14) e de Eurico Gaspar Dutra (1946-51). Ambos despiram-se da farda e foram às urnas como líderes civis, dentro das regras do jogo (eu ia complementar com o adjetivo “democrático”, mas ele não cabe na lógica da República Velha).

Nas eleições passadas, uma terceira via foi encontrada. O aboletamento – com grande dose de oportunismo – na garupa de um líder de extrema direita, que usou a patente de “capitão” como marketing pessoal, sem nunca ter tido vinculação real com a tropa. No máximo, trata-se de sujeito ligado às milícias, com quem a banda podre dos quartéis topou fazer uma joint-venture de ocasião.

OS CÁLCULOS DOS ELEMENTOS fardados não levavam em conta a deterioração tão acelerada do miliciano. Possivelmente avaliaram que o poder das armas lhes daria o poder de tutela sobre o Planalto. O aboletamento de quase duas centenas de oficiais em cargos de primeiro e segundo escalão pareciam ser a garantia de mar de almirante por quatro anos.

Bolsonaro repeliu a tutela e exibe suas armas: 57 milhões de votos e uma fatia compacta de apoiadores que soma algo em torno de 20% da população. Raciocina como chefe de falange e não como político. AS SA (Sturmabteilung, ou milícia paramilitar), no início do nazismo alemão nos anos 1920, se prestavam a esse fim. Opositores deveriam ser tratorados e ganhava-se o poder na base da intimidação e do terror.

Até agora, o presidente e seus capangas – o guru do ânus alheio, os titulares das pastas da Educação, Mulher, Relações Internacionais e Meio Ambiente e seus três rebentos – têm levado a melhor nas disputas intestinas da administração.

TÊM LEVADO A MELHOR SOBRE OS MILITARES, é bom sublinhar. Anunciou cortes de 43% e ninguém lhe fez oposição frontal, segundo relatos de uma reunião com tais setores, ocorrida na terça (7).

Tudo indica que a moeda de troca é a reestruturação da carreira – com ganhos reais nos soldos da oficialidade para cima – e a garantia de que ficarão fora da reforma da Previdência. E, tudo indica também, ser esse o motivo dos quartéis, apesar de tensos, não terem se manifestado abertamente sobre a navalhada. Em outras palavras, Bolsonaro comprou seus aliados fardados com boa moeda.

Isso posto, fica difícil entender um trecho da coluna de Maria Cristina Fernandes, publicada hoje (9), no Valor (eu a reproduzi mais cedo nesta página). Escreve a articulista:

“SE DEMONSTRA PREOCUPAÇÃO com sua vulnerabilidade, o presidente da República, ao manter a Defesa no topo dos ministérios atingidos [pelos cortes orçamentários], favorece a aproximação dos militares com o Congresso. Uma comitiva de deputados foi à base de Alcântara a convite do comandante da Aeronáutica. Um grupo de deputados petistas já esteve com o comandante da Marinha e outro se encontrará com o comandante do Exército, o general Edson Pujol, na próxima semana. A pauta, encabeçada pelo projeto de reestruturação de carreira, em tramitação na Casa, ganha, com o bloqueio, mais substância”.

Maria Cristina retrata a tensão mencionada acima. O que não se entende é o porque “um grupo de deputados petistas” foi se meter numa seara que não lhes diz respeito. Aliás, foram com o seguinte propósito, repetindo o artigo do Valor:

“A pauta, encabeçada pelo projeto de reestruturação de carreira, em tramitação na Casa, ganha, com o bloqueio, mais substância”.

Disso tudo, infere-se que deputados petistas topam o lobby da farda na defesa da moeda oferecida por Bolsonaro. Entram num negócio de compra e venda, em que de um lado está a milícia oficial e de outro oficiais de extrema-direita.

Se for isso mesmo, trata-se de roubada sem tamanho. As facções dentro do governo estão se comendo. Não é função da oposição servir o tempero e a sobremesa para um banquete para o qual não foi convidada.

Faz isso, sabe-se lá o porquê, dando objetivamente força a um setor que comunga de duas metas essenciais de Bolsonaro: eliminar a esquerda e os setores populares da vida pública e implantar a ferro e fogo uma nova etapa do projeto neoliberal no Brasil.

Gilberto Maringoni
No GGN

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