27 de mai de 2019

As disputas de rua e a hora de avançar nos espaços de mediação

Eu sei o que ele fizeram no último verão. Mas o que importa, agora, é o rascunho do mapa do inferno que se desenha, caso a parte racional da sociedade civil não se junte em fortalecimento do chamado centro democrático.


As manifestações em favor de Jair Bolsonaro, independentemente das avaliações sobre a quantidade de pessoas que compareceram, levam definitivamente a luta política para as ruas. Entra-se em uma nova fase do fascismo, na qual os principais veículos de mobilização da etapa anterior – veículos de mídia – perdem o controle sobre as massas. Pouco importa se lideradas por um estadista ou por um imbecil, a besta das ruas ganha vida própria, mas não o suficiente, ontem, para o autogolpe.

Hoje, as manifestações propuseram explicitamente o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal). Dias atrás, o Ministro Luís Roberto “Iluminista” Barroso deu novamente carne fresca à matilha alegando que as raras decisões da casa, em defesa dos direitos individuais, justificariam a selvageria das ruas. Para se poupar, atiçava os mastins contra seus adversários, mesmo sabendo que as mordidas seriam em cima de uma democracia claudicante.

A pusilanimidade de Barroso é um indício claro da dificuldade em recompor o centro democrático visando impedir o avanço da barbárie nesses tempos de cólera. Ainda haverá necessidade de mais massa crítica contra a barbárie, até os homens bons terem certeza de que é um bom negócio pular de volta para o barco da democracia.

A falta de noção de perigo é tamanha que a Globonews colocou todos seus jornalistas instrumentalizando as manifestações, apresentadas como em defesa da reforma da Previdência e do pacote de encarceramento em massa do Ministro Sérgio Moro. Pouco importa se esse endosso significou um reforço extra para um governo que está desmontando o país. A síndrome do imediatismo é uma praga inarredável.

O pacto

O impeachment se deu quando o principal adversário do PT, o PSDB, se viu sem condições de recuperar o poder. Não apenas pela derrota de Aécio Neves por Dilma Rousseff, mas também pela perspectiva de, em 2018, ter Lula novamente como candidato.

Foi uma reedição dos golpes políticos-midiáticos-jurídicos que marcaram a América Latina desde a redemocratização dos anos 80. A maneira como advogados legalistas tardios, Ministros garantistas retardatários, jornalistas que se tornaram democratas de nascença desde o ano passado se uniram, no pré-impeachment, para tentar legitimar o golpe é assunto para a história.

Eu sei o que ele fizeram no último verão. Mas o que importa, agora, é o rascunho do mapa do inferno que se desenha, caso a parte racional da sociedade civil não se junte em fortalecimento do chamado centro democrático.

Se não chegarem a um acordo, a alternativa Bolsonaro será Hamilton Mourão, com duas forças disputando o controle do país: ou as milícias, com Bolsonaro, ou o poder militar, com Mourão. E ninguém se iluda com os militares. A exemplo de outras instituições contemporâneas, trata-se de uma força incapaz de pensar o país até nos aspectos que lhe dizem respeito direto: a noção de defesa nacional, desestruturada com a venda da Embraer, sem um sinal sequer de resistência das Forças Armadas, ou o decreto das armas, ameaça direta aos soldados, quando a anarquia se impuser.

A defesa da democracia não poderá depender de nenhuma dessas alternativas, mas de um grupo democrático forte, que vá acumulando massa crítica para se antepor ao avanço do autoritarismo.

Daí a necessidade premente de um rearranjo do centro democrático.

O fator Lula

Maior líder da história, Lula padece de um dilema paradoxal. Seria o personagem público mais qualificado para conduzir o grande acordo nacional, não fosse o desequilíbrio que impõe ao jogo pela absoluta ausência, no campo tucano-mercado-liberal, de um interlocutor à sua altura.

Transformado no grande mote da polarização política, no entanto, não há espaço para Lula ser protagonista principal. Basta colocar a cabeça de fora para Imediatamente acender o antilulismo, resultando no impasse político. Não adianta deblaterar contra essa democracia condicionada, hipócrita: ela é um dado na realidade, em um país em que a defesa da democracia é tratada de forma utilitarista.

Mesmo sem Lula em primeiro plano, o polo progressista tem se aglutinado em torno de Fernando Haddad, como representante do principal partido de oposição, o PT e o político respeitado por outras lideranças significativas do arco da esquerda.  A maneira como está sendo recebido em várias partes do país, o modo como foi tratado pela juventude estudantil paulistana nas passeatas pela educação, a coerência e, ao mesmo tempo, a interlocução com forças modernas da esquerda e do centro, o qualificam como o grande interlocutor do lado do PT.

Já o Partido de Jorge Paulo Lehmann e os Novos da vida estão trabalhando mercadologicamente nomes novos. Em vez de apostar desde já em uma improvável eleição em 2022, deveriam esquecer um pouco a miragem Luciano Huck e se empenhar nesse grande acordo e, principalmente, em diluir a pesada demonização dos adversários, plantada no período pré-impeachment.

No Senado, há remanescentes da razia produzida pela Lava Jato em condições de conduzir negociações junto aos demais poderes. Há um grupo de governadores nordestinos de espírito democrático comprovado. Se o PSDB conseguir se libertar do imediatismo de João Dória Jr poderá agregar os políticos históricos com jovens promessas comprometidas com a democracia e a tolerância.

O importante é que um pacto dessa dimensão tem que ser equânime, respeitando o conceito de frente cuja bandeira maior tem que ser a defesa da democracia.

Luís Nassif
No GGN

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