28 de abr de 2019

Espanha: vitória dos socialistas, irrompe Vox, desabam PP e Podemos


O surgimento de Podemos na Espanha parecia apontar para o fim do bipartidismo na Europa. Com os dois partidos tradicionais em cada país apoiando a politica de Austeridade – o nome que o Banco Central Europeu deu à sua politica de ajuste fiscal, se abria um espaço para uma nova esquerda. Podemos foi a primeira expressão dessa nova tendência.

Estas eleições impõe uma nova perspectiva para a política espanhola. Em primeiro lugar, se o PP consolida sua decadência, caindo para o pior resultado da sua história, não acontece o mesmo na esquerda. O Psoe, depois de ter sofrido uma baixa significativa quando Podemos surgiu, se recuperou e passa a ser o único partido que pode dirigir uma coalizão de governo na Espanha.

Podemos, por sua vez, se nas eleições anteriores se havia colocado o objetivo de superar o Psoe, cometeu erros graves e teve uma debacle, perdendo quase a metade da sua bancada e ficando com um terço dos parlamentares socialistas. Os dois, o PP à direita, e o Podemos à esquerda, são os principais derrotados destas eleições.

No campo da direita, depois do surgimento de Cidadaos, uma variante mais moderada do que o PP, a maior novidade foi a aparição de Vox, com a extrema direita chegando à Espanha. Em outros países essa corrente já havia aparecido – como a Franca, a Alemanha, a Itália, entre outros -, mas não na Espanha. Para tentar evitar o crescimento de Vox, o PP escolheu um novo dirigente na sua ala mais de direita, mas não foi suficiente.

O problema é que, se Podemos tem uma tendência decrescente, demonstrando que não é nova corrente de esquerda que se fortalece, mas na extrema direita, com Vox com tendência ascendente. Tudo vai depender do novo governo. Seu sucesso pode brecar a tendência ao fortalecimento de Vox. Mas se o novo governo socialista fracassa, a tendência será que o fortalecimento venha da extrema direita e não de Podemos, que pode acentuar sua crise nessa circunstância.

Podemos irrompeu de forma espetacular na política espanhola, mobilizando a setores de juventude e conquistando as bases de apoio do Psoe, desgastado pela adesão desse partido a políticas neoliberais. Mas Podemos não chegou a desenvolver amplo trabalho de massas, ao contrário dos partidos da nova esquerda na América Latina. Exagerou no protagonismo na mídia, não conseguiu administrar as diferenças internas, que levaram a que vários dirigentes se afastassem, ao mesmo tempo que foi perdendo parte significativa das novas gerações de eleitores, com o Psoe recuperando votos que tinha perdido.

Falta o conhecimento da experiência do PT e do Brasil, com seu trabalho de massas, seus governos nacionais e regionais, para que Podemos possa encarar o duro balanço que tem que fazer. Isso teria permitido que o Podemos tivesse aproveitado mais seu auge.

A maior novidade então nas eleições espanholas é a chegada de uma corrente de extrema direita, uma das consequências do fracasso de Podemos. Em outros países, como a Franca, a Alemanha e a Itália, quem capitaliza o debilitamento dos partidos tradicionais, em especial os da esquerda, é a extrema direita. Como no caso da Franca, em que é a extrema direita da Le Pen quem volta a se fortalecer, com as grandes manifestações dos jaquetas amarelas.

A própria formação do novo governo não está resolvida, porque os votos do Psoe e do Podemos não são suficientes para a maioria necessária para formar um governo. Os socialistas terão que contar com os pequenos grupos nacionalistas, com os quais não tem tido boas relações. A alternativa, uma aliança com Cidadaos, partido moderado de direita, parece fora de possibilidades, pelas juras deste de não se somar de forma alguma aos socialistas. Veremos se, caso o Psoe não consiga a maioria suficiente, se essa possibilidade reaparece ou se, revelando que a crise de governabilidade é mais profunda, se cheguem a convocar novas eleições.

Emir Sader, sociólogo e cientista político

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