22 de mai. de 2019

Como fica a vida de quem já não consegue mais andar e a doença não tem cura

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/21/como-fica-a-vida-de-quem-ja-nao-consegue-mais-andar-e-a-doenca-nao-tem-cura/

Como cidadão e repórter, participei de quase todas as principais manifestações contra a outra ditadura militar (1964-2019).

Agora que a desgraça ameaça voltar pelas mãos de um presidente kamikase, o capitão Bolsonaro, não tenho mais pernas nem saúde para ir às ruas.

Embora more a poucas quadras da avenida Paulista, senti muito não poder participar dos protestos da semana passada, mas fiquei feliz porque meus netos foram.

Depois de quebrar quase todos os ossos do corpo em acidentes variados, já não consigo andar nem ficar de pé por muito tempo.

Não poder caminhar sobre as próprias pernas é uma das limitações mais dolorosas para quem passou a vida viajando por todo o Brasil e metade do mundo.

Já fiz todo tipo tratamento, anos de fisioterapia,  mas estou cada vez mais “com dificuldades de locomoção”, como falam nos aeroportos.

Estacionado na minha casa, de onde pouco saio, só pude ver as manifestações pela TV e no computador.

Por coincidência, ou não, estou lendo por estes dias o maravilhoso e comovente livro do meu amigo Nirlando Beirão, um dos melhores textos e dos mais decentes jornalistas do país, que vai lançar domingo “Meus Começos e Meu Fim” (Companhia das Letras), no restaurante Frontera, a partir das 16 horas.

Nirlando tem uma trajetória profissional parecida com a minha, começamos na mesma época e temos a mesma idade, e também passou a vida viajando e pousando nas nossas melhores redações.

Fomos os dois, sob o comando do bravo Hélio Campos Mello, cofundadores e repórteres da revista “Brasileiros”, que tanta falta nos faz nos tempos atuais.

Ao mesmo tempo, trabalhamos juntos, como comentaristas políticos, por sete anos, no Jornal da Record News, do Heródoto Barbeiro, e fomos demitidos no mesmo dia, sem maiores explicações.

Já estou terminando de ler o livro, mas sem pressa, porque é tão bom que não quero que acabe.

Uns três anos atrás, ainda na Record News, Nirlando começou a andar mancando, mas ninguém podia imaginar o motivo, nem ele.

Certo dia, apareceu na redação de bengala, depois de andador, por fim numa cadeira de rodas, onde está até hoje, precisando de ajuda de bombeiros para chegar ao estúdio.

Depois de mil exames, o amigo foi diagnosticado com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), uma doença rara, que vai enfraquecendo os músculos cada vez mais, e ainda não tem cura.

No livro, o jornalista e escritor ainda tem forças para brincar com ele mesmo, com seu texto finamente irônico, sem nunca descambar para o piegas nem se fazer de vítima do destino.

Conta a sua história e a da família como se estivesse falando de personagens de um romance ficcional, sempre com leveza, pesando cada palavra, apesar do enredo dramático.

Um desses personagens parece mesmo ter saído de Eça de Queiroz, mas era de carne e osso:  seu avô paterno, Antonio Cabral Beirão, nascido na Beira Alta, daí o nome.

É em torno dele, um padre que se apaixonou por uma beata, na pequena cidade mineira de Oliveira, largou a batina e criou uma bela família, que gira toda a narrativa.

Corintiano e mineiro, acima de tudo, o autor deste belo livro nos mostra como é possível viver sem ceder às pedras do caminho, empurrando-as com sutileza, na maciota.

NIrlando é um artista da palavra, capaz de transformar um caso banal do cotidiano em obra prima, com economia de letras. Tenta sempre arrancar pelo menos um sorriso do leitor.

Quem melhor resume o que Nirlando viveu e está vivendo é um dos seus médicos e também nosso amigo, Drauzio Varela, na contra-capa do livro:

“Os textos de Nirlando Beirão sempre estiveram entre os melhores do jornalismo brasileiro. Neste livro, reúne histórias do passado para confrontá-las com as adversidades enfrentadas por alguém com uma doença que impõe debilidade muscular progressiva, com graves limitações físicas. O resultado é uma reflexão profunda sobre o significado e a fragilidade da existência humana”.

Outro dia, no ano passado, o malandro com jeito de lorde nos deu um belo susto.

Após um almoço no mesmo restaurante aonde será lançado o livro, sem mais, ele acionou sua cadeira de rodas motorizada e avisou que estava indo embora para casa.

Apenas disse que tinha chamado um táxi especial que o costumava transportar com a cadeira.

Saímos à calçada e não vimostáxi nenhum, nem o Nirlando, que tinha sumido sem deixar vestígios.

Até hoje, não sabemos se pegou um táxi invisível ou se foi pilotando seu veículo até em casa, a muitos quarteirões de distância.

Nirlando sempre foi assim: uma figura imprevisível e adorável, com seu sorriso matreiro de matuto das gerais.

Pena que não será mais possível nos encontrarmos nas manifestações em defesa da democracia. Vamos ficar só torcendo de longe, sem parar de escrever…

Apesar das limitações e de só trabalhar em casa, Nirlando Beirão ainda é o redator-chefe da Carta Capital, uma revista de resistência do Mino Carta, que não se entrega nunca, a cara dos dois amigos.

Sucesso, garoto!

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

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