5 de abr de 2019

Contos de Carochinha fascistas


O governo de Jair Messias Bolsonaro quer rivalizar com os irmãos Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, papas do Conto de Fadas Infantil. Só quem acredita em Chapeuzinho Vermelho – vermelho, olha a mensagem subliminar! – e o Lobo Mau pode crer que Augusto Pinochet e Algredo Stroessner, cada um “mito ao seu tempo”, foram estadistas de seus países, Chile e Paraguai, e não ditadores sanguinários, partes das penas do Condor que abriu as asas sobre a América do Sul nos terríveis anos de chumbo. Da mesma forma, a ditadura brasileira, por essa leitura, foi um passeio no parque, com palhaços como o Tio Brilhante Ustra, alegrando as noites nos porões de brasileiras e brasileiros por 21 anos. Não houve ditadura, nem golpe de Estado, embora já o tenham admitido, em seus textos e memórias, os próprios generais-presidentes e, fora engano, até o tarólogo amador Olavo de Carvalho, o drugstore cowboy de Richmond cujas taras ainda vão render muitas horas de análise – nem que seja a nossa. Sem eletrochoque dessa vez, por favor.

Bolsonaro vai a Israel, desdenha dos povos árabes, que, promete, vai encaixar na “agenda” ainda no semestre, e de quebra ajuda a campanha eleitoral de “Bibi” Netanyahu – teria o Capitão sugerido um atentado com uma adaga como último recurso? – e volta repetindo as barbaridades de seu chanceler, o olavista “Ernie” Araújo. O Holocausto foi um movimento da espertalhona esquerda, sempre esquiva, e não, como sabe qualquer colegial judeu, do nazi-fascismo, movimento da extrema-direita européia. Dizer que é um movimento de extrema esquerda, que também produziu catástrofes, é falsificar a história. Como espalhar uísque vagabundo pelos livros. Lei Seca nesses historiadores de plantão! O assassinato de 6 milhões de Judeus durante a Segunda Guerra Mundial não foi uma dessas catástrofes “esquerdistas”. Leiam, meus senhores. Tipo “Anne Frank”, da própria, e “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, por exemplo.

E quem faltava se juntar aos bandoleiros da história? Os opus monarquistas, que estão aproveitando a inútil data de 130 anos do regime no país para mandar os sobreviventes da antiga família real portuguesa fazer seu lobby reacionário, começando pelo santo Congresso Nacional, em Brasília. Bisneto da Princesa Isabel, o líder monarquista Dom Bertrand – o termo soa estranho, eu sei – nome completo Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança – ufa! -, já agendou reuniões com parlamentares recém-empossados, como mostraram portais como a BBC. Piada de bar nos anos petistas, agora eles são levados a sério e até bajulados nos salões do poder numismático. E, vejam só que andou reclamando de Alexandre Frota, o Rei do Pornô Homoerótico, tem até um sobrinho real, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL, claro, SP, claro). Defendem simplesmente a restauração da monarquia, sem nos apresentar uma Lady Di à altura, e dirigem a entidade que sucedeu a TFP – um certa IPCO, ou Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. Mais ou menos como defender o nazismo e ter espalhados por nichos skin heads filiais da FAH, a Fundação Adolf Hitler.

Sim, você adivinhou, se existe bancada da bala, da grilagem (“agronegócio”), da terra plana (“neopentecostais”), dos planos de saúde (da “saúde”), da Taurus (do “direito à defesa da vida”), do tabaco (ave, Sergio Moro, que quer baixar impostos e preços dos cigarros mais cancerígenos), obviamente existe a bancada da coroa. Em 1993, a restauração da monarquia no Brasil foi rejeitada em plebiscito, tendo recebido o apoio de 13,4% dos eleitores. Outros 86,6% endossaram a manutenção da República. Mas e daí? Uma vez monarquista, sempre monarquista, professando, claro, da oposição ao casamento gay, o fim das demarcações de terras indígenas e a proibição do aborto em qualquer circunstância. A volta da escravatura ainda parece ser um tema polêmico, mas nada que não se debata no Congresso de hoje. Entre os monarquistas declarados, o ministro-zumbi da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, a deputada “toda ruiva” Carla Zambelli (PSL-SP) e o assessor da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins. Ou vocês acham que a alternativa da extrema-direita a Bolsonaro é Mourão? Tolinhos. Arranjem logo uma coroa.

Ricardo Miranda

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