11 de abr de 2019

As forças armadas pagarão extremamente caro pela participação no governo Bolsonaro


Parece que está dando um bloqueio mental nos generais que estão participando no governo atual, pois pelo conhecimento exato das características do tenente reformado, eles que não deveriam estar com este bloqueio, porque, como talvez diria um oficial da cavalaria nos tempos de antanho, montaram no cavalo errado.

No fim da ditadura de 1964, os militares brasileiros conseguiram um feito obtido por uma negociação hábil por militares que provavelmente já não estão mais vivos, que nenhuma ditadura que terminava na América Latina tinha conseguido.

No fim dos governos ditatoriais, a situação econômica estava se degradando a passos largos e o prestígio das Forças Armadas estava derretendo. Mesmo assim, conseguiram transferir a bomba econômica para os civis e com a famosa Lei da Anistia se auto anistiaram de todos os crimes de tortura e execuções que ocorreram durante a ditadura. Como resultado, saíram mais ou menos ilesos dos 21 anos, chamuscados e não queimados pela responsabilidade de terem colocado o Brasil além da crise moral, numa crise econômica que posteriormente gerou a “Década Perdida”.

O governo militar, para criar o falso “Milagre brasileiro”, gerou um endividamento internacional imenso para a economia do país na época, a tal ponto que o último general presidente, o General Figueiredo (1979-1985), levou o governo federal em 1982 literalmente à falência. A falência não se consumou, pois no apagar das luzes foi obtido um empréstimo ponte norte-americano de 1,5 bilhão de dólares (que para a economia da época era muito), até que fosse possível fechar um acordo com o FMI (vide reportagem do Globo, intitulada “O mês que o Brasil faliu”).

Além da falência das contas internacionais, que foram muito bem escondidas pelos militares na época, e devido a isto não é lembrada por imensa parte da população que já era adulta, os governos da ditadura levaram a pobreza a níveis extremos, provocando uma onda de saques nos supermercados cariocas no período entre 1983 a 1984 (vide mapa de saques no Rio).

A conta dos saques no Rio de Janeiro, que foram noticiados na imprensa da época, ficaram nas costas do governador de oposição, Leonel Brizola. Entretanto, também ocorreram saques em outros estados, mas ou se tornaram invisíveis na imprensa ou atribuídos à seca que assolava o Nordeste. Para acrescentar mais uma indicação do estado da economia, neste ano a inflação real foi de 164%.

Com toda esta crise, mas como o governo ainda manipulava e controlava a imprensa, os motivos eram noticiados como algo que vinha do exterior, a crise do petróleo, a crise num país distante qualquer, e nunca o produto de um endividamento externo irresponsável que fora feito para a criação do “Milagre econômico”.

O estrago foi tão grande que gerou além das maiores concentrações de renda, também o aumento da fome e da miséria no Brasil, que deixou uma economia arrasada. Os problemas que foram gerados na ditadura nos próximos dez anos criaram a “Década Perdida”, levando os seguintes governos civis que sucederam a ditadura a improvisar os mais absurdos e irreais planos de estabilização que não deram certos, como o plano Cruzado, o plano Collor, sem falar os que não tiveram nomes notáveis. Este último plano chegou a congelar todos os depósitos bancários e investimentos, deixando literalmente todos sem nenhum dinheiro na carteira e levando o país ao maior surto de falências de sua história.

Apesar de toda esta desgraceira, os militares conseguiram sair ainda com uma pequena credibilidade, que foi aumentando a medida que o tempo passava e o produto das suas besteiras econômicas criava fantasmas ainda maiores do que na época que tinham o poder. Ou seja, eles conseguiram transferir a florescente plantação de abacaxis a Sarnei, Itamar e FHC, e estes tentavam com a habitual inabilidade e sempre resguardando os interesses dos mais ricos, manobrar como podiam. Os militares, que neste momento não se metiam em política, criaram uma espécie de mito de eficiência, produto principalmente de uma censura e propaganda intensiva durante os governos militares. A encenação toda foi tão bem feita que chegou a criar um grupo de alucinados, os intervencionistas ou “patriotas”, que há pouco tempo pediam intervenção militar.

Produto desta década desastrosa, onde a inflação chegou a atingir 80% ao dia, e um saudosismo sem cabimento, uma espécie de névoa baixou sobre a história do Brasil. Com a ajuda da imprensa, foi criado uma mística tão grande sobre as “alegrias” do período militar, tornando-a uma alegria contagiante.

A falta de cabimento desta alegria e saudosismo do passado da ditadura pode ser facilmente desmontada se qualquer um que entenda de economia verifique os números do período 64 em diante. Mas baseado na falsificação e releitura dos fatos a visão distorcida do passado tão bem feita pelos militares, que os mesmos, tanto os mais jovens pela não vivência da época, como pelos mais velhos, pela demência senil, começaram acreditar nas mentiras sobre o passado.

Iludidos pela falsidade sobre os resultados do golpe de 1964, e talvez alguns animados pelos mentecaptos que pediam intervenção militar (as vivandeiras de quarteis), os militares saíram do conforto da caserna ou do descanso dos reformados no clube militar e embarcaram no governo Bolsonaro.

Se estes militares tivessem lido com atenção o que os seus antecessores escreveram sobre o Tenente, quando por pouco não foi expulso do Exército, não se achariam os reis da cocada preta que conseguiriam manobrar alguém que foi punido exatamente por insubmissão.

Tendo embarcado na nau dos insensatos, os generais embarcaram num governo que afunda não só em popularidade, como na economia, sendo que as perspectivas internacionais, totalmente diferentes na época do “milagre econômico”, são sombrias.

A pequena recuperação econômica obtida por Trump nos EUA através de uma diminuição de impostos está chegando ao fim, a Europa não decola, o Japão muito menos, a China que era a locomotiva das últimas décadas desacelera e com isto tudo as previsões de crescimento da economia mundial são praticamente nulas. Ou seja, a mesma farra do boi, criada pelo excesso de crédito internacional barato que houve no período da ditadura militar não vai se reproduzir, e a situação da economia internacional está entre a manutenção da atual crise ou um aprofundamento ainda mais vigoroso da mesma.

O cenário externo é catastrófico, e para piorar as políticas liberais propostas pelo atual governo e já postas em marcha pelo ex-presidente Temer, diminuirão o consumo interno e, por consequência, a economia interna, que somando ao cenário externo cria condições para o que se chama de uma Tempestade Perfeita.

Soma-se a todo este painel a possibilidade de insolvência de diversos estados da Federação, com coisas nada agradáveis como faltar dinheiro para pagar os funcionários públicos civis e militares. Alguns governadores pensam em fazer algumas privatizações, porém na pindaíba interna e externa, os resultados destas privatizações só vão aliviar o caixa por, no máximo, um ano ou ano e meio.

Agora pergunto: Por que as forças armadas que estavam tranquilas no seu canto, se jogaram de novo no meio da política num cenário em que é impossível repetir algo que se assemelhe ao “milagre econômico”? O que vão ganhar fazendo parte de um governo desastroso como nunca foi visto nas últimas décadas, e um governo que está colando na testa de cada general a responsabilidade pelo o desastre atual e o pior que se avizinha?

Mesmo que o atual presidente renuncie ou sofra um impedimento, ou ainda um acidente mortal, que resultaria na colocação no seu lugar de um general bombeiro, que para apagar um incêndio florestal, vai dispor de um extintor de 2 kg. Lembro a todos, cassetetes, prisões e torturas diminuem as vozes da esquerda, mas não resolvem situações econômicas.

Rogério Maestri
No GGN

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