4 de mai. de 2019

Chega! Entramos no 5º mês de boçalnarismo: ninguém vai segurar esse trem-fantasma?

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/04/chega-entramos-no-5o-mes-de-bocalnarismo-ninguem-vai-segurar-esse-trem-fantasma/

Confesso que, no atropelo dos fatos horríveis que se sucedem a cada dia, a cada hora, chega um ponto em que nem sei mais o que escrever.

Por isso, estou publicando mais textos curtos (só duas linhas) e comentários na minha página oficial no Facebook do que aqui.

Não dá para esperar o dia seguinte e escrever um texto mais pensado no Balaio porque as maluquices e arbitrariedades em série do governo Boçalnaro não deixam.

Além de passar a manhã de sexta-feira distribuindo medalhas aos filhos, amigos e seguidores, o presidente da República (?) ainda encontrou tempo para comemorar no Twitter a primeira exportação de abacates para a Argentina.

Dá para acreditar? E agora o capitão quer ir à guerra na Venezuela… Se não fossem os generais que o tutelam, ele já teria convocado as tropas.

O homem não tem noção nenhuma do cargo que ocupa e fica todo mundo em volta batendo palmas e dando risadinha envergonhada quando ele levanta a camisa para mostrar a cicatriz da facada num programa de televisão.

Militares sempre curtiram esse negócio de cerimonias e entrega de medalhas, eu sei, mas o país reclama a presença, no Palácio do Planalto, de alguém que o governe.

Estamos há cinco meses, literalmente, sem governo, assistindo placidamente ao festival de sandices e atrocidades praticadas no circo de horrores de Brasília.

Também não temos mais Congresso Nacional, submetido ao domínio do baixo clero de Eduardo Cunha, o famigerado centrão, agora sob o controle de Rodrigo Maia.

O Supremo Tribunal Federal não julga o que tem que julgar e também se dedica a cerimonias de desagravo aos seus membros, enquanto faz licitação para comprar lagostas e vinhos premiados.

Com os três poderes em frangalhos, o que nos resta fazer?

Não temos mais lideranças, nem no governo nem na oposição. É tudo um balaio de gatos pardos disputando nacos de poder.

Em compensação, bem longe daqui, em Nova York, entidades democráticas, congressistas e até o prefeito da cidade se mobilizaram para impedir a homenagem ao capitão como “personalidade do ano”.

Quem será que o elegeu para isso? Baseado em que fatos concretos, a não ser o de que ele está se dedicando, com muito afinco, para destruir o país e suas instituições, determinado a não deixar pedra sobre pedra.

Chega! Basta! Assim os jornais antigos gritavam em suas manchetes quando achavam que a situação ficava insustentável.

Quem faria isso hoje? Estamos todos bestializados diante de tanta insanidade, sem saber o que fazer.

E o que nós poderíamos fazer para evitar este avanço do retrocesso?

* * *

Recomendo a leitura diária da seção “Acervo Folha”, que o jornal publica no pé da coluna “Painel”, mostrando o que acontecia há 50 anos.

Está tudo lá, exatamente como é hoje.

Manchete do jornal no dia 4 de maio de 1969:

“Presidente chega à capital de SP para ver prova de turfe e ser homenageado”.

Presidente era o general Costa e Silva, ou melhor, o marechal Costa e Silva, que veio a São Paulo para ser homenageado no Jockey Clube e assistir a um páreao do Grande Premio São Paulo de turfe.

De marechal a capitão, fomos caindo na hierarquia do poder, mas os militares voltaram a ser protagonistas.

O Brasil tinha entrado no quinto ato, o golpe dento do golpe, que cassou, prendeu e matou sem piedade, numa ditadura feroz, que agora os atuais ocupantes do poder negam ter existido.

Querem agora voltar para aquele tempo sombrio da nossa história, galopando rumo a um novo regime de exceção, que já começou.

Só não vê quem não quer ver, fazendo de conta que vivemos na maior normalidade, graças à exportação de abacates.

O quadro é cada vez mais sinistro, mas amanhã tem São Paulo e Flamengo no Morumbi.

Vida que segue. Pra onde?

Ricardo Kotscho

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