13 de mai de 2019

Entenda as características das informações disseminadas nas redes durante as eleições

"É necessário prestar especial atenção ao papel do YouTube, que supera de longe as concorrentes em volume de compartilhamento"

Pesquisa acerca do emprego do WhatsApp durante as eleições presidenciais de 2018 mapeia as características das fontes de informação que circularam nestes ambientes. Dados foram coletados em 213 grupos públicos de apoio aos presidenciáveis e todos os 77.636 links postados foram examinados

“Eu acredito que o melhor meio de mídia, que presta o melhor papel à verdade, à divulgação dos fatos, se chama YouTube”, disse um apoiador de Jair Bolsonaro ao jornal Folha de S. Paulo no início de abril. A forte utilização da plataforma de vídeos como fonte de informações políticas não é exclusividade dos apoiadores do atual presidente. É isto, pelo menos, que demonstram os dados de nossa pesquisa acerca do emprego do WhatsApp durante as eleições presidenciais de 2018.

A partir dos dados coletados em 213 grupos públicos de apoio aos presidenciáveis, foi possível mapear as características das fontes de informação que circularam nestes ambientes. Para isso, foram examinados todos os links postados nos grupos (totalizando 77.636 endereços). O texto deles foi analisado de forma automatizada a fim de saber quais questões estavam sendo abordadas e qual era a procedência das informações compartilhadas.

Antes de focar nos links externos, foi calculada a média diária de mensagens enviadas por grupo de apoio aos candidatos, com objetivo de saber quais eram os mais ativos de forma geral. Os apoiadores de Jair Bolsonaro lideram o fluxo de mensagens em geral, seguidos pelos grupos de apoio a Marina Silva e a Fernando Haddad – o gráfico apresenta dados apenas dos grupos com maiores médias.


Já em relação ao conteúdo compartilhado, a primeira descoberta é justamente a força do YouTube, ultrapassando a barreira das 40 mil postagens direcionando para vídeos hospedados na plataforma. Na realidade, as plataformas digitais de comunicação são as mais acionadas como um todo pelos usuários do WhatsApp, indicando a importância delas na campanha de 2018 – vide que as cinco páginas mais compartilhadas são justamente YouTube, Facebook, o próprio WhatsApp (com links para entrar em outros grupos), Instagram e Twitter. Isso é indício, também, de preferência por informações partidarizadas, que tendem a predominar nessas plataformas em período eleitoral. Dentre todas as plataformas de mídias sociais ou aplicativos de mensagem, é necessário prestar especial atenção ao papel do YouTube, que supera de longe as concorrentes em volume de compartilhamento.


Os veículos jornalísticos não somem na troca de informações no WhatsApp, mas a frequência de compartilhamentos deles fica consideravelmente abaixo do conteúdo produzido nas mídias sociais. Ressaltamos, ainda, que as três páginas jornalísticas mais compartilhadas são nativas do ambiente digital (Antagonista, Uol e G1) – e uma delas tem um caráter abertamente partidarizado. Há, ainda, espaço para empresas tradicionais como Folha de S.PauloO GloboEstadão, mas fica evidente a diferença entre o compartilhamento delas quando comparado ao de outras fontes.


O YouTube foi a rede preferida de quase todos os grupos de whatsapp

Outra página que merece atenção dentre aquelas mais acionadas é a Pesquisa Eleitoral, que direcionaria para uma pesquisa sobre a intenção de voto dos eleitores. A suposta pesquisa não pertencia a um instituto de pesquisa, nem estava registrada no Tribunal Superior Eleitoral – não sendo, portanto, válida. Ainda assim, foi consideravelmente compartilhada nos grupos analisados, liderando em grupos de apoio a Jair Bolsonaro.

Quando os dados são divididos de acordo com o candidato apoiado pelos grupos, aparecem algumas diferenças (NA é uma categoria que agrega grupos nos quais o candidato apoiado não está claramente apresentado). As informações também evidenciam as estratégias dos apoiadores. Mesmo que se devam considerar proporcionalmente os dados apresentados, uma vez que os grupos de apoio a Bolsonaro constituíram grande parte do corpus, percebe-se que os apoiadores de alguns candidatos tiveram preferências estabelecidas por determinadas fontes de informação.

Camila Mont’Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará e integrante do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia da UFPR; Isabele Mitozo é professora do PósCom-UFBA e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD); e Henrique Barbosa é mestre em Relações Internacionais pela Universidade da Califórnia, San Diego.
No Dialogos do Sul

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