2 de abr de 2019

Bolsonaro e Netanyahu: o abraço de afogados


É uma humilhação atrás da outra. A cada viagem das comitivas da hipocrisia de Jair Bolsonaro, o Brasil diminui de tamanho, até desaparecer do mapa como nação soberana, independente, em vez de lutar por um lugar de protagonista no cenário mundial – como vinha acontecendo antes do golpe de 2016.

O turismo vexatório nos EUA dispensa comentários. Já se falou demais disso. Depois, o Chile, onde o tenente transformado em capitão ao ser expulso do Exército desfilou seu repertório de constrangimentos ao elogiar a ditadura de Pinochet. Nos dois países, Bolsonaro e sua famiglia ofereceram-se publicamente como distribuidores de panfletos e santinhos para governantes em suas disputas eleitorais internas. No Chile, foi rechaçado até por aqueles que o convidaram.

Agora, em Israel, dobrou-se ao chão mais um pouco. Netanyahu está às vésperas de um pleito em que seu mandato é ameaçado pelas denúncias de corrupção envolvendo sua gestão. Mas lá estava Bolsonaro para oferecer o ombro amigo, noivado e promessas de amor eterno. Ele entende do assunto. Enriqueceu à custa do contribuinte, aliança com milicianos e uma máquina de mentiras jamais vista no Brasil. Tem know-how comprovado em trapaças.

Mas o que parece vigor só revela aflição. Assim como o israelense em seu país, Bolsonaro está cada vez mais desmoralizado no Brasil.

Alguém tente identificar nestes quase cem dias de governo uma iniciativa que tenha empolgado mesmo seus fanáticos seguidores. Bolsonaro está pendurado numa reforma para liquidar a aposentadoria que desagrada até seus aliados. Não ganhou uma votação neste Congresso de reputação conhecida. O discurso anticorrupção dissolveu-se com a rapidez de um sonrisal na água diante de ministros alvos da Justiça e envolvimentos dele e da turma dos herdeiros Zero com malfeitos.

Sem apoio nativo, o tenente de fato corre mundo afora atrás de prestígio, mas só colhe derrotas. Pior. Consegue a façanha de reduzir ainda mais sua imagem interna quando entrega o Brasil lá fora em prejuízo dos interesses do agronegócio honesto, responsável maior por manter o país acima da linha d´água. É um desastre em permanência.

O jogo está jogado? Não! Existe uma aliança internacional, que vai de Trump a Erdogan, disposta a recorrer a qualquer desvario para salvar o capitalismo selvagem às vésperas de nova crise, como admitiu a diretora do FMI.

Esse pessoal tem armas, verbas do povo trabalhador, controle da mídia podre e muita bala na agulha. Já os adversários dispõem de recursos inferiores. Contam, porém, com o que sempre pode ser decisivo: a simpatia popular. Aqui no Brasil, depois de um tempo atordoada, a oposição dá mostras de renascimento. As Jornadas pela Liberdade de Lula, as manifestações contra a Previdência e de repúdio ao golpe de 1964 são ótimos presságios. Nem tudo está perdido.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia

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