20 de mai. de 2019

Mourão é rima, mas não é solução


A partir dos últimos acontecimentos envolvendo o governo Bolsonaro, parece cada vez mais claro que ele está inviabilizado. A palavra impeachment voltou às bocas. Porém, substituí-lo não é tão simples assim. Em política tem fila e a senha do General Mourão está longe de ser a próxima. Sobra o que, então?

Todo mundo é incompetente, inclusive você

Bolsonaro não foi capaz de viabilizar minimamente uma base de apoio no Congresso, isso apesar de seu partido ter a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados – ou talvez, paradoxalmente, por isso – “O congresso Youtube”. Bolsonaro montou um ministério que dá ao seu governo características de insânia. E seus dois “superministros”, Sergio Moro e Paulo Guedes, não resistiram ao teste da realidade administrativa. O núcleo militar que lhe serviria de ponto de equilíbrio foi torpedeado pelo “núcleo filosófico-familiar” que o desequilibra.

Sintam-se à vontade para completar a lista acima, caberiam muitas outras características do governo Bolsonaro que o tornam disfuncional. Inclusive problemas familiares com o Ministério Público.

Porém, aqui não se deve fazer a leitura automática de que Bolsonaro, enquanto fenômeno político, é fraco. Não o é.

Para entender Bolsonaro é preciso ter lido “Todo mundo é incompetente, inclusive você” – um clássico da administração de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Lá está estabelecido o “Princípio de Peter”:

“Em um sistema hierárquico, todo funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência”.

Descreve claramente o Governo Bolsonaro, não? Bolsonaro foi eleito para seu nível de incompetência. Simples assim. Foi necessário somente cinco meses para isso se tornar consenso.

Incompetente, mas não fraco

Bolsonaro atingiu seu nível de incompetência, mas, de modo algum é fraco.

Bolsonaro mantém-se com um piso de 35% de aprovação, desde o primeiro turno das eleições. Pelo menos isso é o que mostram as pesquisas de vários institutos. Mais do que isso, mostrou uma interessante capacidade de resiliência. Perdeu aceitação nas camadas mais abastadas e escolarizadas que o apoiavam antes das eleições, ganhou apoio nas camadas menos escolarizadas e de menor renda – camadas estas que antes apoiavam Lula.

O problema é a radicalização que Bolsonaro provoca. Os que são contra Bolsonaro são em número quase igual ao dos que apoiam – sem um significativo colchão de amortecimento de uma faixa intermediária que evitasse confrontos diretos entre os extremos.


Mas Bolsonaro é um personagem forte no imaginário do brasileiro medíocre.

O grupo de Bolsonaro montou uma poderosa rede de comunicação direta com a população usando as redes sociais. É o único político, desde Brizola, que peita a Globo e não cai instantaneamente fulminado por um raio.

Em política tem fila

Não tenhamos dúvidas, a agenda político-econômica com força para fazer o governo ainda é a do conservadorismo. Bolsonaro será tirado do comando por ser incapaz de implantá-la. Mas uma agenda minimamente de esquerda não se mostra viável. Mesmo uma mais ao centro, seria uma concessão.

É nesse cenário que começa a chamar atenção a “alternativa Mourão”.

Mas Mourão – o vice-presidente agregado por Bolsonaro à chapa justamente por parecer, à época, ser tão mais radical que desencorajaria um golpe – teria competência política para implantar a agenda que Bolsonaro não foi capaz?

Essa agenda necessariamente deverá ser negociada com o Congresso. Bolsonaro tem 30 anos de vida parlamentar – de atuação insignificante, mas é alguém vindo do parlamento. Mourão vem diretamente da caserna, sem nenhum traquejo no trato com o Congresso – ou no trato com quem quer que seja, inclusive superiores hierárquicos.

Mourão tem – e não se acredite que mudou em tão pouco tempo – os mesmos pendores autoritários que Bolsonaro. Ainda que com momentaneamente mais continência verbal, tolice seria acreditar que se mostraria um moderado – ou tutelável – após assumir o comando. E Mourão tem cacoete e posto de comandante – coisa que Bolsonaro não tem.

Mas Mourão não está no coração e mente de ninguém. Mourão é um neófito e um outsider.

O Poder Econômico deve estar analisando com muito cuidado o seu perfil, antes de decidir por afastar definitivamente Bolsonaro e substituí-lo por Mourão. O que Mourão pode acrescentar que já não temos com Bolsonaro? Pode acrescentar, isso sim, o que já temos com Bolsonaro. E isso pode não favorecer a sua escolha.

A Solução Collor e a Solução Itamar

A “Solução Collor” deriva da tentativa que foi feita no governo Collor para salvá-lo através de uma tutela. Quem ainda se lembra do “Ministério Ético” que foi colocado no poder nos estertores do governo Collor? Os ministros foram escolhidos a dedo com o aval do mercado e acordo com o Congresso. Collor aceitou o cabresto. Mas o ministério não resistiu às novas denúncias, agora vindas diretamente do irmão – Pedro Collor – publicadas na capa e nas “páginas amarelas” da revista Veja. E na Isto É, o motorista entregando o caminho para dos cheques.

Bolsonaro, no entanto, não dá sinais de que aceita tutela. Creio até que, por traço de personalidade, aceitaria – sabe ficar quietinho, quando lhe convém. Mas tem os filhos – e aí, não há acordo – é tudo ou nada.

Chamaram manifestações de apoio para o próximo domingo – 26 de maio de 2019. Conhecemos a “turma”. Já a vimos em ação na greve dos caminhoneiros. Muito “grupo de Whatsapp” e muita radicalização.

Pode dar merda, pode dar em nada. Não parece que farão a “revolução”. Até porque ninguém faz uma revolução em um domingo.

Mas é uma clara sinalização de que a “Solução Collor” é inviável com a “família Bolsonaro” no poder.

E ainda que, após o “fatídico” 26 de maio de 2019, houvesse uma capitulação e a tutela parecesse algo aceitável para os Bolsonaro, as investigações sobre as traficâncias de Flavio Bolsonaro e Queiroz e as milícias cariocas fatalmente alcançariam Jair Bolsonaro – o presidente – e o inviabilizariam de qualquer modo. O mesmo aconteceu com Collor e PC Farias.

Mourão é rima, mas não é solução

Restaria a “Solução Itamar”. Itamar Franco – vice-presidente de Collor – aceitou ser presidente em um governo de um “parlamentarismo branco”. FHC foi seu primeiro-ministro. FHC era o chefe do governo de facto. FHC tinha o aval do Poder Econômico e implantou elegantemente a sua agenda.

Costurar um acordo com Rodrigo Maia e com a banda fisiológica do Congresso para substituir Bolsonaro é ação de “manual de procedimentos padrão”. O impeachment sairia, ainda que fosse desgastante mais um impeachment em tão pouco tempo. Ocorre a questão não é essa.

As questões que realmente importam: Morão tem o perfil de Itamar? Quem seria o FHC de Mourão? Sobrou um líder político à direita ou ao centro para conduzir a transição e negociar a agenda conservadora? Qual o seu nome? Qual o seu partido?

E o que fazer com Sergio Mouro e Paulo Guedes, em um governo Mourão? Como mantê-los superministros sob as ordens de um tutor?

Sobram rimas, falta uma solução. Ou ela existe, mas está presa, o que dá no mesmo.

De qualquer modo, a solução não parece ser Mourão. Ainda que rime. Para se viabilizar a ponto de impor a agenda do Poder Econômico, um governo Mourão não parece que rimaria com negociação – parece que rimaria melhor com “dura”.

PS: duas datas a se aguardar antes de abrir o dicionário de rimas na letra “D”.

26 de maio de 2019 – para ver o tamanho do apoio de Bolsonaro nas ruas. Nas redes sociais é grande – mas operar robô no asfalto é diferente.

23 de maio de 2019 – para ver se Lula convida Carlos Lupi – presidente do PDT – para ser padrinho do seu casamento.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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