15 de abr de 2019

Reich tropical


O episódio no Clube Hebraica, no Rio, fez com que Bolsonaro e sua entourage de idiotas vislumbrasse um nicho de eleitores pronto para ser ativado: a multidão de ignorantes que, por falta de conhecimento histórico, vê Israel como ponta de lança da civilização ocidental na barbárie muçulmana vendida, diuturnamente, pela mídia pró-EUA.

Ou seja, 99% da mídia brasileira.

Para quem não lembra, foi na Hebraica que Bozo mediu negros quilombolas em arrobas e, divertido, revelou ter fraquejado ao produzir uma filha, em meio à ninhada anterior de machos.

Juntou-se a isso a cultura neopentecostal brasileira, que mistura os símbolos e rituais judaicos às liturgias cristãs, ao ponto de o bispo Edir Macedo, sacerdote supremo do bolsonarismo, ter se transformado num Abraão ambulante à cata de dízimos, na Rede Record.

O erro de Bozo foi entrar numa seara onde predomina, mesmo dentro da ultrarreligiosa Israel, a ciência e o laicismo histórico: o Shoah, o holocausto judeu promovido pelos nazistas alemães, durante a Segunda Guerra Mundial.

É muito provável que Bozo tenha ensinado a seus pimpolhos, ao longo dos anos, que o holocausto foi um exagero, quando não uma mentira, tese amplamente alimentada e disseminada pela extrema-direita, em todo o mundo, e também, claro, no Brasil.

Nisso, inclusive, se enquadra essa tentativa débil de vincular o nazismo à esquerda, uma tese de siderados que só existe porque o Brasil chegou a esse nível de cretinice ideológica que tornou possível a eleição do Bozo.

Ao perdoar o Holocausto, mesmo depois de ter rastejado diante de Benjamin Netanyahu e sua tropa de fanáticos sionistas, Bozo se viu em maus lençóis. Mexeu na ferida mais profunda de Israel e expôs ao mundo o que todos os brasileiros já sabiam, há décadas: sua inominável ignorância e sua alma nazista rastaquera.

Agora, teve que mandar uma carta de desculpas a Israel, mas sem fugir à pusilanimidade de sempre: acusou os adversários de terem distorcido sua fala para afastá-lo de seus "amigos judeus".

A memória dos mais de 6 milhões de judeus mortos em campos de concentração nazistas não merecia ter sido maculada por uma aberração cognitiva dessa.

Leandro Fortes, jornalista

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