17 de abr. de 2019

O STF atirou no corneteiro para atingir o vazador

O que fazer com o desmanche das instituições - do qual Moraes foi um dos artífices - que permite a duas corporações se insurgirem contra o próprio STF, amparado nas milícias digitais?


Um pouco antes do golpe de 1964, o aparelho policial já mandava e desmandava na República, não apenas através dos IPMs (Inquéritos  Policiais Militares), mas também da Polícia Civil do Rio de Janeiro, atuando politicamente.

Um dos inquéritos abertos foi contra Jorge Serpa, então diretor financeiro da Mannesman, acusado de emitir papéis sem lastro. Para depor, foi convidado Homero de Souza e Silva, sócio e melhor amigo de Walther Moreira Salles. Antes de começar o interrogatório, o delegado alertou-o:
  • Pelo amor de Deus, jamais mencione o nome de seu amigo, em nenhuma hipótese.
A polícia política esperava qualquer menção, por mais irrelevante que fosse, para montar o circo com Moreira Salles.

O episódio do “amigo do amigo” – a notícia sobre a delação da Odebrecht que teria mencionado “o amigo do amigo” – é da mesma lavra. A declaração não tem nenhum significado. O episódio, irrelevante, teria ocorrido quando Dias Toffoli era titular da Advocacia Geral da União e ele seria o tal amigo do amigo. A Odebrecht precisava de contatos com Toffoli – em qualquer economia, grandes empresas sempre precisam definir temas com autoridades. Aí, um executivo lembrou que ele era amigo de um amigo. Apenas isso.

Mas a mera menção de uma irrelevância foi suficiente para a Lava Jato – que tem a obrigação de manter o inquérito sob sigilo – vazar a declaração para uma publicação, que se incumbiu de escandalizar, como represália às últimas investidas do STF contra as fakenews.

O Antagonista tem se prestado há tempos ao papel de agente dessas ameaças da Lava Jato. Mas o caminho para chegar nos verdadeiros autores não passa pelas ameaças formuladas pelo Ministro Alexandre Moraes contra a publicação. No fundo, é demonstração clara da impotência do STF.

O caso demandaria uma investigação, para apurar as responsabilidade pelo vazamento. Bem feita  encontraria a equipe da Lava Jato no final da linha. Mas quem poderia investigar? A Polícia Federal, subordinada ao principal articulador da Lava Jato, juiz Sérgio Moro? A ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) submetida a um presidente que é a âncora principal das milícias digitais e das reais?

O que fazer com o desmanche das instituições – do qual Moraes foi um dos artífices – que permite a duas corporações se insurgirem contra o próprio STF, amparado nas milícias digitais?

Criou-se um monstro. E não será vencido intimando apenas o corneteiro. Seria interessante que Moraes inquirisse o verdadeiro autor das feitiçarias – seu colega Luis Roberto Barroso – para que explicasse como colocar o Drácula de volta no caixão.

Luís Nassif
No GGN

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