9 de abr de 2019

Israel vota no apartheid


Terá um resultado certo nas eleições de terça-feira 9 de abril: uns 100 membros do próximo Knesset [Parlamento] serão partidários do apartheid. Isto não tem precedentes em nenhuma democracia. De 120 legisladores, uma centena; a mais absoluta das maiorias absolutas apoia que seja mantida a situação atual, que é o apartheid.

Com semelhante maioria, no próximo Knesset será possível declarar oficialmente que Israel é um Estado de apartheid. Com semelhante apoio, e considerando a durabilidade da ocupação, propaganda nenhuma conseguirá refutar a simples verdade: quase todos os israelenses querem que o apartheid continue. No cúmulo da chutzpah [insolência], o chamam democracia, apesar de que mais de 4 milhões de pessoas que vivem junto deles e sob seu controle não têm direito de votar nas eleições. Obviamente, ninguém fala disto; mas em nenhum outro regime do mundo tem uma comunidade junto a outra em que as pessoas residentes de um denominado ‘assentamento da Cisjordânia’ tenham direito a votar, enquanto que as pessoas residentes da outra, uma aldeia palestina, não têm. Isto é o apartheid em todo seu esplendor, cuja existência querem manter quase todos os cidadãos judeus e judias do país.

Serão eleitos cem membros do Knesset de entre opções chamadas de direita, de esquerda, de centro, mas o que todas têm em comum supera qualquer diferença: nenhuma tem a intenção de dar um fim à ocupação. A direita o diz com orgulho, enquanto que a centro-esquerda lança mão de ilusões inúteis para escurecer a foto, enumerando propostas para uma “conferência regional” ou “separação segura”. A diferença entre os dois grupos é insignificante. Ao mesmo tempo, a direita e a esquerda cantam “fale sim ao apartheid”.

Como resultado, estas eleições não são importantes, e muitos menos cruciais. Portanto cortemos a histeria e o patetismo sobre seu resultado. Não se avizinha guerra civil nenhuma, nem sequer uma fissura. O povo está mais unido do que nunca, dando seu voto ao apartheid. Quaisquer sejam os resultados da terça-feira, o país do ocupante seguirá sendo o país do ocupante. Nada o define melhor, e todos os outros assuntos são marginais, incluindo a campanha do partido Zehut para legalizar a maconha.

Portanto, não tem razão para conter a respiração pelos resultados da terça. A eleição está perdida previamente. Para as pessoas judias de Israel, determinará o tom, o nível de democracia, o Estado de Direito, a corrupção em que vivem; mas não fará nada para mudar a essência básica de Israel como um país colonialista.

A extrema direita quer a anexação da Cisjordânia, um passo que faria permanente na lei uma situação que é permanente na prática faz muito tempo. Esse passo poderia apresentar uma vantagem tentadora: até que enfim Israel tiraria a máscara de democracia, e isso poderia gerar oposição tanto no país quanto no estrangeiro.

Mas nenhuma pessoas de consciência pode votar na direita fascista, que inclui pessoas que advogam pela expulsão da população palestina ou a construção de um Terceiro Templo no Monte do Templo [atual complexo de Al Aqsa] e a destruição das suas mesquitas, ou que inclusivem sonham com o extermínio. O partido Likud (supostamente mais moderado) do primeiro ministro Benjamin Netanyahu só deseja manter a situação atual, o que significa um apartheid não declarado.

A centro-esquerda procura enganar; nem o [partido] Kahol Lavan  [Azul Branco] nem o Trabalhista dizem uma só palavra sobre o fim da ocupação, ou até o levantamento do bloqueio à Faixa de Gaza. O partido de Benny Gantz têm planos ambiciosos de fazer história com uma conferência regional, e “aprofundar o processo de separação da população palestina junto com a manutenção incondicional (…) da liberdade de ação do Exército israelense em todas partes.”

Fazia muito que não se escrevia um documento semelhante para encobrir a ocupação em toda a sua vergonha. E o Partido Trabalhista não fica atrás. O passo mais audaz que propõe é um referendum sobre os campos de refugiados que existem em volta de Jerusalém, em que só os israelenses votariam, é claro.

E isso vem a se somar às já muito gastas declarações sobre os blocos de colônias, Jerusalém, o Vale do Jordão,  e o fim da construção de colônias fora dos blocos; o que significa continuar com a construção incessante de colônias. “Caminhos para a separação”, o chama este partido, o hipócrita fundador da empresa de colonização. Caminhos para o engano.

Paz? Retirada? Desmonte das colônias? Não façam a esquerda sionista rir. E não resta muito mais,  dois bilhetes e meio: os fiapos de Meretz e Hadash-Ta’al, que apoiam uma solução de dois Estados ?esse trem cambaleante que já abandonou a estação? e Balad-Lista Árabe Unida, que está mais próxima de advogar pela solução de um só Estado ?a única que resta.

A votar no apartheid.

Gideon Levy
Tradução: Tali Feld Gleiser
No Desacato

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