1 de abr de 2019

1964 já era. O problema é 2019


É curioso, não fosse cômico. A mídia gorda e a alternativa se juntam numa condenação retórica às "comemorações" ao golpe militar de 1964. Hoje todos parecem unidos. O Gobo, a Folha, o Estadão, TVs e portais ecoam as denúncias contra as atrocidades cometidas naquele período. "Somos todos contra aquela época de trevas". Viva o Brasil.

Hipocrisia pura.

A ditadura só se manteve no poder porque contou com o apoio da parte rechonchuda desta gente. Foram precisos anos e anos para que, de repente, o pessoal do dinheiro graúdo percebesse que não pegava bem defender um regime de brutalidades, torturas, assassinatos e liquidação das liberdades fundamentais. Depois que o serviço foi feito, à custa da vida de democratas como Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Carlos Marighella e centenas de outros, é muito fácil demonstrar ojeriza. Afinal, o cofre já está cheio.

Articulistas vivem da escrita. São indispensáveis nesta época em que a guerra da comunicação pode ser decisiva, mas precisam de assunto para ganhar a vida. Muitas vezes erram feio o alvo.

A parafernália de artigos sobre a decisão de Bolsonaro de comemorar uma quartelada infame é um exemplo. Não poderia se esperar outra coisa de um militar medíocre enriquecido à base da propaganda do armamento, do estupro, de milicianos, de torturas, de eliminação de pobres, de liquidação da democracia e da soberania nacional. Justiça seja feita, está fazendo o que prometeu.

A dita oposição cai na armadilha por opção, inocência ou indolência – ou tudo junto. Festeja decisões de juízes que não fazem qualquer efeito porque as tais comemorações funestas já haviam ocorrido em quartéis.

Vamos falar sério. Pergunte ao porteiro, ao balconista, ao taxista, ao desempregado, ao trabalhador e a tantos outros o que significa bozonaro (com z mesmo) festejar 31 de março de 1964. Nada será a resposta.

Agora experimente conversar sobre o fim de direitos no emprego, o adeus à aposentadoria, a destruição do Minha Casa, Minha Vida, o encolhimento do Bolsa Família, o congelamento do salário mínimo. O resultado é óbvio. Horas de conversa e interesse. Basta comparar a meia-dúzia que se mobilizou para protestar contra o édito do Bozo sobre o "aniversário" do golpe genocida.

Sinto-me muito à vontade para falar sobre tudo isso, como alguém que viveu aqueles tempos tenebrosos do regime militar. E, modestamente, participou diuturnamente do combate que derrubou o império do terror. Naquela época, o assunto principal não era como protestar contra efemérides infames. Mas sim como abreviar sua reincidência.

Isso é o que falta hoje. A dita oposição gasta muita saliva em discursos sobre o passado, mas pouco faz para evitar sua repetição.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia

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