30 de abr de 2019

Guerra das estrelas

“Nosso futuro está escrito nas estrelas”, disse Shakespeare, ou Brutus pela mão de Shakespeare. Também disse o contrário: que nosso destino vem, não do alto, mas das nossas entranhas, e quem somos nós para exigir que, além de ser Shakespeare, Shakespeare seja coerente? No Brasil de Bolsonaro podemos escolher não só quem ou o que nos guiará, mas os detalhes da sua natureza. Para orientar-se e orientar a nação neste começo de governo, Bolsonaro escolheu as estrelas. Para assegurar-se de uma relação direta com as estrelas escolheu, para começar, um astrólogo famoso. Se os astros falharem... não faltará um suprimento de estrelas saudosas de outra natureza, prontas para intervir.

O Paulo Guedes não usa estrelas nos ombros, nem – que se saiba – metafóricas, mas seus sonhos americanistas e seus delírios de mercado aberto, custe socialmente o que custar, devem fazer dele talvez o mais perigoso dos nossos guias. Comenta-se em Brasília que na volta dos Estados Unidos, onde ouviu a notícia de que a Petrobrás não aumentaria o diesel, Guedes foi ao escritório de Bolsonaro, que trancou a porta. Durante duas horas só se ouviu uma voz de dentro do escritório. Na saída, Bolsonaro suava e parecia trêmulo. Durante as duas horas, ele só ouvira reprimendas e ameaças do presidente. Acabara tendo de ouvir a pergunta humilhante: o senhor não sabe, seu Jair, no que nós nos metemos? Em que briga de cachorro grande?

A situação é essa. Estrelas graduadas, metidas com estrelas metafísicas, metidas com estrelas liberais, numa constelação em choque, ou várias constelações engalfinhadas num pega sideral, até que se definam. Quem vencerá? Não se sabe nem quem está na frente. Os militares têm as armas e o hábito, embora se digam regenerados e teimem em representar essa nova normalidade. O Olavo de Carvalho representa uma excentricidade de um só, o que não deixa de ser uma credencial política. Não sei se anda armado.

Luís Fernando Veríssimo

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