26 de mai de 2019

A nova velha revolução: em vez do corte de custos a gestão focada no reconhecimento

Fundação Dom Cabral oferece uma imersão a Executivos sob o tema “o que vou legar para minha empresa”. Ou seja, daqui a dez, vinte, trinta anos, o que do meu trabalho ficará registrado na vida da empresa. Trata-se de um valor intangível e extremamente relevante na motivação das pessoas


Nos anos 90 houve um salto na gestão no Brasil. O fim da inflação e a abertura da economia promoveram dois movimentos relevantes.

No plano mais básico, os programas de qualidade, dos quais o maior nome foi o INDG, de Vicente Falconi.

No plano mais sofisticado, as escolas e consultorias de planejamento estratégico, com destaque para a Fundação Dom Cabral, o Coppe (da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a Poli (ligada à Universidade de São Paulo) e consultorias estrangeiras como a McKinsey.

Os programas de qualidade foram relevantes para o bê-a-bá da gestão, os mapeamentos, e mensuração e a racionalização dos processos internos. Dado o primeiro passo, a empresa estava apta a absorver conceitos mais sofisticados.

Foi nesse ponto que a gestão empacou. As sucessivas crises da economia brasileira abriram espaço para a entrada agressiva dos fundos de investimento adquirindo empresas familiares, investindo em setores tradicionais (desde empresas de alimentação até redes de padarias, de restaurantes, lojas de conveniência, empresas de serviço).

Com o capital trouxeram a gestão de resultados no curtíssimo prazo. Trouxeram CEOs com participação nos resultados e a idéia fixa do corte de custos. E a busca de resultados sempre para o balanço seguinte inibiu qualquer visão de longo prazo da empresa.

O longo prazo exige investimentos em inovação — e eles comprometiam os resultados trimestrais ou o balanço anual. Exige, também, a identificação de vulnerabilidade de médio prazo, como a questão ambiental, a segurança das operações, as análises de risco. Nesse momento, o grande marqueteiro Vicente Falconi apostou na imagem de exterminador de custos, embalado pelo modo Jorge Paulo Lehmann de ser. Afinal, quem iria contestar o modelo de gestão de um brasileiro que se tornara dos investidores mais ricos do planeta?

E, de curto prazo em curto prazo, foram caindo os campeões nacionais do modelo Falconi, Sadia, Vale, BRF, Unibanco, todos eliminados pela visão do CEO genérico – aquele especializado unicamente em identificar onde cortar sem se preocupar com o amanhã.

Agora, o curso mais atraente da Fundação Dom Cabral oferece uma imersão a Executivos sob o tema “o que vou legar para minha empresa”. Ou seja, daqui a dez, vinte, trinta anos, o que do meu trabalho ficará registrado na vida da empresa. Trata-se de um valor intangível e extremamente relevante na motivação das pessoas: o reconhecimento, o legado, algo que passa a décadas de distância do tecnicismo vazios dos burocratas.

O grupo Ultra levará para sempre o legado de Paulo Cunha. Lembro-me de Luiz Garcia, de uma empresa de telecomunicações de Uberlândia, montando um seminário para tentar enxergar como seria a empresa daqui a 100 anos, e o que fazer para caminhar na direção pretendida. Ou dos quatro sócios da Natura, com sua visão sistêmica, englobando tecnologia, sistemas de vendas e internacionalização.

No setor público deveria vigorar, mais ainda, esses princípios. A pessoa que chega a um alto cargo, um Ministro do Supremo, um Procurador Geral da República, um Ministro de Estado, um Presidente da República, o que pretende deixar de legado?

No entanto, o imediatismo se alastrou em todas as instâncias institucionais. O único longo prazo que pensam é na herança para os filhos.

O tsunami Bolsonaro pelo menos terá o condão de despertar a alma brasileira para os aspectos efetivamente relevantes para a construção de um país.

Luís Nassif
No GGN

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