7 de abr. de 2019

As codornas do jornalismo estão de volta


Nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, era muito comum um tipo de assédio a parlamentares no Congresso Nacional levado a cabo por uma turma de alegres repórteres – homens e mulheres – que saltitavam em torno de deputados e senadores quando estes circulavam pelos salões Verde e Azul do parlamento.

Tratava-se de uma bajulação grotesca, um tipo de pantomima que incluía afetadas saraivadas de elogios ridículos ("líder, seu discurso foi simplesmente maravilhoso") e falsas observações estéticas ("senador, vem cá para eu arrumar essa gravata"), ao mesmo tempo em que se criava em torno dos bajulados uma ciranda de puxa-sacos ciscando na porta dos plenários.

Davam gargalhadas de qualquer piada, achavam qualquer bobagem vindas de nulidades um sinal de prestígio. Às vezes, ganhavam uma migalha de informação, noutras, a chance de jantar no Piantella por conta do jornal. Era, ainda é, um exercício espúrio de sobrevivência profissional. Um retrato ao mesmo tempo triste e revelador do tipo de cobertura política que floresceu em Brasília, depois da redemocratização do País, no final dos anos 1980.

Eu gostava de chamar essas pessoas de "codornas". Elas ainda existem, em grande quantidade. As mais velhas podem ser vistas fazendo a mesma coisa, nas redes sociais.

Os governos do PT, por razões diversas, modificaram essas relações, mas não pela vontade dos repórteres. Desde o início do primeiro governo Lula, saíram de cena as alegres codornas para dar lugar a cães de guarda treinados para arrancar, diuturnamente, notas, matérias e declarações que servissem para minar a narrativa popular emanada do Palácio do Planalto. Subitamente, tudo que era normal à rotina da política passou a ser escandaloso, maléfico, pútrido.

O golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff reascendeu a chama dessa turma, embora sem o mesmo vigor e, porque não dizer, o mesmo charme. Os 13 anos de governos petistas criaram uma solução de continuidade na transmissão geracional dessa bajulação pré-PT. Mas, então, veio aquele inesquecível Roda Viva, direto do Palácio da Alvorada, com Michel Temer.

Todo mundo lembra, por isso nem preciso me estender: repórteres do Estadão, TV Cultura, Folha e Globo protagonizaram uma das entrevistas coletivas mais servis, desonestas e patéticas do jornalismo brasileiro.

As codornas estavam de volta.

Agora, vejo essa foto de um desses cafés da manhã de Bolsonaro com jornalistas pomposamente apresentados como "chefes de redação e colunistas de jornais e emissoras de televisão de todo o país", no qual a estrela do evento foi Luciana Gimenez – esse poço de bom senso e sabedoria que dispensa apresentações.

No instantâneo, todos dão gargalhadas no momento em que Bozo anuncia que fazia xixi na cama, até os 5 anos de idade. Pura empatia com essa figura lamentável que já postou no Twitter homens fazendo golden shower e que, em 100 dias, transformou o Brasil em um vexame internacional permanente.

Nem uma única pergunta sobre desgoverno, assassinato de Marielle, milícias, Queiroz, fuzis e vizinhos pistoleiros. Só risadas, platitudes e enrolação.

E como riram, as codornas.

Leandro Fortes, Jornalista e integrante da Rede de Jornalistas pela Democracia

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