6 de abr. de 2019

Uma longa história de covardia e traição à pátria

Mais de 130 militares já ocupam cargos no governo Bolsonaro. No Congresso Federal é comum os deputados e senadores serem conhecidos por sua patente – major fulano, sargento sicrano, tenente isso ou coronel tal.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Depois de décadas de discreto recolhimento às casernas, como é comum nas democracias, os militares brasileiros resolveram não apenas reocupar espaços na sociedade, como também no poder.

O avanço sobre a sociedade e o poder é uma miragem atraente, mas tem tudo para dar errado em um governo que se dedica a tirar dinheiro da maioria da população de classe média e pobre, para transferir às instituições do sistema financeiro. Fazendo isso, os donos do poder estão exterminando o mercado interno, a indústria brasileira e transformando o desemprego ou a informalidade selvagem e incivilizada em um problema insolúvel.

Nenhum governo sobrevive neste campo minado social; e a desmoralização do bolsonarismo vai levar junto para o abismo a reputação que os militares reconquistaram, após o desastre que foi o período da ditadura militar.

O desgaste, na verdade, já está em curso, porque a presença exagerada de militares no poder, para os padrões de uma democracia, leva a um aumento da curiosidade sobre a trajetória histórica das Forças Armadas do país. Pesquisas vão ocorrer e, sem dúvida, uma imensa quantidade de esqueletos serão encontrados nos armários dos quarteis.

Para esquentar o debate, a obra do historiador Moniz Bandeira é relevante. Bandeira sempre manteve uma posição de grande respeito pelas Forças Armadas. O historiador esperou sua vida inteira que as instituições militares viessem a cumprir um papel modernizador na sociedade brasileira. Infelizmente suas pesquisas nunca revelaram que os militares, em algum momento da história, desejaram cumprir esse papel, exceto no período Geisel, que teve alguma continuidade no governo João Figueiredo.

Fora isso, a história das Forças Armadas brasileiras é marcada por episódios que beiram a covardia e traição à pátria.

A própria obra de Bandeira revela que os militares brasileiros nunca perderam as oportunidades de se submeterem a interesses estrangeiros contrários ao país.

O DNA da história

As características antinacionais dos militares brasileiros, provavelmente, são herança da aristocracia portuguesa.

Portugal teve momentos memoráveis na sua história. Nos séculos XV e XVI o país despontou sob a liderança da inovadora e visionária dinastia de Avis, período no qual escreveu as empolgantes páginas do descobrimento – uma iniciativa nacional, que mudou o mundo.

Após a morte de Dom Sebastião, o rei ainda esperado, em 1578, Portugal foi anexado à coroa espanhola.

Depois de quase um século, os britânicos, em conflito com a coroa espanhola pelo domínio do mar, estimularam uma guerra pela independência de Portugal. Como qualquer potência imperialista, os ingleses cooptaram uma família da nobreza portuguesa, os Bragança.

Ao contrário da dinastia de Avis, que havia levado o país à liderança mundial, os Bragança se revelaram medíocres e aceitaram transformar Portugal em uma semicolônia britânica.

Em consequência, o exército de Portugal foi reorganizado, como uma força auxiliar do poder britânico.

A simbiótica ligação de Portugal com o Reino Unido fez com que o país fosse o único da Europa a não participar do bloqueio continental, decretado por Napoleão, contra a Inglaterra.

Não foi um episódio de coragem. O reino dos Bragança era uma dependência do império britânico.

Napoleão retaliou e a família real de Bragança fugiu para o Brasil, a bordo de navios ingleses. Trouxe junto a guarda real e os oficiais do alto comando do exército português.

Na América do Sul, as forças portuguesas se dedicaram a cumprir missões determinadas pelos britânicos, como a invasão da Guiana Francesa e a ocupação da Província Cisplatina, atual Uruguai, território que, na época, pertencia à Espanha, então ainda aliada à França napoleônica.

As Forças Armadas brasileiras nasceram desse DNA de submissão ao estrangeiro. A independência brasileira não foi conquistada com lutas sangrentas, como as que ocorreram nos Estados Unidos ou na América espanhola. Exceto pela Bahia, a separação foi um acordo de família, tutelado pelo poder britânico, que de fato era quem mandava.

Isso fez com que o Brasil se constituísse como a única monarquia das Américas.

No processo, as forças portuguesas estacionadas no Brasil, que mantinham presente o espírito de submissão ao comando britânico, se transformaram no exército e na marinha brasileira.

O Exército de cidadãos lutou no Paraguai

Desde a independência, tropas brasileiras participaram de escaramuças no Uruguai e Argentina, servindo como forças policiais, para manter a ordem imperial britânica na região.

Após as frustradas tentativas de manter o controle da Bacia do Prata com as suas próprias forças, em 1806 e 1807, quando as tropas britânicas foram humilhadas por defensores portenhos, Londres adotou a estratégia de utilizar forças brasileiras como “bucha de canhão”, na região. As forças brasileiras eram basicamente tropas gaúchas, acostumadas a lutar por terras e gado contra castelhanas há séculos.

Depois houve a Guerra dos Farrapos, um conflito civil, cujos combatentes eram essencialmente tropas gaúchas dos dois lados.

A grande guerra na qual o Brasil, pós independência, se envolveu foi contra o Paraguai.

A submissão daquele país era de grande interesse para o império britânico, pois os ingleses mantinham vultuosos investimentos econômicos no Cone Sul do continente. O Paraguai, descrito por Moniz Bandeira como uma espécie de Prússia sul-americana (certamente mais atrasada e pobre), refugava em seguir as ordens de Londres e tentava negociar com outros países.

Instigado pelos britânicos, o Brasil entrou na sua maior guerra, que durou de 1864 a 1870. Anos depois, o Reino Unido utilizou uma metodologia semelhante, quando jogou o Chile para enquadrar os recalcitrantes Peru e Bolívia, em um conflito que ocorreu entre 1879 e 1883.

Na Guerra contra o Paraguai foram registrados inúmeros casos de heroísmo. Entretanto, não foram os militares profissionais brasileiros que se ilustraram nos campos de batalha.

Com as raras exceções; como as tropas de cavalaria gaúcha e alguns poucos oficiais, como o também gaúcho Ozório; as tropas brasileiras, na sua absoluta maior parte, foram compostas por civis convocados ou escravos substitutos.

Os soldados profissionais, em geral, usaram subterfúgios desonestos e imorais para evitar a longa viagem e os perigos da batalha.

Após a guerra, o exército de cidadãos e escravos que marchou ao Paraguai foi desmobilizado e os soldados profissionais brasileiros continuaram a se dedicar a reprimir o povo brasileiro. Nas campanhas de Canudos e do Contestado, o exército de militares profissionais do Brasil revelou imensa incompetência e covardia.

Primeira Guerra Mundial

Na Primeira Guerra Mundial, os britânicos, que davam as cartas na América do Sul, não se interessaram em mandar tropas da região à batalha. O interesse do alto comando britânico era manter a fonte e a rota de suprimentos, principalmente comida e minérios. O Brasil, a Argentina e o Uruguai enriqueceram mandando comida e outros commoditiesprimários para a Inglaterra.

Um exército de cidadãos foi mandado à Itália

Na Segunda Guerra Mundial, o outro grande conflito do qual o Brasil participou, o mundo havia mudado. O Reino Unido vivia um doloroso declínio e os Estados Unidos assumiam o posto de potência hegemônica mundial.

Getúlio Vargas manobrou para entrar no novo grande jogo das nações, enfrentando simpatias nazifascistas dos seus generais e foi brilhante, ao trocar a participação do país em uma guerra, que em nada afetava o país, pela indústria de base, essencial para o desenvolvimento.

Como parte do acordo, tropas brasileiras foram enviadas à Europa. Era previsto o envio de duas divisões. A guerra acabou antes que fosse possível organizar a segunda divisão expedicionária.

Mais uma vez, os militares profissionais fugiram à responsabilidade e a Força Expedicionária Brasileira, de 25 mil soldados, era composta em sua maior parte por civis convocados e uma minoria de voluntários.

Diferente da Guerra do Paraguai, na Segunda Guerra Mundial, até mesmo os oficiais de alta patente tentaram fugir à convocação. A pesquisadora Iara Isenburg, autora do livro “O Brasil na Segunda Guerra Mundial”, relata que “a nomeação de um general disposto a assumir o comando da expedição se deu depois de diversas recusas e acabou caindo sobre o sóbrio e cuidadoso Mascarenhas de Morais, que não fazia parte do grupo mais conhecido dos altos escalões militares e que desenvolveu suas tarefas na Itália de forma decorosa”.

Isenburg revela que “boa parte dos recrutados e dos oficiais veio da sociedade civil: um estranho resultado para um Exército que ocupava visivelmente a cena e principalmente o poder nacional”.

O que levou os militares profissionais e os principais comandantes a fugir às suas responsabilidades, além da covardia?

No cenário de fundo, desde antes do conflito mundial, um terremoto geopolítico ocorria. A Primeira Guerra Mundial provocou o colapso do sistema mundial euro centrado. O Reino Unido também sofreu duros golpes, o poder econômico do país começou a naufragar e os Estados Unidos aceleraram sua candidatura pela hegemonia planetária. A América do Sul era um alvo natural da projeção de poder estadunidense.

O crescimento da hegemonia dos EUA na América do Sul foi desigual. Em cada país o ritmo foi diferente, de acordo com o interesse estadunidense – por exemplo, o processo de cooptação da Venezuela, onde imensas reservas de petróleo tinham sido descobertas, foi muito mais acelerado do que, por exemplo o Paraguai, de onde não havia muito a tirar.

No Brasil houve uma aproximação nos primeiros anos do século XX, ocorrendo depois uma redução do ritmo, em função da política interna e da simpatia dos militares pelo nazifascismo.

A guerra resolveu tudo, do ponto de vista dos Estados Unidos. Rapidamente os oportunistas militares brasileiros perceberam quem seriam os vencedores. Com isso, além do envio da FEB para a Itália, o país foi aberto para os interesses estadunidenses. Bases estratégicas foram instaladas no Nordeste, uma imensa quantidade de material bélico foi comprada pelas Forças Armadas Brasileiras e o país quase foi jogado em um conflito contra a recalcitrante Argentina.

Moniz Bandeira descreve, no livro “Brasil, Argentina e Estados Unidos: da Tríplice Aliança ao Mercosul”, o ambiente no qual as forças brasileiras quase foram utilizadas como auxiliares do poderio dos EUA: “O desígnio do almirante Ingram, no entanto, não era apenas fazer uma demonstração de força, a fim de intimidar Buenos Aires, e sim promover o bloqueio do Rio da Prata, o que certamente precipitaria o conflito armado, forçando o Brasil a invadir a Argentina. O secretário de Estado, Cordel Hull, já fizera essa proposta, e o próprio Roosevelt, com a perspectiva de uma intervenção militar na Argentina, determinara que o Munitions Assignment Board entregasse rapidamente ao Brasil grandes quantidades de armas e munições, bem como equipamentos para duas ou três divisões de regimentos motorizados, de modo que ele pudesse concentrar poderosas forças no Rio Grande do Sul”.

A intervenção não ocorreu porque a Grã-Bretanha utilizou os resquícios de sua antiga glória, para se opor à aventura e autoridades civis brasileiras, inclusive Getúlio Vargas, vetaram a proposta.

Ao final da guerra, os militares brasileiros já haviam migrado definitivamente da antiga tutela britânica, para a dos Estados Unidos. A submissão dos comandantes brasileiros aos Estados Unidos, fruto de um anticomunismo ingênuo e da capacidade de cooptação dos estadunidenses, é observada pelo próprio Vernon Walters, o adido do exercito dos Estados Unidos junto à FEB e embaixador em Brasília, em 1964. Segundo Walters, nas suas memórias, em 1962, “ao chegar ao Rio, fui, para a minha surpresa, recebido por treze oficiais generais brasileiros que tinham servido comigo na Itália. É claro que na guerra, eles não tinham posto tão elevado”. Na data da chegada do novo embaixador, a conspiração já ocorria sem tréguas e Walters não estava ali por acaso.

As raízes do Golpe de 1964

Não há dúvida de que os oficiais, agentes e autoridades dos Estados Unidos, com muito maior senso nacional e geopolítico do que os militares caipiras brasileiros, aproveitaram a intimidade estabelecida na guerra (na Europa, no Nordeste, no Rio de Janeiro e, agora se sabe, na fronteira com a Argentina), para cooptar suas contrapartes do Brasil. Provavelmente nem foi preciso muito, bastaram alguns dólares (parte deles fornecidos por empresários paulistas), o manejo do anticomunismo ingênuo, os preconceitos e o excesso de vaidade.

O Haiti foi a Itália do golpe atual

Os militares que ocupam as cadeiras mais altas do ministério atual serviram no Haiti – exceto o vice-presidente, Hamilton Mourão – onde estabeleceram profunda intimidade com oficiais das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Os estadunidenses continuam mantendo forte senso do interesse nacional do seu país e da geopolítica.

Os brasileiros, por seu lado, continuam sendo vaidosos, preconceituosos, ingênuos, gananciosos, caipiras e despreparados para compreender o mundo. O comportamento desses militares revela covardia por não assumirem a defesa do país e um posicionamento antinacional, ao assistirem passivamente o desmantelamento do Brasil.

O patriotismo histórico dos soldados brasileiros sempre foi da boca para fora. O cenário político; quando grandes pedaços do país são desnacionalizados e a população, que os militares deveriam defender, sofre uma crise inédita, que rebaixa o nível civilizatório do país; prova que, para os militares do Brasil, o senso de soberania permanece nos discursos e na propaganda.

Apêndice

Coisas que formaram o DNA das Forças Armadas Brasileiras:

1 - Disposições ministeriais para a Escola Preparatória de Cadetes, seleção de 1941 (que formou a geração imediatamente anterior a Bolsonaro).

“É proibida a inscrição de pessoas de cor, negros e mulatos; de filhos de estrangeiros; de filhos de pais que exercessem atividades humildes, artesanais ou proletários; de candidatos pertencentes a famílias cuja orientação política inspirava suspeitas; de judeus; de filhos de casais desquitados, desajustados ou cuja conduta, particularmente do membro feminino, discrepasse das normas morais; e de não católicos.

(“Memórias de um Soldado”, Nelson Werneck Sodré)

2 - O anticomunismo ingênuo e preconceituoso, que leva o general Mascarenhas a acreditar que o comunismo é uma doença que pode ser contraída por contágio.

“É interessante relatar aqui o encontro que tive, e que não pude evitar, com o general Sudakow; chefe da Missão Militar Russa no teatro do Mediterraneo, no mesmo hotel em que me achava. Mostrava interesse em me saudar, apesar de minha atitude esquiva. Finalmente, encontramo-nos face a face no elevador, onde me dirigiu cordialmente a palavra, interessando-se pela situação da tropa brasileira e do Brasil. Respondi com muita reserva, porém cordialmente, às perguntas que delicadamente me formulou. Nenhum outro encontro tive com o General Sudakow, pois foi rápida a sua passagem por Nápoles”.

(“O Brasil na Segunda Guerra Mundial” – Teresa Isenburg – memórias do general Mascarenhas de Morais).

Evilázio Gonzaga Alves é jornalista, publicitário, especialista em marketing, opinião pública e mídias digitais. Estudioso assíduo de história, geopolítica e estratégia militar

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