13 de abr de 2019

Olavo, o filósofo fake, vai ao confessionário com Bial, que o deixa virar o anti-Jean Wyllys


Ai, meu Deus. Sexta à noite, tanta coisa melhor pra fazer na vida, telefone tocando, whatsapp quicando, e eu aqui carregando uma culpa do caralho porque não escrevo há uma semana pra um blog lido por meia dúzia de amigos. Mas assim sou eu. E eu, olha, realmente, não tenho capacidade intelectual – tá vendo, vou logo botando o rabo entre as pernas, não o ego no fiofó, viu, seu Olavo – pra entender uma pessoa como Olavo de Carvalho, o intelectual pica das galáxias da direita, o Neo que escolheu a pílula errada, o Prêmio Nobel da Picaretagem, que vivendo seu momento de Cinderela Pop resolve dar uma entrevista pro Pedro Bial. E ele realmente se acha o grande intelectual, filósofo e pensador da direita brasileira, não que isso seja lisonjeiro se você pensar em quem são os intelectuais da direita. Rodrigo Constantino? E, embora entre no varejo mais pueril do governo de seu discípulo Jair Bolsonaro, dando telefonemas para nomear ministros, ditando políticas de governo pelo twitter, xingando quem quer pelo youtube, jura que não o preocupa o tempo presente, mas a posteridade. Sim, ele jura tudo isso de pés juntos, camisa de lenhador, anel de doutor e rifle encostado na parede de sua bem mobiliada mansão em Richmond, na Virgínia, que diz sustentar com suas “milhares de palestras”, já que orgulhosamente afirma que não trabalha “para não ser perseguido” – eu fico pensando nos 13 milhões de pessoas que procuram por emprego no Brasil da direita, sem falar nas taxas de subutilização e desalento que batem recordes, e fico imaginando na bela sova que essas pessoas poderiam dar em Olavo de Carvalho. Sou contra linchamentos.

E de repente, Olavo, o homem que escreveu mil livros, todos best sellers, diz ele, e que não vive dos direitos autorais, vá entender – confira você mesmo numa pesquisa merreca no Google -, o primeiro deles “A Imagem do Homem na Astrologia”, em 1980, e o último “O Imbecil Coletivo”, de 1996 – sim, seu último livro considerado minimamente literatura e não tuites, data de 20 anos atrás – leva Bial a Richmond. Bial, Miau, o ex-repórter internacional mais badalado do país, o homem que fez o Big Brother Brasil tornar-se um fenômeno de merchandising – que ainda cita falsamente Jean Wyllys, ex-BBB, como se devesse a ele um favor- , está lá no seu talk show, presenteado pela Globo, indo apresentar a brasileiros e brasileiras quem é Olavo de Carvalho. Depois da biografia do Roberto Marinho, Bial pode até sambar na cara do Ali Kamel, o tarado por cotas raciais, mas, sinceramente, queria entender. E, vamos lá, parei de madrugada para ouvir o guru ideológico de Bolsonaro, que poderia bem ser um capelão retardado, no programa Conversa com Bial.

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Olavo de Carvalho, o debiloide completo, exposto na TV Bial: “Falta ao Bolsonaro se unir ao povão, e pra isso tem que falar mais em cadeia nacional de rádio e TV. Fazer um programinha de dez minutos por semana, as lives na internet não bastam. Temos que criar uma democracia plebiscitária. Aliás, ele devia dar um ministério para cada um dos  filhos. Devia botar os três de ministro, sem salário. Bolsonaro pode confiar em mim. Eu nunca vou sacanear ele”.

Queria começar por algo que me incomodou muito - tem gente que vai achar chato, eu sei -, e que foi aceito por Bial como uma interpretação histórica legítima e não uma calunia histórica. “A derrubada do João Goulart foi obra exclusivamente da classe política, dos governadores e do Congresso”, e o que os militares fizeram fizeram, candidamente, coitados, foi dar o golpe em quem teria dado o golpe, ou seja, os civis e a mídia. Teria sido portanto um golpe civil, herdado pelos caras de estrelas no ombro. Mentira vergonhosa. Releitura histórica da pior qualidade. Mas, vamos lá, junto com os amigos de agências de rechecagem, que fizeram um bom trabalho. O afastamento do presidente João Goulart pelo Congresso ocorreu depois de uma série de ações tomadas pelos militares em 31 de março e 1º de abril de 1964. O golpe começou no dia 31 de março, quando o general Olímpio Mourão Filho, da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, em Juiz de Fora (MG), disparou telefonemas para iniciar o movimento de derrubada do governo. Depois, decidiu deslocar suas tropas para o Rio de Janeiro. A ação havia sido combinada nos dias anteriores com políticos de oposição, como o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto. No dia 1º de abril, os atos dos militares já eram notícia nos jornais. A situação, portanto, já estava definida contra o governo na manhã de 1º de abril. Goulart, que estava no Rio, decidiu viajar para Brasília. Lá, percebeu que não havia segurança e foi então buscar apoio para se defender no Rio Grande do Sul. Foi apenas quando isso ocorreu, na madrugada de 2 de abril, que o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a presidência da República, em sessão conjunta da Câmara e do Senado. Castello Branco foi eleito presidente da República pelo Congresso Nacional dias depois, em 11 de abril de 1964. Isso é golpe. E militar, seu Olavo. Jango evitou a carnificina. E adiou em alguns anos sua suspeita morte no exílio.

Olavo de Carvalho também teve uma enorme preocupação em tentar provar que o Brasil é um país de direita, que o povo é de direita, esquecendo-se que foi o resultado de uma eleição manipulada por fake news – do que Olavo entende bem -, tolerada pela Justiça Eleitoral, Luiz “XV” Fux e séquito. “Quem votou no Bolsonaro não foi só a classe média não. Outro dia uma socióloga, Esther Solano, começou a fazer pesquisa entre os pobres no Brasil e descobriu que todo mundo é bolsonarista. Ficou chocada. Eu sempre soube. Eu digo há 20 anos: o primeiro candidato que se apresentar candidato a presidente com um programa ostensivamente conservador vence. Porque a população brasileira é conservadora”. Mentira. Os pobres votaram sim em Bolsonaro, porque foram manipulados. Por esse sujeito que agora fala em dar 13º salário para os usuários do Bolsa Família, não diz que vetou qualquer reajuste no valor da bolsa, noves fora nada. E que, antes de outubro e da reforma da Previdência, o 13º é só uma carta de intenções de um escroque. Então nosso povo é de direita, seu Olavo.

“Durante mais de 30 anos a população conservadora, que é majoritária, não tinha canais políticos de expressão. As redes sociais furaram isso aí. O povão ganhou a eleição. O Bolsonaro foi o primeiro candidato presidencial que foi escolhido de fora da elite. Os partidos não aceitaram, não queriam ele”. Que mentira, seu Olavo. Lula foi eleito de fora da elite e está preso por isso. Preso pelo hoje ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro. Bolsonaro foi a alternativa amarga da elite, sem Alckmin, sem Amoedo, sem Huck, sem nada. Tudo menos o PT. Tudo menos a volta de Lula. Não teve tréplica pra isso, seu Bial, só abanos de cabeça quase em concordância? A próprio Olavo, que vive no exterior sem trabalhar, enganando otários – não tem algo errado nisso, gente? – diz o seguinte sobre si próprio. “Eu nunca fui membro da elite, sou é um mané, um zé mané de sucesso. Eu não tenho cargo público. Eu não tenho emprego, meu Deus do céu”. Meu Deus do céu. Sim, eu assisti aos 40 minutos de entrevista, então pelo menos me leiam.

Ricardo Miranda









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