14 de abr de 2019

A reacionária gata

A Folha gasta quase meia página com Gloria Álvarez, a cientista política guatemalteca que foi intensamente promovida, pela Atlas Foundation e seus satélites, como a porta-voz do ultraliberalismo na América Latina. Ela esteve agora no Brasil - esteve até aqui na UnB, onde deu uma palestra sobre "populismo e maconha" ou algo assim, parece que sem despertar grande interesse. O ponto dela é esse: apresentar um liberalismo "na economia e nos costumes", em que Estado mínimo e liberação das drogas andam juntos.

É um discurso feito sob medida para atrair para a direita uma parcela da juventude. Na prática, porém, a pauta da "liberdade econômica" sempre tem primazia e os ultraliberais acabam alinhados com a velha extrema-direita de sempre. Os que se aventuram no terreno da disputa eleitoral tendem a esquecer ou trair a agenda progressista - o MBL e o Novo servem de exemplos.

Álvarez não tem esse problema - ela se apresenta como candidata à presidência da Guatemala, mas é de mentirinha, já que não tem sequer a idade mínima para concorrer. Seu papel é afirmar o lado "transgressor" do liberalismo. Mas, aí também, as prioridades ficam claras. Ainda que acene para a descriminalização do aborto, ela ataca o feminismo, que "é marxista", e ensaia um raciocínio que se aproxima da ideia de "marxismo cultural", tal como Olavão ensina ("a esquerda se disfarçou de ecologistas, defensores de direitos de gays, feministas"). Diz que não gosta de quem mistura religião e política, mas acredita que Bolsonaro possa ocupar a posição que Macri não soube ocupar, de ser "um contraponto à esquerda na América Latina".

Da última vez que esteve no Brasil, anos atrás, ela apostava em imagem mais juvenil. Sua conta no twitter era @crazyglorita (hoje desativada, substituída por outra mais sóbria) e ela exibia a alcunha de "a reacionária gata". Deu palestra no Instituto FHC e o ex-presidente esteve lá, assistindo à sua rasa retórica ultraliberal - na época, até escrevi um texto sobre este encontro (https://grupo-demode.tumblr.com/…/a-dor-de-fernando-henrique).

O encontro continua me parecendo emblemático. Embora Álvarez, em sua inacreditável "análise" do populismo, explique que o populista é aquele que busca "dividir a sociedade com ódio, entre ricos e pobres", é essa divisão que explica por que, no frigir dos ovos, ela, FHC e Bolsonaro acabem todos do mesmo lado.

Luis Felipe Miguel

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