8 de abr de 2019

Bolsonaro tenta contraofensiva

É bom não subestimar


O Conversa Afiada reproduz artigo sereno (sempre!) de seu colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

Nem precisava ser vidente para adivinhar os resultados das pesquisas sobre a tragédia do governo Bolsonaro. O último Datafolha está aí para confirmar. O tenente transformado em capitão ao ser expulso da caserna rola ladeira abaixo. E nem sequer se passaram cem dias de governo.

Existe um lado folclórico nisso tudo. Bolsonaro é ignorante, um fanático armamentista, conivente com a corrupção e roubalheiras. Folclórico se não fosse trágico. Nunca fez qualquer autocrítica sobre suas ideias reacionárias, homicidas e ditatoriais. Em tão pouco tempo, desmoralizou o Brasil mundialmente, lambeu as botas do que há de pior na política mundial e vem destruindo qualquer traço de soberania nacional. Tuíte a tuíte, destroça relações comerciais cultivadas durante anos submetendo o país a humilhações coloniais.

No plano interno, Bolsonaro entretém a mídia gorda, gente da alternativa e movimentos sociais com clowns medievais como Ernesto Araújo, Vélez Rodriguez e Damares — gente rigorosamente desqualificada. Colocou militares no MEC: não faltou sequer um oficial bombeiro na cúpula da pasta em posto estratégico.

E um juizeco mau caráter para cuidar da Justiça.

As recentes declarações do impostor no Planalto só não são patéticas por verdadeiras, em parte. “ Não nasci para ser presidente. Nasci para ser militar”. Nem para militar ele veio ao mundo. No ambiente verde oliva, agiu como traidor, terrorista, um quinta coluna. Só não explodiu adutoras e instalações do Exército porque foi impedido por reportagens denunciando o desvario.

Aí enveredou pela política, onde passou 30 anos sem nunca oferecer algo digno de nota ao distinto público. Seu gabinete é retrato acabado deste aprendizado.

Ignorante por formação, vulgar por inclinação, Bolsonaro, no entanto, não é todo burro. E este é o outro lado da questão. No pouco que lhe resta de consciência que o diferencia de animais, já percebeu que não passa de instrumento — o único que sobrou para nossas elites apodrecidas e o grande capital planetário. Até ele sabe que brevemente se tornará um traste para o pessoal do dinheiro farto se não conseguir aprovar a liquidação da aposentadoria, achatar o salário mínimo e transformar os brasileiros em semi-escravos.

O pano de fundo é a nova crise que bate às portas do capitalismo, donde o Brasil é instrumento cobiçado internacionalmente. Recomendo a todos a leitura de reportagem das jornalistas Mariana Carneiro e Flavia Lima na edição impressa da Folha (7/4). Elas descrevem com gráficos irrefutáveis a linha descendente de todos os indicadores econômicos. O único que aponta para cima é o... desemprego! Detalhe: as duas jornalistas lembram que, em três meses, o Posto Ipirаnga tchuthuca Paulo Guedes (ele mesmo alvo de processos) não apresentou uma mísera proposta para retomar o desenvolvimento do Brasil.

Como disse Bolsonaro, o negócio é desconstruir.

E assim tem sendo feito com o Minha Casa, Minha Vida — maior gerador de empregos da construção civil —, o FIES, o fim dos incentivos à indústria e obras públicas por parte dos bancos oficiais, ataques ao agronegócio, corte de verbas criminoso na Educação, só para citar alguns.

Resta a Reforma da Previdência, na verdade a menina dos olhos da grande finança. Os trilhões que ela pretende roubar dos pobres é o que interessa. É a jóia da coroa. Bolsonaro sabe disso. Dela depende sua sobrevivência para falar suas cretinices à vontade ao lado da prole desarvorada. Daí para aposentar a “nova política” foi um estalar de dedos. Encontrou-se com a escória da “velha política”, gente que é alvo da Justiça em inúmeros processos, para combinar as negociatas de sempre. As reuniões se assemelharam a salas de espera de delegacias. Kassab, Alckmin, Jucá e por aí afora. Sentiu-se falta de Eduardo Cunha e Michel Temer.

Não se deve, entretanto, subestimar esse movimento. Soma-se a ele o comportamento da cúpula dos quartéis e do presidente do STF. Este que deveria ser o principal fiador da Justiça, rasteja diante dos militares de modo degradante. Só falta engraxar-lhes os coturnos. Da chamada grande imprensa, nem falar. Convescotes matinais no Planalto mostram um ambiente festivo, gargalhadas a rodo tais quais alegres comemorações de fim de ano. Difícil distinguir ali quem era governo e quem era jornalista. Impossível, na verdade.

Até onde vai esta contraofensiva? Tudo vai depender dos praticamente 13 milhões de desempregados e dos que vivem de bicos na informalidade infame, dos milhões de brasileiros que reencontram a miséria, dos setores da classe média que recuaram na escala social, do mundo acadêmico e também de empresários honestos que não se conformam com a entrega do Brasil. Os sindicatos têm sido destroçados com o corte de recursos. As centrais penam para juntar trocados para convocar as mobilizações. É na junção destes movimentos nas ruas, num calendário organizado por frentes sem sectarismo ou pré-condições exceto o “não a Bolsonaro” e suas medidas, que reside a o caminho para interromper a destruição do Brasil. A esperança é a de que isso parece começar a acontecer.

Só assim Lula vai ser libertado da prisão.

Joaquim Xavier

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