11 de mai de 2019

Governo Bolsonaro padece da síndrome de Dunning-Kruger


Zezinho chega da escola e fala para a mãe: “Descobri que sou mais inteligente que a professora”. “Por quê?”. “Passei de ano e ela continua no mesmo”.

Lembrei dessa piada ao ler a notícia que o nosso querido ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), tirou nota zero em sociologia na USP.

Weintraub não deixa por menos. Confunde o autor Kafka com o prato árabe kafta. Com uma bela caneta Bic, assina o que ele chama de “contingenciamento” e tira 30% da grana das universidades federais. Vai explicar o corte, usando chocolates, e erra ao confundir 30% com 3% (uma tristeza). Paralisa pesquisas. Corta bolsas de estudo. Interrompe mestrados e doutorados. Destrói carreiras. Mata o conhecimento. O governo Bolsonaro é um devastador incêndio cultural de consequências nefastas.

Um psicoterapeuta freudiano diria que Weintraub está se vingando do mundo acadêmico. Está dando um tapa na cara daqueles velhos professores universitários que lhe deram zero na faculdade. “Cheguei no poder. Agora, vocês vão ver o que é bom pra tosse”.

Não acredito nessa versão. Li toda a obra de Freud e de autores neofreudianos, durante o doutorado, feito na USP com bolsa do CNPq. Graças ao CNPq, pude fazer o que se chama de “bolsa sanduíche” e estudei na Sorbonne, em Paris, tendo como orientador o renomado sociólogo francês Michel Maffesoli.

Nasci em uma família de classe média. Nos anos 60, tínhamos TV, fogão, geladeira e até carro (DKW). Aos 15 anos, a empresa onde meu pai trabalhava faliu e tive de ir à luta. Arrumei emprego em uma adega. Carregava caixas de bebida. Entre 16 e 18 anos, fui pesquisador de um instituto do tipo Ibope, indo de casa em casa, para saber o que os telespectadores tinham assistido na noite anterior. Aos 19, era auxiliar administrativo no Bradesco Vila Mariana.

Nunca parei de trabalhar, nem de estudar. Fiz duas faculdades à noite: letras e jornalismo. Achava meu conhecimento extremamente limitado, por isso fui para a pós-graduação, fazendo mestrado na Universidade Metodista, e posteriormente o doutorado na USP.

Sem bolsa de estudo, não poderia ter cursado a pós-graduação. Sem bolsa de estudo, não teria feito minha tese Espreme que sai sangue; hoje, felizmente, referência acadêmica na área de comunicações.

Esse pessoal, que ocupou o governo, não está se vingando dos acadêmicos. Como o Zezinho da piada, eles padecem da síndrome de Dunning-Kruger.

Aliás, lendo o jornal, com as últimas notícias do governo – sempre angustiantes – me sinto cercado desse pessoal.

Os efeitos de Dunning-Kruger parecem se espalhar como as sementes de dente de leão. Na semana passada, assisti a um documentário na Netflix sobre gente que acredita que a Terra seja plana. Os terraplanistas. Outros me param na rua e me explicam que o mundo foi construído em seis dias por um ser superior, o Criador, que descansou no sétimo dia. Tem aqueles que ficam no YouTube e querem me influenciar “digitalmente”, vendendo porcarias que eles ganham para veicular. É o famoso jabá normatizado.

Simultaneamente, indiferente aos terraplanistas, um robô chinês planta algodão em solo lunar. E o carro da Tesla já passou pelo planeta Marte.

Estou lendo A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser. Ele faz um levantamento interessante sobre o conhecimento humano. Cita os gregos que fundaram a filosofia ocidental, como Tales de Mileto e seus seguidores Anaximandro e Anaxímenes, entre outros.

Quinhentos anos antes de Cristo, esse pessoal já falava do universo, da evolução das espécies pela água, previam eclipses solares, discorriam sobre o movimento das estrelas, mencionavam  a existência de planetas (“viajantes do espaço”, em grego) e ensinavam seus discípulos que toda a matéria era constituída de átomos (“aquilo que não pode ser dividido”).

Filósofo, matemático, astrônomo, Tales de Mileto fez fortuna, prevendo com um ano de antecipação uma safra recorde de azeitonas. Tales comprou dezenas de prensas e, quando as azeitonas se multiplicaram nas colheitas, ele enriqueceu alugando as prensas para os proprietários de terras.

Gleiser escreve que “se assumirmos que ‘algo’ criou ‘tudo’, caímos em uma regressão infinita; quem criou o ‘algo’ que criou o ‘tudo’?” Ele observa que a necessidade de entender a nossa origem e a do Universo é inerente a todas as culturas.

Todos os agrupamentos humanos fizeram o que ele chama de “A Pergunta”: De onde viemos, que pode se multiplicar em centenas de outras perguntas complementares: estamos sós no Universo? há outras vidas inteligentes em outros mundos? e por aí em diante.

O que estou querendo dizer com esse papo todo é que em determinados momentos da existência humana convivemos com homens e mulheres de inteligência acima da média. Gente que foi atrás de respostas e levou o conhecimento até onde ninguém jamais estivera, parafraseando Jornada nas Estrelas.

Ocorre que, na maior parte do tempo, somos obrigados a conviver com gente muito burra, antiquada, ultrapassada, conservadora, tacanha, que faz a sociedade regredir e não avançar.

Tenho pena daquele rapaz, que quer estudar e precisa de uma bolsa de estudos, e hoje vai dar de cara com a porta dos recursos universitários fechada.

Enquanto Weintraub fechava a porta para o conhecimento, na Alemanha, houve o repasse de 160 bilhões de euros para as universidades e pesquisadores.

Para encerrar, felizmente, temos uma boa notícia no Brasil: os nossos amados juízes do STF vão continuar comendo lagosta e tomando champagne. A Justiça liberou a licitação para a compra desses alimentos, sem dúvida, essenciais para o bom funcionamento das togas e paramentos dos deuses que habitam o Supremo.

Danilo Angrimani
No DCM

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