30 de abr de 2019

Bozo ataca Pablo Villaça

Esta noite, o presidente da República Federativa do Brasil usou suas contas oficiais no Facebook, no Twitter e no Instagram para incitar seus milhões de seguidores contra um cidadão do país.

No caso, este que vos escreve.

Imediatamente, centenas de mensagens com insultos, ataques e, sim, ameaças começaram a surgir nos espaços de comentário do FB e do Insta (no Twitter, há configurações e filtros que dificultam que este tipo de mensagem apareça nas minhas mentions e, portanto, vi menos de 20 ou 30). O curioso é que, ao se dirigir ao mim, Bolsonaro me identificou como "diretor de cinema", já que, aparentemente, ao ler minha bio sua parca alfabetização foi toda utilizada antes que ele chegasse à parte "em cena" (eu me apresento como "diretor do Cinema em Cena") - e, assim, os fiéis de sua seita imediatamente vieram me acusar de criticá-lo por ter "perdido a teta da Rouanet", por estar frustrado "porque meus filmes não têm público" e por aí afora. Teve até gente afirmando que "todos os seus filmes são uma merda", o que achei divertido (e revelador).

O ataque de Bolsonaro (pai ou filho, seja lá quem estava controlando as contas no momento), como não poderia deixar de ser, também foi desonesto ao pinçar um tweet que publiquei no meio de uma sequência e apresentá-lo aos seus asseclas como algo independente de contexto.

O que escrevi: "Eu sabia que o governo de Bolsonaro seria uma distopia - é isso que acontece quando um homúnculo estúpido, mau caráter, inseguro e autoritário assume o poder. Mas a rapidez com que ele está destruindo qualquer vestígio de civilidade no país é espantosa. A promessa de "não punição a quem matar em defesa da propriedade" é uma síntese da mentalidade truncada, distorcida, sociopática, de alguém que não enxerga valor algum na vida humana ou em princípios básicos de civilidade. É algo tão óbvio que nem vejo por que discutir aqui. A única coisa que posso dizer é que, sim, me sinto completamente à vontade para dizer que quem defende esse governo e esse presidente é canalha. Não há justificativa possível para se posicionar do mesmo lado que gente como Bolsonaro".

Reparem que nem me referi a quem VOTOU nele, mas aos que ainda o defendem e ao seu governo. Os primeiros podem ter votado iludidos; quem ainda se mantém ao lado dele não tem mais essa desculpa. E querem saber? Mantenho o que disse: se você defende um cara que trata as mulheres como objeto de consumo para turismo sexual, que insiste num discurso homofóbico, que tem todo um histórico de associação com milicianos, que estimula a polícia a matar, que quer acabar com o ensino de Ciências Humanas, que está determinado a manter os brasileiros trabalhando até a morte enquanto destrói suas aposentadorias, que basicamente destruiu o Mais Médicos, que quer entregar a Amazônia aos Estados Unidos e que, sim, está destruindo a produção artística brasileira, então a palavra para descrever este apoio é "canalhice". Simples assim.

E eu, como cidadão, tenho todo o direito de expressar essa opinião sem que o presidente use suas redes sociais OFICIAIS (e todos sabemos que ele já conta com uma vasta rede de bots) para incitar milhões de pessoas contra mim. Mas o Brasil de 2019 é de selvageria e estupidez, então tolo sou eu de esperar algo diferente daquele que representa a manifestação destas características em forma humana.

Aliás, é espantoso como Bolsonaro, com um cinismo espantoso, teve a coragem de me recomendar "mais amor e menos ódio" - o mesmo que Voldemort dizer que os Comensais da Morte são um grupo que apoia a inclusão ou Palpatine afirmar que o Império é democrático.

A diferença é que ambos são mais inteligentes e têm aparência melhor que a do presidente.

(E aos que espalharam minhas fotos com Luis Inácio Lula para me atacar, bom... erraram a estratégia: tenho um orgulho imenso delas.)

E já que o presidente revolveu me atacar e cada um luta com as armas que tem, vou usar as minhas - vocês - e fazer algo que raramente faço (e deveria fazer mais): convidar vocês a apoiarem meu trabalho e o Cinema em Cena através do sistema de colaboração do Catarse: www.catarse.me/cinemaemcena. Nos próximos dias, inclusive, estrearemos a nova versão do site bem a tempo da cobertura do Festival de Cannes - mas os colaboradores já poderão acessá-lo desde já. Aproveito também para convidá-los a seguir o canal no YouTube (www.youtube.com/pablovillaca).

Quem já me acompanha há algum tempo sabe que não me sinto e nunca me senti muito à vontade ao divulgar esse tipo de coisa, mas já sacrifiquei muita coisa (leitores, oportunidades de carreira, saúde) me manifestando politicamente como cidadão para me calar justamente ao divulgar meu trabalho e as maneiras como vocês podem apoiar o que faço.

Porque uma coisa já sei: prejudicado profissionalmente por isso ou não, jamais irei me calar - e que os bullies do presidente da república saibam disso.

Pablo Villaça

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