3 de mai de 2019

Dilma Rousseff: “Estes tempos nos exigem, antes de tudo, coragem”

Dilma Rousseff esteve em Buenos Aires para o lançamento do Comitê Argentino Lula Livre e Justiça para Marielle. Aqui, ela explica que grupos existem no governo de Bolsonaro e o que mudou para pior no Brasil.

Foto: Leandro Teysseire
– Qual é a sua expectativa a curto prazo? Você tem esperanças?

– Nós devemos cumprir nossa parte: encontros, reuniões, discussões, resistência… Precisamos estar preparados porque a luta não será de curta duração. Será longa. Além de resistir, temos que insistir. Como a mãe de Lula disse a ele, você tem que teimar. É uma expressão usada no Nordeste do Brasil:. “Meu filho, você tem que teimar.” Teimar é forçar os limites.

– É a luta. É a política.

– É a vida, não apenas a política. Há um escritor brasileiro, que citei em meu primeiro discurso como presidenta, João Guimarães Rosa, que disse: ‘O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem’.

– Como avalia os primeiros quatro meses da gestão de Jair Bolsonaro?

– Tudo o que se esperava que acontecesse, aconteceu. Mas foi pior. É um governo de pessoas instáveis, que criam conflitos inclusive entre eles mesmos. Existem quatro grupos. Um é Bolsonaro, o clã Bolsonaro, seus três filhos, o ideólogo Olavo de Carvalho e toda a ala neopentecostal-evangélica. Tem um núcleo militar que é muito dominante, e chega a mais de cem pessoas de alto coturno, como generais, coronéis, generais de duas, três, quatro estrelas. Depois vem o núcleo da escola de Chicago, que é neoliberal e formado por adeptos das teorias de Milton Friedman, incluindo a teoria de Friedman aplicada no Chile, segundo a qual é necessário aproveitar a crise, porque a crise dispersa e, então, você pode tirar das pessoas seus direitos básicos e transformar o mercado na única grande referência. E o quarto grupo do governo Bolsonaro é o poder judicial da chamada “República de Curitiba”. É representado no governo pelo agora ministro Sergio Moro, que como juiz condenou Lula e o impediu de participar das eleições, o que beneficiou Bolsonaro e o posicionou como principal candidato. Além disso, ele tem uma visão punitivista e de criminalização do direito como seu maior instrumento. A ala bolsonarista inclui três ministros: a ministra da Mulher, Direitos Humanos e Família, que propõe coisas absurdas, como mulheres vestindo rosa e homens vestindo azul; e que as mulheres sejam submissas aos homens. Ela se opõem ao fato de que a Comissão da Verdade sobre a ditadura identificou corpos de vítimas. Já o chanceler Ernesto Araújo propõe romper com o Mercosul, que ele diz que é inútil. Ao aceitar transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, ele ameaça romper a política comercial do nosso país com os países árabes.

– Mas não aconteceu ainda.

– Não, mas é o que eles querem que aconteça. O chanceler também quer romper com a China porque, segundo ele, a China faz parte do movimento comunista. Diz que Donald Trump, por sua vez, representa a consciência ocidental, e como tal deve ser seguido. É uma submissão cega aos Estados Unidos. Até mesmo o agronegócio já sofreu grandes perdas com essas mudanças ou manifestações. Também os industriais que se relacionam com a Argentina hoje estão perplexos.

– Certos setores do establishment pensaram que poderiam controlar Bolsonaro.

– Eles pensaram assim: “Bolsonaro faz a omelete das reformas; revoga os direitos dos trabalhadores, acaba com direitos previdenciários, destrói parte da Petrobras, privatiza tudo, elimina as leis ambientais e das terras indígenas, e depois nós o domamos”. Mas Bolsonaro, um neofascista, não tem o chip da moderação. Então vêm as contradições. Os militares lutam contra a ala pura bolsonarista. Os filhos de Bolsonaro e Olavo atacam os militares. Os militares replicam. Os meios de comunicação, que apostavam que poderiam controlar Bolsonaro – “é possível moderar”, eles diziam – descobrem que ele baseia sua comunicação unicamente nas redes sociais e não os leva em conta. O modelo de Bolsonaro é Trump: governar pelo Twitter.

– Sem intermediários …

– Sem intermediários. Diretamente E ainda faz ameaças explícitas, diretas, aos meios de comunicação: “Se vocês acham que eu vou transferir dinheiro de publicidade oficial para suas empresas, estão muito enganados”. O mercado financeiro passa o tempo todo ameaçando a população com o ministro da Economia, Paulo Guedes. O mercado diz que, se não houver reforma previdenciária, haverá uma catástrofe econômica. É uma grande mentira. Todos os dados mostram que o crescimento do PIB permanecerá abaixo de 1 por cento. É mentira que uma reforma da previdência vá atrair investimentos. Se assim fosse, em muitos países não haveria investimento algum. No Brasil, a demanda está deprimida e a demanda pública não aparece. Há um quadro no Brasil de paralisia econômica.

– Este cenário de instabilidade política devido a disputas dentro do governo e de paralisia econômica cria uma oportunidade para o campo popular rearmar-se? Como o PT está enfrentando esse processo?

– Eu não diria que é uma oportunidade para se rearmar, mas deixa muito claro, para muitos que apoiaram Bolsonaro, que não houve um verdadeiro debate eleitoral. Não é uma corrida de cem metros, é uma maratona. Alguns dizem que, se Bolsonaro sair, assumirá o více, que segundo eles é mais moderado. Isto também é um mal-entendido. O vice-presidente é outro que não tem o chip de moderação. Da tradição militar nacionalista, não tem nada. Nem é um desenvolvimentista. É a favor do ministro Paulo Guedes e de suas reformas que vão quebrar o Estado brasileiro, para acabar com as empresas estatais, vender a Petrobras… Eles já aceitaram a venda da Embraer e a entrada dos Estados Unidos na base de Alcântara.

– A geopolítica internacional perdoa o Brasil por tomar medidas, com os governos do PT, no sentido de redistribuir o poder global? Penso no Brasil dos BRICS e o comparo com os enormes retrocessos posteriores ao golpe do impeachment e à interdição política de Lula, uma farsa confirmada pela nomeação de Sergio Moro como ministro da Justiça.

– Claro, é como se fosse uma confissão de culpa

– Foi um erro ou um acerto, em termos de resultados, ter desejado jogar em uma liga que talvez o mundo não nos autorize a jogar, como latino-americanos?

– De que mundo você está falando?

– … dos Estados Unidos e do capital internacional.

– Com o golpe, o Brasil foi enquadrado geopolítica, financeiramente e culturalmente. Financeiramente por quê? Porque não tinhamos, quaqndo governamos, apenas todo um Estado com capacidade e instrumentos de desenvolvimento. Tinhamos, por exemplo, o BNDES, que em certos momentos se tornou maior que o Banco Mundial em relação aos fundos que administrava. Além disso, o Brasil, economicamente, tinha uma grande empresa de petróleo – a sétima do mundo – e, como vocês sabem hoje, as maiores reservas de petróleo estão nas mãos dos estados nacionais. Ter acesso às reservas da Petrobras era muito importante para os imteressados no golpe. Não somos o Oriente Médio, que é uma zona de conflito. Além disso, nossas posições incomodavam muito. Não apenas os Estados Unidos e a Europa eram nossos parceiros, mas também Mercosul, Unasul, o Celac… Construímos uma certa independência dentro de um continente que, estrategicamente, os Estados Unidos consideravam como seu. Com a Argentina, durante séculos, nossas ferrovias não estavam conectadas e nem o sistema de energia. Nós trabalhamos para fazer isso. A mesma coisa acontece com a África. E com os BRICS, que obviamente incomodaram porque foi a época em que a China se consolidou, a Rússia emergiu como uma potência internacional e a Índia e a África do Sul cresceram. Chegamos a criar no âmbito do BRICS um fundo de contigência e reservas, que funciona como uma espécie de FMI dos emergentes. Também lembro que o Brasil não votou a favor de guerras, quando integrou o Conselho de Segurança da ONU. Na questão palestina, na questão israelense, sempre defendemos a ideia de que devem existir dois Estados. Sempre tivemos uma posição clara em favor dos direitos humanos e do meio ambiente. Nós éramos independentes e respeitosos. E exigíamos que nos respeitassem.

– Hoje, os recursos naturais não são o único fator crítico ou ponto-chave. O controle de dados também é uma ameaça e têm tido impacto na política do nosso país.

– Totalmente

– 80% dos dados produzidos e trocados na América Latina passam por um nódulo de controle nos Estados Unidos.

– Eles passam através de um nódulo. Passam por Miami. Mas também têm outro problema. Todo o equipamento que usamos tem as chamadas “portas traseiras”, “back doors”, por meio das quais podem gravar o que desejam. Mas insisto na questão do uso político. Eu dou um exemplo do WhatsApp no Brasil. Foi usado por robôs que transmitem notícias segundo algoritmos. Havia muitas “notícias falsas”, as chamadas fake news.

– E como as fake news afetam a vontade popular, com sua extrema multiplicação?

– Elegendo um candidato com 38 segundos de tempo na televisão e sem um partido de dimensão nacional? Ele não fez campanha na televisão e não aceitou ir a nenhum debate? Ele foi eleito pelas redes sociais, manipulando os dados, fazendo uma comunicação unidirecional. Ou seja, não houve diálogo, não houve debate, não houve contraste de idéias. As ideias eram e são toscas e primitivas: a insegurança pública destrói as famílias, os direitos das mulheres destroem a família, os direitos dos homossexuais também são destrutivos, uma família com a mãe e sem o pai produz filhos criminosos. E em economia, eles também simplificam e forjam. Não explicam a falta de crescimento pela estrutura financeira distorcida e que não investe. Eles dizem: “Ah, é porque houve corrupção”. Então segundo eles o desemprego e tudo o mais se deve à corrupção. Além de tudo, o punitivismo da Lava Jato desempenhou um papel muito importante na eleição. Primeiro, tirou Lula do caminho. Ele era o inimigo número 1. E as balas perdidas do punitivismo invadiram o espaço político. Os partidos tradicionais não sobreviveram. Para que Bolsonaro surgisse, exigia-se uma política de terra arrasada da direita para o centro.

– E o campo popular não se deu conta dessa estratégia de terra arrasada?

– Uma parte dos que foram atingidos não estava consciente disso. Nós, do PT, éramos o alvo principal dos ataques. Nós sabíamos o que estava acontecendo. Mas muitos que não eram do PT, mas integravam o campo democrático, pensaram que o ataque seria só contra a gente.

– Como Lula tem estado, quando você o vê?

– Muito bem, todas as vezes. Lula é uma pessoa excepcional e os que o menosprezaram já sabem quem ele é. Eles perceberam quem ele é no segundo mandato. Lula tem uma grande capacidade de aprendizado. Ele tem pouca educação formal, mas tem capacidade de compreensão e memória fantásticas. Tudo o que ele ouve e lê submete a uma análise profunda. Sempre racionaliza as coisas. Até na prisão. Ele tem uma grande força pessoal. Mas é muito triste visitá-lo e constatar que lá se encontra, preso, o presidente do Brasil que mais contribuiu para a evolução material da população. Está limitado a um cubículo. Não deixaram sequer que ele tivesse um frigobar. Guarda o iogurte em uma caixa de isopor. Ele sofreu um grande impacto com a morte de seu neto. Já havia perdido o irmão e eles não o deixaram ir ao funeral. A morte do neto foi devastadora como a perda de dona Marisa. Admiro que ele enfrente a prisão com tanta força. Ele não aceita condescendência. Não aceita nada menos do que a admissão de sua inocência. Lula não negocia sua liberdade. Ele tem a dignidade de recusar a negociação de sua própria liberdade.

– A recente redução da pena de Lula foi vista como uma oportunidade para a prisão domiciliar. Existe a possibilidade de Lula sair da prisão?

– A natureza dessa decisão é a tentativa de “normalizar” a prisão de Lula e fazer crer que há justiça plena no Brasil. Mas ao mesmo tempo pretendem condená-lo em outros processos, o que significaria, na prática, a imposição de uma prisão perpétua. A saída para Lula seria uma modificação da correlação de forças. Eles não liberam Lula porque Lula altera a correlação de forças, então temos que gerar as mudanças para que Lula saia da prisão. Ele não sairá apenas por medidas institucionais. Teremos que combinar medidas institucionais com medidas de mobilização, participação, e é por isso que a solidariedade internacional é tão importante.

– Quanto uma vitória popular na Argentina pode ajudar na correlação de forças no Brasil?

– Ajudará porque vai ser uma mudança para toda a América Latina, que vive hoje um momento muito desfavorável. Só temos México, Bolívia e Uruguai com governos comprometidos com a América Latina e com seus povos. Acredito que a Argentina mudará essa situação, porque a Argentina é um dos países mais desenvolvidos e fortes do continente, com grande influência cultural, política e econômica. Um governo popular na Argentina influenciaria a favor da democracia e de Lula porque o Brasil é seu grande parceiro e boa parte da liderança política brasileira é fraternal em relação à Argentina. Seria uma esperança, uma luz não no final, mas no meio do túnel. A luz do final do túnel final é a que nos levará a uma democracia efetiva novamente.

– Como você vê uma candidatura de Cristina Kirchner?

– Cristina desempenhou um papel importante, não só na Argentina, mas também na América Latina. Eu quero falar sobre a Cristina que eu conheço. Eu testemunhei a luta renhida de Cristina para superar o castigo que foi a retirada de todo o crédito da Argentina, como se faria para matar uma pessoa de sede. Cristina conseguiu resolver a questão estratégica da dívida externa da Argentina, lutando contra os fundos abutres, que queriam reabrir toda a negociação realizada por ela. Cristina travava esta luta quando seu mandato terminou. Mas até então negociou com grande firmeza e contou com o apoio dos demais países da América Latina. Ela buscava uma solução que libertasse a Argentina dessa catástrofe que é o retorno do endividamento, que foi a aceitação dos termos impostos pelos fundos abutres e que levou a uma crise fiscal e à intervenção do FMI. Tenho certeza de que, com ela, isto não teria ocorrido. A outra questão que eu o vi Cristina defender foi a necessidade de integração regional, a fim de que nossos setores industriais se integrassem, na indústria naval, no setor automotivo, com a adoção de uma política tecnológica comum, para que tenhamos uma experiência comum na indústria farmacêutica…Eu também conheço o lado social de sua atuação, com o AUH, observei atitudes soberanas no G-20, na questão das Malvinas… Cristina Kirchner é uma estadista.

– Como você analisa a crise argentina?

– Eu vejo com muita tristeza o retorno ao FMI. Nós sabemos que não há saída por este caminho. Nunca houve uma saída por aí em nossa história. A saída não está nas políticas de austericídio, a saída está em políticas de desenvolvimento. Os juros não podem crescer acima do crescimento do PIB. Caso contrário, não há como resolver o problema da dívida. Tanto nos Estados Unidos quanto na União Européia, o juro é quase zero. E foi isso que lhes permitiu reverter a maior dívida do mundo na crise financeira de 2008. Por que eles fazem isso? Por que os Estados Unidos nunca aplicaram uma política de austeridade contra si mesmos. Por que o dólar é uma moeda forte? Porque os Estados Unidos nunca adotaram uma política de contenção de demanda. Ao contrário. Seguiram as diretrizes de Franklin Delano Roosevelt. E quando fizeram o oposto, deu muito errado. Eu não acho que a política do Mauricio Macri é uma solução. E esta constatação me deixa muito triste.

– Lula Libre, Justiça por Marielle Franco, o que estas bandeiras simbolizam para a luta popular no Brasil?

– Lula Livre significa a luta pela democracia, contra o lawfare, que é o uso da lei como uma arma para criminalizar a política e para destruir a reputação daqueles que são considerados inimigos. Com sua luta, sua força e sua dignidade, Lula é sintetiza uma manifestação clara: ‘vocês não me destruirão; vocês podem me encarcerar, mas não me destruirão; minhas ideias não podem ser presas’. Lula representa a reação ao neoliberalismo no Brasil. Foram nossos governos que derrotaram o neoliberalismo, que herdamos de Fernando Henrique Cardoso. Não permitmos que continuasse. Lula representa a prova de que é possível fazer as coisas de maneira diferente, priorizando o combate à desigualdade; com políticas cujo eixo é a redução da desigualdade e o aumento de oportunidades para a população. Lula representa a democracia, o antiliberalismo e a afirmação de que o Brasil deve ter soberania e força. É por isso que o ‘Lula Livre’ é a tradução da luta pela democracia.

– E Marielle?

– O tributo a Marielle representa a luta contra a violência. Contra a violência do Estado, mas sobretudo a violência paraestatal, exercida pelas milícias, que são, no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, as grandes executoras de uma política que vai se tornando institucional e que formaliza o direito de matar. O Estado não pode ter o direito de matar, muito menos as milícias privadas. Marielle era uma mulher negra que teve um papel importante na luta das periferias, e representou muito bem todas as questões que interessam a estas populações: a questão da moradia, do transporte, a luta social das mulheres e do coletivo LGBTI. Marielle era defensora dos direitos humanos, sobretudo nas periferias.

Nicolás Trotta
No Página | 12

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