15 de mar de 2019

Três meses de aulas com Olavo de Carvalho, o artista da ofensa

Filosofia, política e destrato à mídia: o que ensina o guru da família Bolsonaro em seu curso online

Olavo na casa de um dos seus filhos em Petersburg, na Virginia (EUA).
Foto: Vivi Zanatta / Folhapress
Meu grande ídolo é Sócrates, não o filósofo, o meia-direita. Mas fiquei curioso quando Época me sugeriu que eu virasse aluno de Olavo de Carvalho por três meses. Imaginei que, além de me matricular no Curso On-Line de Filosofia, criado por ele e frequentado por dezenas de pessoas que conquistaram poder político neste ano, eu deveria fazer como os discípulos do Sócrates grego: seguir seus passos por aí. No caso deles, era pela praça mais badalada do Mediterrâneo, a Ágora, vendo o chefe mitar em debates com os poderosos de Atenas. No meu, o plano era seguir o mestre pelas caminhadas nas redes sociais, que fazem um registro quase que hora a hora do que passa por sua cabeça.

O texto que começa na próxima página é um registro disso, o mais sincero de que fui capaz. Procurei me comportar como acho que um aluno deve se comportar: me abri para aprender, tomei notas, li vários livros, fiz um monte de perguntas. Convivi com outros alunos pelas redes sociais, por vezes fui tomar café com eles. Como regra, não identifico os alunos no texto pelo nome, para não causar problemas para ninguém. Não me escondi: usei meu nome verdadeiro, respondi a verdade para quem me fez perguntas (por exemplo, que pago minhas contas fazendo programa como jornalista).

Enquanto eu seguia Olavo, ele estava no centro do Brasil. Viu o pai de um aluno virar presidente da República, nomeou dois ministros, brigou com quase todos os outros, brigou com o partido do presidente, com os oficiais de patente mais alta que a do presidente, com o próprio ministro que havia indicado, viu dezenas de alunos seus ir trabalhar em setores estratégicos do Brasil, encontrou-se com Steve Bannon — líder do movimento populista nacionalista mundial —, varou noites postando ironias, palavrões e filosofia nas redes sociais, pediu dinheiro aos fãs para pagar dívidas, mandou os alunos pedir demissão do governo e ir estudar. Foi assunto todo dia, às vezes tratado com raiva, às vezes com desprezo, às vezes com veneração, quase sempre na capa dos jornais e revistas. Pediu em público a censura à imprensa, a proibição à expressão, o cancelamento de assinaturas, chamou a imprensa e a universidade de inimigas do Brasil, acusou-as de fraude, de crime, acusou o PT de narcotráfico, Jean Wyllys de ser mandante de assassinato, criticou Albert Einstein, Charles Darwin e Stephen Hawking. E deu 14 aulas on-line até certo ponto de filosofia, às quais assisti com atenção, todo sábado à noite.

Eu só observei à distância. Até tentei encontrá-lo, mas ele não quis. Mandei perguntas a cada aula, em cada rede social, nenhuma respondida, não sei se por ele supor uma má intenção de minha parte, que não havia. Tudo bem, não tem problema. Não é só por suas respostas que um professor ensina um aluno: aprendi muito mesmo assim. Espero que seja útil para você também.

27.11.2018

Entrei no Seminário de Filosofia por meio de um navegador: não era um prédio, mas um website. No entanto, algo no design da página parecia pretender me levar para um passado distante, quando filósofos de túnica perturbavam passantes com perguntas complicadas. Não sei se era a cor bege, como que para indicar que ali se bebia de uma tradição tão antiga que o site até já desbotara, ou a inscrição em latim, “ Sapientiam autem non vincit malitia ” (“No entanto, nenhum mal pode superar a sabedoria”).

O fato é que o seminário aceita cartão de crédito: por R$ 60 ao mês, as portas da sabedoria foram abertas para mim. Pronto. Estava matriculado no Curso On-Line de Filosofia (o COF), ministrado por Olavo de Carvalho, o intelectual preferido de Eduardo Bolsonaro e mentor da escolha de dois ministros do governo do pai dele, Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores.

O seminário tem um gavião como logotipo — na tradição política dos Estados Unidos, o símbolo da guerra, em oposição à pomba da paz.

Lendo os numerosos textos na página, fico sabendo que o objetivo do curso é “formar filósofos, e não apenas professores de filosofia ou consumidores de cultura filosófica”.

Nesse aspecto, já saí ganhando. Quem faz um curso superior de filosofia numa instituição como a Universidade de São Paulo (USP) geralmente não atribui a si próprio o título de “filósofo” — prefere considerar-se “graduado em filosofia” ou especializa-se e vira “historiador da filosofia”, “professor de filosofia”, reservando o título de filósofo aos grandes pensadores originais que estuda.

Olavo de Carvalho faz o contrário. Como ele se considera um desses grandes pensadores (e assim é considerado por milhares de seguidores), adotou por conta própria o título de filósofo, mesmo sem ter frequentado curso superior — na verdade, não concluiu o primeiro grau.

Autor de mais de 20 livros, incluindo dois best-sellers com centenas de milhares de exemplares vendidos (O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota e O imbecil coletivo, cujas lombadas, vistas de longe numa prateleira, deixam ler apenas as palavras “idiota” e “imbecil”), Olavo é também uma celebridade na internet, com mais de 1 milhão de seguidores no YouTube, no Facebook e no Twitter. Sua fama aumentou na última meia década, quando a frase “Olavo tem razão” tornou-se corriqueira em camisetas e em faixas nas manifestações conservadoras.

Fui me informar no site sobre como o curso funciona. Descobri que ele havia começado em 2009 e não acabou mais. Olavo já havia dado 449 aulas semanais, todas disponíveis em vídeo para quem, como eu, fornecesse o número e o código de segurança do cartão de crédito. Uai, mas como é que vou chegar a um curso já na aula 450? O próprio Olavo tinha a resposta, num vídeo chamado “Aviso aos ingressantes do Seminário de Filosofia”. Lá ele explica que “a filosofia tem uma estrutura necessariamente circular, e não linear. Nós voltamos sempre aos mesmos problemas, como numa espiral. Portanto tanto faz você entrar aqui ou ali, você está sempre no começo e sempre no fim”.

Lembrou-me um pouco de Raul Seixas, mas é que minha cultura filosófica é meio pobrinha. A ideia é eu começar a ver as aulas a partir de agora e, em paralelo, também assistir aos registros em vídeo do começo do curso, a partir da aula número 1. Beleza então, que seja assim, vou me atirar na tal espiral.

À noite recebi um e-mail do Seminário de Filosofia confirmando minha inscrição e avisando que, assim que meu pagamento for processado, terei acesso ao material do COF. Denis Russo Burgierman, filósofo. Hum, não soou mal.

29.11

Mas não recebi material nenhum, só a confirmação do pagamento. E a verdade é que o site é uma confusão. Os esclarecimentos espalhados pela página têm muitas filosofices, como a da espiral, e pouca informação prática. Para começar, em lugar algum encontrei o horário da aula. Mandei mensagens perguntando a todos os endereços que havia lá, e depois também na página oficial de Olavo no Facebook, que tem meio milhão de seguidores e publica dezenas de posts por dia, a maioria deles provocadores.

02.12

Só hoje um aluno bondoso do seminário compadeceu-se de minha aflição e me informou o horário da aula: foi ontem. Perdi. Ninguém do COF me respondeu. As aulas acontecem aos sábados, às 21h30. Nossa Senhora, aulas do Olavão todo sábado à noite por três meses. Quem disse que seria fácil arrumar um título um pouquinho mais na moda do que “jornalista”?

Em suas aulas, Olavo de Carvalho costuma atacar com virulência o Foro de São Paulo, organização que reúne partidos de esquerda da América do Sul e do Caribe — Lula (acima, ao centro da foto) e Fidel Castro (acima, à direita) estão entre os alvos preferenciais do filósofo. Foto: Jorge Rey / Getty Images
Em suas aulas, Olavo de Carvalho costuma atacar com virulência o Foro de São Paulo,
organização que reúne partidos de esquerda da América do Sul e do Caribe — Lula (acima, ao
centro da foto) e Fidel Castro (acima, à direita) estão entre os alvos preferenciais do filósofo.
Foto: Jorge Rey / Getty Images
05.12

Finalmente assisti a minha primeira aula, gravada — a 450, que perdi no sábado. O mestre falava num microfone imenso, que a perspectiva fazia parecer maior do que a cabeça dele. Ao fundo, uma grande prateleira cheia de velhas encadernações, decorada aqui e ali por alguns objetos: uma imagem da Virgem Maria acima e ao centro; dois modelos de caravelas, não sei se de Colombo ou Cabral; pequenas imagens de santos e de personagens históricos, como o general Robert Lee, que comandou as Forças Confederadas na Guerra Civil americana.

O general Lee nasceu no estado da Virgínia, nos Estados Unidos, onde ficava a capital dos confederados, que defendiam a preservação da escravidão — e onde Olavo vive desde 2005, quando se cansou de ser governado pelo PT. É de lá que ele transmite aulas, enquanto dá tragadas fundas num cachimbo e beberica de um copinho cheio de licor de laranja, produzido pelas monjas da Abadia de Santa Maria, em São Paulo.

A aula 450 começou com ele pedindo desculpas pelo tema que trataria, aparentemente distante da filosofia. “Mas acho que é importante para entender como os comunistas dominam a cultura brasileira e não deixam passar nada — a não ser de vez em quando, uma migalhinha, como fizeram comigo no jornal O Globo.” Ele se referia a uma coluna que manteve no jornal desde os anos 90 — foi também colaborador fixo aqui desta Época.

“Mas a Globo me botou para fora quando comecei a falar muito do Foro de São Paulo, que eles tentaram esconder por 16 anos e, quando não dava mais, tentaram minimizar.” Segundo Olavo, o tal Foro é uma organização que reúne centenas de grupos de esquerda e é comandada em conjunto pelo PT, pela família Castro e pelas Farc, a guerrilha colombiana que acabou metida com o narcotráfico. O Foro existe mesmo, mas andei conversando com vários jornalistas liberais e conservadores — já que, segundo Olavo, não dá para confiar nos de esquerda — e todos me garantem que é um evento irrelevante, que reúne burocratas de partidos de esquerda de vários países. O Foro não tem nada de secreto: tem website e credencia repórter para entrar.

“Mas não estou reclamando, não”, ele continuou. “Ter sido mandado embora da Globo foi uma das melhores coisas que me aconteceram — foi aí que comecei este curso, e minha vida melhorou muito.”

Parece que melhorou mesmo. Havia quase 1.000 pessoas participando do chat que acompanha o vídeo da aula. Um aluno comentou lá que o número total de alunos está mais para 5 mil — nem todos vão a todas as aulas e nem todos que vão entram no chat. Se são mesmo 5 mil e cada um está pagando R$ 60 por mês, Olavo já faz quase dez vezes mais do que o presidente da República só com essa fonte de renda. Sem falar que seus livros, a julgar pelas vendas, também já lhe renderam um bom punhado de milhões.

O tema da aula se revelou em seguida: Olavo pretendia responder a dois artigos que o atacavam, que saíram na Folha daquela semana: um do sociólogo formado em Oxford Celso Rocha de Barros e o outro do filósofo Ruy Fausto, pesquisador da Universidade de Paris e professor emérito da USP. Segundo Olavo, ambos só disseram bobagens. Mas a aula não gastou muito tempo discutindo os argumentos.

Olavo chamou os dois de analfabetos funcionais.

“O analfabetismo funcional é um obstáculo para o camarada que busca o conhecimento, que quer adquirir cultura. Mas, para o vigarista, ele é uma vantagem. Porque, se o sujeito não entende um texto, ele está livre para inventar o que quiser.”

O artigo de Fausto, que se chama “A única coisa rigorosa em Olavo de Carvalho são os palavrões”, critica o professor, entre outras coisas, por elogiar o regime autoritário de Viktor Orbán, o quase-ditador da Hungria. Olavo se defende: “Só falei do Orbán uma vez, acho que quando proibiu a entrada de imigrantes na Hungria. Ou quando fechou o partido comunista, não sei, não me lembro. Sei que achei aquilo bom, comentei no Facebook. Mas nem sei quem é o Orbán”.

Outra crítica de Fausto foi a algo que ele considera um sofisma, pecado mortal entre filósofos: ele acusa Olavo de inventar ligações inexistentes. Por exemplo, quando liga o PT às Farcs, e daí, por associação, inventa que Haddad está metido em narcotráfico. “Olha aqui, ô moleque, o Lula presidindo a assembleia-geral do Foro de São Paulo ao lado do Manuel Marulanda, fundador das Farc, fui eu que inventei?” Em seguida desviou para um longo discurso sobre o projeto de dominação comunista global do tal Foro — “e você, Ruy Fausto, estava ajudando a esconder isso. Por isso ficou tão bravinho quando eu revelei”.

Quando Olavo mencionou que Fausto tinha sido orientador de Fernando Haddad (“que é uma besta”) na USP, deu para ouvir uma voz vinda de trás da câmera: “Quer dizer que ele queria estar no lugar onde você está em relação ao Bolsonaro?”. “Exatamente!”, Olavo concordou. “É o que o Josias Teófilo comentou. O Ruy Fausto está bravinho porque acha que eu tomei o lugar dele. ‘Eu é que queria ser o guru do presidente’, ele deve estar pensando.”

A aula acabou logo em seguida, e o professor abriu para perguntas. A primeira que chegou pedia dicas ao mestre sobre como se deve combater o marxismo cultural. Com a voz já um pouco pastosa por causa do licor das monjas, Olavo se animou. “É aí que está o erro do pessoal conservador: imaginar que existe uma luta de ideias e que temos de derrotar o marxismo. Temos de derrotar é os marxistas”, ele disse. “Não puxem discussão de ideias. Investigue alguma sacanagem do sujeito e destrua-o. Essa é a norma de Lênin: nós não discutimos para provar que o adversário está errado. Discutimos para destruí-lo socialmente, psicologicamente, economicamente.” A resposta o fez lembrar de novo o emérito Ruy Fausto. “Temos de fazer uma poda no jardim dos prestígios”, ele concluiu, com alguma poesia.

Críticas a Hawking, Darwin e à Folha

Aulas 2 a 4 — "Segundo que, se eu estiver certo e o Stephen Hawking, errado, qual é o problema? Qualquer um pode falar uma besteira"

O professor estimula seus alunos a travar uma guerra que destrua os marxistas
O professor estimula seus alunos a travar uma guerra que destrua os marxistas "socialmente, psicologicamente e economicamente". Foto: Fernando Llano / AP Photo
08.12

Hoje é minha segunda aula, a 451ª do curso. Quando a câmera ligou, notei um barbudinho mexendo no computador atrás de Olavo. Reconheço-o. É Josias Teófilo, jovem cineasta pernambucano que se diz “o único cineasta de direita do Brasil”. No início da carreira, antes de sair do armário político, Teófilo foi elogiado por Kleber Mendonça Filho, o premiado diretor de Aquarius e O som ao redor. Depois de protestar em Cannes contra a derrubada de Dilma, Mendonça Filho virou desafeto da direita e passou a ser perseguido pelo Ministério da Cultura, que tentou arruiná-lo financeiramente.

Teófilo é o diretor de O jardim das aflições , baseado no livro homônimo de Olavo, sobre as ideias do filósofo. O filme, tão polêmico que chegou a inspirar um boicote de cineastas de esquerda ao festival Cine PE, tem uma linda câmera, uma luz etérea e o mesmo Olavo que vejo aos sábados no COF, só um pouco mais contido e poético. Do ponto de vista técnico, é um filme bonito. Agora, se é bom ou ruim, depende da posição política do crítico. Foi Teófilo quem comentou sobre a inveja de Ruy Fausto por querer ser o Olavo de Haddad, na aula passada — pelo visto ele está passando uma temporada na Virgínia.

Uma hora Olavo ligou o microfone e disse: “Alô, por favor, se vocês estão me ouvindo, avisem pelo chat”. Imediatamente um coro de “sim”, “perfeitamente”, “loud and clear”, “sim, mestre”, “sim, professor” irrompeu no chat, em que mais de 800 pessoas papeavam enquanto esperavam. A aula começa a qualquer momento entre as 21h30 e as 22 horas, mas a sala de chat costuma ficar cheia mais de uma hora antes disso.

“Hoje eu quero comentar aqui a ideia do Stephen Hawking de que quatro forças bastariam para explicar a origem do Universo a partir do nada.” Olavo fazia referência a uma frase do físico britânico, no fim da vida, segundo a qual não é mais necessário recorrer a nenhuma crença sobrenatural para explicar a existência de tudo — as quatro forças fundamentais da física (eletromagnética, gravidade e forças nuclear forte e fraca) dão conta da tarefa.

Dessa vez, a crítica de Olavo foi um pouco mais piedosa: “Não precisamos desprezar a obra do pobre Hawking por isso, porque o sujeito era doente. Mas, quando escreveu isso, ele não estava bem”. Olavo discorda de Hawking porque o Universo é tudo, é o Todo. Portanto, como pode ser que quatro forças tenham dado origem a ele? “Se elas puderam criar alguma coisa, é porque elas já existiam.” E, se já existiam, o Universo já existia — quem então o criou?

Lançado em 1995,
Lançado em 1995, "O jardim das aflições" é o livro mais discutido de Olavo de Carvalho, no qual ele refuta as ideias de Epicuro. Foto: Divulgação
Não deixa de ser um argumento engenhoso, mas não sei se Olavo sabia que Hawking, antes de morrer, havia usado exatamente o mesmo pensamento, só que invertido. Ele disse: “O que Deus estava fazendo antes de criar o Universo?”. Afinal, se o Universo é tudo, como é que Deus podia existir antes dele? E, se Deus criou o Universo, quem foi que criou Deus? Enfim, a mesma armadilha lógica que Olavo preparou para Hawking acabou capturando-o.

Em seguida o filósofo atacou a Teoria da Evolução em termos semelhantes: disse acreditar nas leis de seleção natural celebrizadas por Charles Darwin — mas quem foi que as criou? O próprio Darwin, homem religioso, supôs que tenha sido Deus. “A teoria do design inteligente é a única fiel ao que Darwin imaginou”, disse Olavo, fazendo referência a uma teoria com raízes mais religiosas do que científicas (a ideia de que é impossível que haja uma biosfera tão perfeita e complexa sem que houvesse um designer para projetá-la, no caso, Ele).

“Vieram dizer que o Olavo está querendo dar aulas de física para o Stephen Hawking”, ele continuou. “Primeiro que isso não é física, é metafísica”, terreno da filosofia, anterior e hierarquicamente superior às ciências.

“Segundo que, se eu estiver certo e o Stephen Hawking errado, qual é o problema? Qualquer um pode falar uma besteira. Eu já falei, o Albert Einstein já falou.”

Então o assunto mudou subitamente: da física fomos às ideias políticas de Einstein, delas à ingenuidade do socialismo democrático e, daí, como costuma acontecer, para o projeto da esquerda de destruição da civilização. A começar pelo estrago que ela fez nas universidades.

“Não é de espantar que a universidade no Brasil despeje no mercado 50% de analfabetos funcionais, o que prova que são entidades estelionatárias que praticam fraude o tempo todo”. “O número de cientistas políticos, jornalistas — o número de professores eméritos — que espalha seu analfabetismo funcional por aí… Se não cassarmos os registros dessas universidades, vamos destruir o Brasil.”

“A esquerda governou este país durante 50 anos e fez um estrago monumental”, ele prosseguiu, com o olhar bem sério. Pelos meus cálculos, portanto, a esquerda tomou o poder lá por dezembro de 1968, mês marcado também pela decretação do Ato Institucional número 5, que deu sustentação jurídica à perseguição, tortura, censura e execução de esquerdistas pela ditadura.

Mas continuemos, que vai mais longe. “Primeiro veio um estrago na cultura, que observei desde os anos 80” — essa tese é central nos primeiros livros de Olavo, principalmente O imbecil coletivo , que se dedica a demolir, um a um, todos os ícones “progressistas” da arte e da cultura brasileira. “Depois veio o estrago na moral, transformando todo mundo em delinquente, trombadinha, narcotraficante ou, na melhor das hipóteses, viciado.”

Olavo considera que esse processo de imbecilização do Brasil já está concluído. “Nunca algo assim aconteceu na história do mundo”, disse, repetindo um jargão que faz o de Lula — “Nunca antes na história deste país” — parecer humilde. “Imagina se acontece na União Soviética. Se chega à mesa do Leonid Brejnev que as universidades estão aprovando 50% de analfabetos. Ele fuzilaria todos os reitores e professores.” Para Olavo, seria uma atitude exagerada, mas não injusta. “Porque imagina o dano que esses caras causam ao país.”

Hoje a aula foi curta, mal chegou a uma hora. “Eu não vou responder a perguntas porque de manhã fiz conferência para a Cúpula das Américas, depois dei uma entrevista enorme para uma moça de uma universidade americana e agora tenho uma visita ilustre que vai fazer umas perguntas. Então até semana que vem.” E desligou, deixando os alunos eletrizados, especulando se a visita ilustre era a equipe do canal conservador Terça Livre ou algum deputado eleito do PSL.
Em suas aulas, Olavo de Carvalho ataca, sem embaraço,
Em suas aulas, Olavo de Carvalho ataca, sem embaraço, "as besteiras" do físico Stephen Hawking. Foto: Brian Randle / Mirrorpix / Getty Images
12.12

Estou lendo os livros de Olavo. Comecei por A filosofia e seu inverso . Uma das teses é que é impossível ser um intelectual de verdade dentro de uma universidade, dado o conflito de interesses. Os filósofos universitários não têm como se dedicar ao amor pelo conhecimento, porque optam por “buscar antes a segurança de uma identidade profissional”. São “filósofos profissionais”, que representam “o inverso exato da vida filosófica tal como a entendiam Sócrates, Platão e Aristóteles”.

Lendo, me dei conta de que eu, que jamais escrevo uma linha a não ser que seja para pagar um boleto, devo estar no caminho errado. Aprendi que é também muito errado usar o “truque sujo” do “ argumentum ad hominem ”, que é atacar o interlocutor, em vez de discutir suas ideias.

Olavo de Carvalho é um crítico da Teoria da Evolução de Charles Darwin e um defensor do chamado
Olavo de Carvalho é um crítico da Teoria da Evolução de Charles Darwin e um defensor do chamado "design inteligente". Foto: J. Cameron / Bettmann / GettyImages
15.12

Quando entrei na sala de aula virtual, ela estava em polvorosa. O professor ainda não tinha aparecido, mas os alunos já trocavam entre si arquivos PDF da Ilustríssima , o caderno de domingo da Folha de S.Paulo , do dia seguinte, obtidos sabe-se lá como. O tema — do caderno todo — era Olavo de Carvalho.

“Não deixa de ser engraçado o fato de que a Folha, que sempre fingiu que o professor Olavo não existia, agora não consiga ficar um dia sem falar dele”, brincou um aluno. O texto que inflamava meus colegas de aula chamava-se “Assuntos abordados por Olavo de Carvalho em textos do seu site”, e era um trabalho de visualização de dados. Os jornalistas da Folha haviam analisado com robôs todos os textos do site de Olavo — um total de quase 3 milhões de palavras, suficientes para encher quatro Bíblias . Ao final, concluíram que Olavo fala de política mais do que de qualquer outra coisa (35,5% do tempo, em comparação com 13,6% de filosofia).

“Essa matéria da Folha não analisou os livros de discussão filosófica, como a teoria dos quatro discursos?”, um aluno perguntou, fazendo referência ao livro Aristóteles em nova perspectiva , do qual Olavo se orgulha e que considera uma das únicas contribuições originais recentes à obra do grande filósofo grego. Outro respondeu: “Não. Analisaram apenas o Olavo ‘mainstream’”. Supostamente, o que opina sobre política. A discussão é interrompida pela voz do professor, perguntando se estávamos ouvindo. A aula começaria.

Em janeiro, o filósofo jantou na casa de Steve Bannon, ex-estrategista de campanha de Trump, em Washington. Foto: Reprodução
Em janeiro, o filósofo jantou na casa de Steve Bannon, ex-estrategista de campanha de Trump, em Washington. Foto: Reprodução
“Hoje eu me vejo mais uma vez obrigado a comentar os assuntos da semana, mas isso vai me dar a oportunidade de relembrar a estrutura inteira de minha obra escrita e gravada”, ele disse. Mais uma vez, a aula seria dedicada a atacar a imprensa e a academia. “A Folha mandou cinco pessoas para comentar minha obra — e as cinco repetem os mesmos chavões.”

Depois de atacar o psicanalista e professor da USP Christian Dunker — que Olavo chama de Donkey (burro, em inglês) — e gabar-se de vender mais livros, o professor mirou sua fúria na reportagem de dados da Folha .

Reclamou que os repórteres não se dignaram a ler seus textos (“botaram algoritmo para fazer isso”) e questionou os números. “Quatro Bíblias uma pinoia, minha filha, aqui você tem umas 15. Esses caras não sabem fazer uma pesquisa de arquivo, não sabem colher o material, meu Deus do céu.”

O argumento é que eles pesquisaram apenas o site olavodecarvalho.org, deixando de fora as apostilas do COF, as transcrições das aulas e todos os livros do filósofo. Segundo ele, sua obra tem pelo menos 14 mil páginas, e seria obrigação da reportagem da Folha conhecer todas antes de fazer afirmações generalizantes.

Olavo mostrou incômodo também com o título de “ideólogo”, que tem sido atribuído a ele. “Não há ideólogo sem partido: ideólogo é um elemento da disciplina interna. Eu não tenho partido nenhum — não conheço ninguém no PSL.

“Recusei-me a escrever um prefácio para a biografia do Bolsonaro. Votei nele, mas não participei da campanha. Votei nele porque é um homem bom. Ponto”, afirmou. “Então era isso que eu queria dizer. Hoje não tem pergunta, boa noite, até semana que vem.”

22.12

Hoje Olavo começou falando de filosofia: citou o russo Vladimir Soloviev (1853-1900) e sua obra Crise da filosofia ocidental , cujo subtítulo é Contra os positivistas . O positivismo foi um movimento tremendamente influente no século XIX, propondo a adoção do método científico inclusive pelas ciências humanas. Soloviev discordava: ele defendia uma filosofia mais intuitiva e subjetiva.

Aprendi hoje que Olavo pensa o mesmo. Ele acredita que o filósofo tem características em comum com os artistas e com os místicos: seu papel é expressar sua subjetividade na maneira como percebe o mundo. Nesse sentido, ele é muito diferente de um cientista. A discussão serve de desvio para Olavo novamente colocar em dúvida a Teoria Evolucionista que prescinde da existência de Deus: “Eu não vejo como a macroevolução possa levar ao surgimento de uma nova espécie. Isso eu não entendi até hoje”.

Da evolução ele saltou à física quântica. Depois de mais uma vez dizer que “nunca entendeu” a natureza probabilística da física quântica e sua aparente aleatoriedade, lembrou que Epicuro já havia previsto tudo aquilo mais de 2 mil anos atrás e que a física só adquire sentido com a filosofia, de novo sugerindo uma hierarquia entre os saberes.

Hoje ele respondeu a perguntas, mas alguns alunos comentaram, preocupados, que “o professor estava com cara de cansado”. Talvez fosse bebedeira também — ele abusou do licor. Despediu-se com um Feliz Natal.

27.12

Chegou o boleto por e-mail, pontualmente. Tlim. Mais R$ 60 para o professor.

A diferença entre filosofia do objeto e filosofia do sujeito

Aulas 5 e 6 — "Os seguidores de Marx de mais alto QI resolveram: 'Já mentimos tanto que o único jeito agora é negar a verdade'"

Nascido em Campinas, São Paulo, Olavo de Carvalho integrou o Partido Comunista Brasileiro (PCB) entre 1966 e 1968. Foto: Reprodução
Nascido em Campinas, São Paulo, Olavo de Carvalho integrou o Partido Comunista Brasileiro (PCB) entre 1966 e 1968. Foto: Reprodução
29.12

Entro na sala de aula e descubro que hoje não tem, por causa do Ano-Novo.

Mas o professor não tirou férias do Facebook: está postando alucinadamente.

De manhã avisa que “cada cubano, venezuelano, norte-coreano ou angolano assassinado pela polícia política não foi vítima de seu governo apenas, mas do comunopetismo brasileiro que deu respaldo ao assassino.” E eu nem sabia que o Lula estava sustentando o Kim Jong-un.

De tarde, conclamou: “Já cagou em cima de seu intelectual de esquerda hoje? O Brasil espera que cada um cumpra seu dever”.

Depois: “Sempre que um brasileiro não entende o que eu digo, ele acha que o burro sou eu”.

31.12

“Começamos este curso invocando a Santíssima Virgem Maria.” Foi com essa frase que o COF teve início, dez anos atrás, conforme descobri hoje. É que, na falta de aula nova, fui fuçar pelos arquivos, a começar pela longínqua aula número 1, de 2009.

Percebi que muita coisa mudou de lá para cá, a começar pela atitude abertamente religiosa, que foi substituída por um discurso de verniz mais racional. Outra mudança é em relação às normas de comportamento durante a aula. “Esqueçam o chat, você está proibido de conversar durante a aula, isso daí é básico”, disse o professor. Hoje o chat bomba durante a aula toda, geralmente com palavras de apoio e louvores ao mestre. A estética também melhorou bastante, talvez com a ajuda do olhar cinematográfico de Josias Teófilo.

Houve também atualizações tecnológicas. “Aqueles que estão inscritos no curso receberão dois números de telefone, um de São Paulo, outro de Curitiba, que tocarão aqui, de modo que poderão fazer perguntas ao final de cada aula.” Logo o privilégio de fazer perguntas por telefone foi substituído pelo envio por chat, embora a maioria das aulas às quais assisti não tenha tido espaço para pergunta alguma.

Olavo explicou que o objetivo do curso não era só fabricar filósofos. “Isto aqui deve servir como oportunidade de formar amizades verdadeiras, que, como ensinou São Tomás de Aquino, são definidas por afinidades de objetivos e de valores. Ou seja, amar as mesmas coisas e odiar as mesmas coisas.” Aí olhou sério para a câmera e disse:

“Tenham consciência de uma coisa: se houver uma cultura superior no Brasil daqui a 20 ou 30 anos, será devido a vocês e apenas a vocês”. Aí ele fez uma pausa e continuou: “Porque eu sou o único educador do Brasil. Os outros são picaretas, cabos eleitorais, não há mais nenhum outro educador”.

O plano, na época, era que o curso durasse algo entre quatro e cinco anos, e todo mundo que estava lá (ele diz que eram 300 e tantas pessoas) assumia o compromisso de participar até o final. Ou seja, era para ter terminado uns seis anos atrás e não havia o papo de espiral ou de filosofia circular — era para ser linear mesmo.

Da esquerda para a direita, Damares Alves, Filipe Martins, Ernesto Araújo e Ricardo Vélez Rodríguez, o núcleo conservador do governo Bolsonaro. Foto: Reprodução
Da esquerda para a direita, Damares Alves, Filipe Martins, Ernesto Araújo e Ricardo Vélez Rodríguez, o núcleo conservador do governo Bolsonaro.
Foto: Reprodução
04.01.19

Hoje, no Facebook, entre dezenas de outras coisas, o filósofo postou: “A mídia é a maior inimiga do Brasil”.

05.01

A aula 454 foi mais uma dedicada a bater num professor da USP que publicou na Folha . Desta vez o alvo foi Vladimir Safatle (ou Safado, segundo o apelido olaviano), autor do artigo “Nós, o entulho marxista”, uma resposta à promessa do novo ministro da Educação, indicado por Olavo, de varrer tal lixo.

A argumentação foi a de sempre: comunistas oprimem todos os outros na universidade, é impossível discutir seriamente com eles. Ao longo de pouco mais de meia hora, Olavo chamou Safatle de psicótico, esquizofrênico, propagandista chinfrim de um partido criminoso, psicopata, louco, lesado, degradado mental, incapaz, presunçoso, adestrador de militantes, infantil, inepto, burro, charlatão, vigarista, desqualificado e fracote. “Esse cara tem de ser demitido, proibido de lecionar, proibido de escrever na mídia, no máximo ele pode conversar dentro de casa com o seu cachorro, se conseguir chegar ao QI dele.” Depois lamentou porque o regime militar protegeu a esquerda no Brasil, dando dinheiro para professores, artistas, cineastas.

Quando abriu para perguntas, um aluno quis saber se dá mesmo para varrer o socialismo da Terra. Olavo respondeu que não só o socialismo, mas a política. Ele reclamou que nosso mundo não valoriza as outras atividades, como a arte, a religião, a filosofia: “Todos partem do princípio de que todos nós só queremos poder político”.

Olavo se incomoda com essa primazia. “Eu dei aula por 20 anos, cheguei a ter mais de 20 mil alunos, criei uma geração de intelectuais de poder formidável, mais competentes do que tudo que havia antes. Aí agora vêm dizer que tenho poder porque indiquei dois ministros?” Isso o deixa indignado: “Indicar dois ministros é mais importante do que criar toda uma geração de intelectuais e mudar o curso da história da cultura deste país?”.

O guru de Richmond já disse em seus escritos não ter certeza sobre o heliocentrismo, teoria que coloca o Sol no centro do Sistema Solar. Foto: www.bridgemanimages.com
O guru de Richmond já disse em seus escritos não ter certeza sobre o heliocentrismo, teoria que coloca o Sol no centro do Sistema Solar.
Foto: www.bridgemanimages.com
07.01

O filósofo postou no Facebook: “Menino pode vestir rosa ou a cor que bem deseje, mas, definitivamente, não brinca de chazinho de boneca”. Continuou no tema em seguida: “Brincar de casinha é unissex: meninos brincam de construir casinhas e meninas brincam de morar nelas”. Meu professor indicou os ministros da Educação e das Relações Exteriores, mas parece estar animado mesmo é com a dos Direitos Humanos, Damares Alves.

08.01

No Face: “Escrevi que não dou opiniões sobre a questão da Terra plana porque não a estudei, e milhares de idiotas universitários (perdoem o pleonasmo) concluíram que sou adepto da Terra plana”.

Num post de 2017, ele havia dito que “há algumas questões para as quais todo mundo tem uma resposta definitiva, certa, irrefutável, e só eu não tenho nenhuma:

Evolucionismo X espécies fixas

Heliocentrismo X geocentrismo

Terra esférica X Terra plana

Einstein X Tesla”

Olavo realmente nunca disse (até onde consegui encontrar) apoiar a ideia de que Deus criou todas as espécies do mundo, tais e quais existem hoje, nem a de que a Terra está no centro do Universo, sendo rodeada pelo Sol e por todos os outros astros, nem a de que o planeta tenha o formato de uma panqueca (a última das quatro polêmicas parece ser referência às críticas do gênio Nikola Tesla, contemporâneo de Einstein, à teoria da relatividade).

O fato é que não há nenhuma possibilidade de as segundas metades de seus pares serem verdadeiras. As espécies evidentemente não são fixas: temos fósseis de dinossauros para provar, além de cientistas já terem presenciado ao vivo a evolução de seres unicelulares debaixo de seus microscópios. A Terra com toda a certeza não é plana nem está no centro do Universo, se fosse ou estivesse nenhum cálculo usado por agências espaciais para mandar naves e satélites para fora da atmosfera teria funcionado. E a relatividade, se realmente era controversa no tempo de Tesla, igualmente é fato consumado, confirmado seguidamente por observações astronômicas.

Admitir dúvida sobre qualquer um dos quatro pontos pode até ser uma atitude humilde, mas com certeza ignora fatos comprovados séculos atrás. Faz sentido para uma filosofia mais baseada na subjetividade do que em fatos: realmente, evolução, heliocentrismo, Terra esférica e relatividade contrariam nossos instintos.

Na briga entre Nikola Tesla (foto) e Albert Einstein sobre a teoria da relatividade, o filósofo disse não tomar posição. Foto: Ullstein Bild / Ullstein Bild via Getty Images
Na briga entre Nikola Tesla (foto) e Albert Einstein sobre a teoria da relatividade, o filósofo disse não tomar posição.
Foto: Ullstein Bild / Ullstein Bild via Getty Images
12.01

“Então tá. Boa noite a todos, sejam bem-vindos”, disse o professor, dando início à aula 455. Havia 895 pessoas no chat, e o número continuava crescendo à medida que retardatários chegavam. Alunos mais antigos comentavam os números admirados, lembrando o tempo em que raramente apareciam mais de 300 pessoas no chat.

“Hoje eu quero repassar um dos primeiros temas que tratamos: a diferença entre filosofia do objeto e filosofia do sujeito.” E se pôs a falar dos sofistas, adversários de Sócrates, seu ídolo. Segundo Olavo, eles mais queriam convencer os outros do que compreender as coisas.

Nessa hora um aluno celebrou no chat: “Filosofia, porra!”. Pelo jeito ele estava cansado das seguidas aulas sobre política e mídia, que descambavam para ataques pessoais. E a aula efetivamente enveredou por uma história da filosofia: Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Newton, Hume, Kant (que ele vê com antipatia, porque atribui a ele a ideia de que não existe mais “a verdade”). Quando chegou a Nietzsche, sobravam 577 no chat — pelo visto há muito aluno preferindo polêmicas a filósofos. Mas os que ficaram não se decepcionariam. Porque o filósofo seguinte foi Karl Marx.

“O marxismo se pretende um sistema completo — totalmente científico —, mas foram surgindo tantos problemas, e o movimento comunista foi fazendo tanta besteira, que seus seguidores de mais alto QI resolveram: ‘Já mentimos tanto que o único jeito agora é negar a verdade, não existe mais verdade’”, ele disse, afirmando que essa ideia teve influência imensa no mundo universitário. “É uma filosofia que nega a existência de qualquer verdade, ao mesmo tempo liberando para escolher a verdade na qual eles acreditam, eliminando a possibilidade de qualquer discussão racional. Estamos em pleno hospício.”

Daí para a frente a aula desviou para a costumeira denúncia da esquerda. Olavo disse que o marxismo é caracterizado pela escolha de um inimigo comum por quem sentir ódio, o que cria uma unidade que o movimento não tinha antes. E também perdoa qualquer pecado do grupo, porque parte da premissa de que todos lá são santos, enquanto os demônios estão todos do outro lado. É interessante o raciocínio, mas me parece que ele não se aplica só aos marxistas.

A aula terminou subitamente, com menos de 45 minutos. “Então é isso aí. Hoje eu não vou responder perguntas porque eu tenho umas visitas aqui e quero conversar com elas. Tchau.” Segundo o jornal digital conservador O Antagonista, quem está na Virgínia é Eduardo Bolsonaro, acompanhado de um séquito de deputados do PSL.

PSL na China e Bannon na casa de Olavo

Aula 7 — "No momento em que ele [o filósofo] encontra uma verdade, ele tem que incorporá-la em sua vida"

Olavo criticou duramente a comitiva de deputados e senadores do PSL que visitou a China. Em vídeo, disse aos parlamentares que eles estavam
Olavo criticou duramente a comitiva de deputados e senadores do PSL que visitou a China. Em vídeo, disse aos parlamentares que eles estavam "entregando o Brasil ao governo chinês".
Foto: Montagem sobre reprodução
15.01

Uma das afirmações de Olavo mais ridicularizadas pelos detratores foi que “a Pepsi Cola está usando células de fetos abortados como adoçante nos refrigerantes”, proferida durante uma aula do COF. A frase é absurda, mas tinha raízes numa história real: uma empresa de pesquisa usou uma célula de um único feto já abortado nos anos 70 para fazer uma cultura de células usada como parte de uma pesquisa científica sobre como estimular papilas gustativas. A patente dessa pesquisa foi adquirida pela Pepsi (mas até onde se sabe nunca foi usada) para o desenvolvimento de novos adoçantes. O desmentido fez barulho graças a um youtuber divulgador da ciência chamado Pirula.

Hoje Olavo voltou ao tema no Facebook, como se estivesse certo na primeira vez: “Até hoje isto não me sai da cabeça. Quando denunciei o uso de fetos humanos na fabricação de adoçantes, o dr. Pirrola argumentou que no produto final não restavam resíduos dos fetos. Ninguém percebeu a monstruosidade criminosa desse argumento, que legitimava o uso industrial de fetos humanos contanto que nada restasse deles no produto final. Dar formação científica a analfabetos funcionais acaba por transformá-los em monstros”. Não houve uso industrial de fetos nem uso de suas células nos refrigerantes. Acho curioso que, mesmo depois do desmentido, Olavo pareça não entender os fatos — como se não tivesse sequer prestado atenção a eles.

16.01

Hoje, em caráter extraordinário, o professor sentou-se diante de sua estante de livros e gravou um vídeo, depois compartilhado com o nome “Urgente e gravíssimo”. “Tem gente que diz que eu sou o guru do governo Bolsonaro. Se eu fosse, certas coisas não estariam acontecendo”, disse ele. Era uma referência à comitiva de deputados e senadores eleitos pelo PSL convidada pela China para uma visita, segundo Olavo, para discutir a compra de um sistema de reconhecimento facial da empresa Huawei, suspeita de deixar brechas em seus produtos para a espionagem do governo chinês.

“Vocês estão fazendo uma loucura. Vocês estão entregando o Brasil ao governo chinês”, disse Olavo, antes de acusá-los de analfabetismo funcional. Entre os parlamentares atacados estava Carla Zambelli, por quem Olavo havia demonstrado simpatia nas redes sociais. “Vocês são um bando de caipiras, inclusive você, Carla Zambelli. Já te ajudei muito, já te apoiei muito, se você não sair desse negócio eu não falo mais com você”, ameaçou o professor, magoado.

Em seguida mudou de destinatário:

“Cadê o Executivo? O Executivo vai deixar isso acontecer, vão deixar esses caras irem para lá?”. Depois de reclamar também da possibilidade da vinda da CNN para o Brasil (“e o governo permite isso aí”), desabafou: “E eu sou o guru dessa porcaria? Eu não sou guru de merda nenhuma”.

17.01

Virou barraco. Zambelli, que também é estrela do YouTube (é criadora do movimento Nas Ruas, que comandou protestos contra Dilma), respondeu por vídeo. “Eu sou mais brasileira do que muita gente aí. Aliás, eu vivo no Brasil, diferente de pessoas que estão nos criticando.”

Olavo replicou pelo Facebook: “A resposta da Carla Zambelli não diz NADA sobre o risco nacional que assinalei. Só fala dela própria, que não é assunto do meu interesse”. Depois passou o resto do dia postando sobre espionagem chinesa, os podres da Huawei, a ingenuidade do PSL e assassinatos de cristãos na China.

A seus alunos, o filósofo afirmou que há
A seus alunos, o filósofo afirmou que há "sérias suspeitas" de que Jean Willys possa ter sido um dos mandantes do atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro.
Foto: Patricia de Melo Moreira / AFP
18.01

“Visita ilustre”, postou meu professor. E, embaixo, uma foto tirada da mesma mesa onde ocorrem as aulas do COF, com ele sentado. De pé, ao lado dele, estava Steve Bannon, estrategista que ajudou a eleger Trump e agora articula um movimento conservador antiliberal global. A foto, batida por Josias Teófilo, recebeu mais de 5 mil likes e foi compartilhada mais de 500 vezes. “A putada globalista treme”, disse um fã. “Que comecem as teorias da conspiração”, sugeriu outro. Dias depois, Bannon declarou a um site conservador que “Olavo de Carvalho é um dos maiores intelectuais vivos em todo o mundo”.

Enquanto isso, na China, os parlamentares do PSL estavam se sentindo “cansados, traumatizados e, sobretudo, massacrados por fogo amigo”, segundo uma matéria que sairia na Folha de S.Paulo . Embora negassem que a visita tivesse o objetivo de adquirir os equipamentos de vigilância da Huawei, eles viraram alvo de um ataque maciço pelas redes sociais, incitado por Olavo. Sem se identificar, talvez para não atrair mais ataques ainda, um deles disse que não dormia havia 48 horas. A reportagem da Folha presenciou um bate-boca entre eles numa churrascaria e descreveu-os como “desorientados”.

19.01

A ida dos parlamentares à China dominava o chat antes de a aula começar. “Chamar a bancada do PSL de comunista é até uma ofensa aos comunistas”, disse um aluno mais exaltado. “Eles inventaram a ‘direita maoista’”, retrucou outro. Um terceiro opinou: “Não creio que esses deputados do PSL sejam comunistas infiltrados. São é idiotas mesmo”. O clima reinante continuava sendo de apoio a Bolsonaro, mas claramente o olavismo havia rachado com seu partido.

“Boa noite a vocês. Ontem nós estávamos na casa do Steve Bannon em Washington e ele me pediu um breve resumo da minha filosofia.” Assim começou a aula 456 do COF. Quer dizer então que houve visitas mútuas — a foto que se espalhou no Facebook foi tirada na casa de Olavo, que fica num subúrbio de Richmond, a quase 200 quilômetros da capital americana.

Olavo foi pego de surpresa pelo pedido do ex-dono de site de boatos (o Breitbart, uma publicação ultrapartidária que publica muitas das teorias da conspiração que Olavo divulga) que acabou virando estrategista-chefe do início do governo Trump. O filósofo não estava acostumado a sintetizar tanto o que pensa — “Faz mais de 450 aulas que estou contando no COF o que é minha filosofia”. Mas ele se virou. Começou com uma frase que repete muito e que ele considera sua definição de filosofia: “ (A busca da) unidade do conhecimento na unidade da consciência, e vice-versa”. A frase sintetiza a ideia de que a filosofia é uma atividade interna: é a própria consciência buscando compreender o mundo. Mas, ao mesmo tempo, parte-se do conhecimento do mundo para decifrar o que a consciência sente — a filosofia não existe em isolamento do que acontece ao redor.

Uma consequência desse jeito de enxergar a filosofia é que ele cria certas obrigações ao filósofo. “No momento em que ele encontra uma verdade, ele tem de incorporá-la em sua vida.” Olavo deu um exemplo disso: “Eu não tenho o direito de confundir a unidade do conhecimento que existe na minha consciência com a unidade total do conhecimento”. Por isso, não faz sentido que ele busque criar uma concepção do Universo que seja universalmente válida: “O conhecimento de minha consciência só vale para mim, e para quem decidir me seguir”. Bonito e democrático. Mas não consigo entender por que o mesmo princípio não vale para seus adversários. Olavo diz ter certeza das intenções maldosas por trás dos atos de basicamente todo mundo de quem ele discorda. Mas não pode ser que essa gente tenha só uma leitura diferente do conhecimento, a partir de suas próprias consciências? Sei lá, filosofei.

Depois ele resolveu voltar no tempo. “Quando eu era moleque, tinha a impressão de que todo mundo estava entendendo tudo e só eu estava perdido.” Esse desconforto foi formador para sua identidade. “É isso que eu passei a querer ser: o sujeito que está entendendo as coisas”. Para Olavo, o instinto natural é ver sentido em tudo que ele encontra. Minha sensação é que esse traço é um tanto exacerbado em sua personalidade. Ele vê uma notinha suspeita num site obscuro, dizendo por exemplo que a Pepsi tritura fetos abortados e coloca no refrigerante, e logo acredita ter enxergado um grande quadro conspiratório, no qual todas as peças se encaixam. Nem lhe ocorre que talvez aquilo que ele leu seja simplesmente mentira.

Dessas reminiscências da infância, Olavo passou a tratar do que acontece com quem não busca o conhecimento, daí pulou para o analfabetismo funcional e logo estava batendo nos parlamentares do PSL. “Não digo que eles sejam bandidos, desonestos, comunistas, fascistas. São apenas semianalfabetos — eles até sabem ler, mas não tiram consequências do que leem.” O professor mostrou um livro sobre as estratégias chinesas de dominação global. “Alguém leu isso no Brasil? Alguns desses senhores que foram à China — desses que estão ganhando dinheiro da China? O Alexandre Frota leu?” As perguntas eram retóricas.

Olavo, o rifle e o urso

Aulas 8 a 10 — "Marxismo é historiogênese, porque tentou reescrever a história toda a partir da luta de classes"

Para Olavo de Carvalho, a esquerda aprendeu as lições do filósofo italiano Antonio Gramsci e conseguiu impor sua hegemonia cultural nas últimas décadas, com a conivência dos militares. Foto: Fototeca Gilardi / Getty Images
Para Olavo de Carvalho, a esquerda aprendeu as lições do filósofo italiano Antonio Gramsci e conseguiu impor sua hegemonia cultural nas últimas décadas, com a conivência dos militares. Foto: Fototeca Gilardi / Getty Images
21.01

Hoje Olavo compartilhou um post de seu aluno Flavio Morgenstein, um podcaster estridente, cujo título era “Nós votamos no PSL para não deixar o PT nos vender pra China como alguns deputados do próprio PSL tentaram”. Morgenstein é um dos alunos que Olavo costuma elogiar em público. Em 2016, o mestre postou: “Os meus alunos que têm alguma atuação pública, ainda que modesta, já são INFINITAMENTE MELHORES do que a intelectualidade esquerdista inteira e do que qualquer porta-voz da ‘direita’ na mídia. ELES, e mais ninguém, são a elite intelectual brasileira”. Em seguida listou alguns dos preferidos, Morgenstein entre eles. Também constavam no elogio Filipe Martins e Bruna Luiza — ambos hoje assessores especiais do governo federal, em Brasília, ele de Bolsonaro para Assuntos Internacionais, ela do Ministério da Educação para coordenar a área de formação de professores. Outro aluno de Olavo com cargo importante na Educação é Murilo Resende, coordenador do Enem.

26.01

A expressão do professor era grave hoje, quando começou a aula número 457. Na verdade, nem seria propriamente uma aula. “Esta semana, o senhor Jean Wyllys disse que recebeu ameaças e insultos e que está se sentindo intimidado, e por isso vai embora do país”, começou.

“Acontece que eu estou sofrendo ameaças e insultos desde muito antes: desde os tempos do Orkut”, onde, segundo ele, havia 5 mil pessoas escrevendo “contra mim, diariamente”. Segundo Olavo, só “o material do Orkut” dá no mínimo 100 mil páginas. “Como o Orkut não existe mais, o pessoal pode negar que existe isso e dizer que eu é que estou com paranoia, mas não.”

Aí ele olhou profundamente para a câmera e lamentou:

“Não existiu nem ao menos um aluno que tivesse a amabilidade de coletar esse material para mim. Alguém poderia ter dedicado algumas horas por dia para fazer isso. Eu pedi, implorei centenas de vezes, mas não apareceu ninguém”. Ele olhava para a câmera como se tivesse sido traído na hora em que mais precisava.

“Foi a maior campanha de assassinato de reputação voltada para um cidadão privado ao longo de toda a história humana”, disse, com olhos tristes. “A Polícia Federal se interessou? Não!” Mas, até onde consegui checar, jamais houve uma queixa de crime — e o discurso de Olavo tampouco esclarecia qual exatamente teria sido o crime. Ameaçar alguém de morte é crime, claro. Criticar, não.

O professor então continuou: “Esta semana, o general Mourão, vice-presidente da República, disse que ‘uma ameaça a um deputado é um perigo para a democracia’. E ameaçar um sujeito que se tornou um símbolo para o movimento que elegeu o presidente da República? Não é um perigo para a democracia?”. A irritação, revelou-se aí, era com Mourão. E, de maneira mais geral, com os generais. Depois de romper com o PSL, o olavismo estava prestes a declarar guerra contra a ala militar do governo.

Olavo disse que, durante a ditadura, várias vezes avisou aos militares que eles deviam impedir que a mídia dissesse mentiras sobre eles. “A primeira área social em que houve a ocupação de espaços pelos comunistas a partir da estratégia gramsciana foi a da mídia.” Era uma referência ao filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937), político do Partido Comunista que passou boa parte da vida na cadeia e lá escreveu muito sobre um conceito que fascina Olavo: a hegemonia cultural. Trata-se da ideia de que, para conquistar o poder político, é preciso antes tomar o poder cultural, nas redações, na arte, nas universidades. Gramsci está no centro do primeiro livro de Olavo, A nova era e a revolução cultural , de 1994, e certamente influencia demais, se não a filosofia olaviana, ao menos sua estratégia de ação.

“Mesmo assim, os militares não fizeram nada”, ele lamentou. Aí deu uma pausa dramática e disse lentamente: “Eu acuso as Forças Armadas de terem aberto o caminho para a conquista do poder pelos comunistas. Estou acusando formalmente”. Não estava. Na verdade, estava gravando um vídeo da sala de casa, mas as palavras soaram fortes. “Agora entregaram o capitão para ser boi de piranha, enquanto os generais estão todos por trás, bonitões. Nenhum general está sendo atacado. Só o Bolsonaro, a família dele, a mulher dele, e o Olavo.”

“Então aparece um deles, o general Heleno, e diz para os jornalistas: ‘Estou muito honrado de estar com vocês’. Você não tem vergonha, Heleno, de se rebaixar assim? Você não tem vergonha, Mourão, de puxar o saco do senhor Jean Wyllys e nada fazer em minha defesa?”

Olavo não deixou claro o que queria que fosse feito em sua defesa (ele já não mora no Brasil e não mostrou ameaça alguma).

“A PF não se interessa, só se interessa pelas ameaças contra Jean Wyllys, embora haja sérias suspeitas de que ele pode ter sido um dos mandantes do atentado contra a vida do então candidato Jair Bolsonaro.” Essa é nova para mim, mas circularia bastante nos grupos ligados a Olavo na semana seguinte.

Olavo depois contou por que querem acabar com ele: “Sem destruir a figura do Olavo, não seria possível atacar o Bolsonaro — primeiro ataca a base cultural, depois o poder constituído. E quem é a base cultural? Bom, parece que sou eu”, disse, modestamente.

Foi uma transmissão curta, de apenas 16 minutos. Antes de terminar, Olavo deixou no ar uma ameaça. “Olha, estou a ponto de desistir de falar de política. E, se desistir, vou desistir de tudo. Porque, se eu me desvio do tema existencial real, minha filosofia será puro ornamento.” E desligou. No chat, a conversa seguiu entre mais de 400 alunos. Muitos avaliaram que era preciso fazer alguma coisa. Alguns começaram a criar grupos nas redes sociais para se articular e planejar a ação. Entrei em três: no Facebook, no WhatsApp e no Telegram.

Para Olavo, os generais Hamilton Mourão (à direita) e Augusto Heleno (à esquerda) nada fazem para defender o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Para Olavo, os generais Hamilton Mourão (à direita) e Augusto Heleno (à esquerda) nada fazem para defender o presidente Jair Bolsonaro.
Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
27.01

Tlim. Chegou o boleto por e-mail e renovei. Mais R$ 60.

Nas redes sociais, centenas de pessoas se mobilizaram e começaram a postar em defesa de Olavo, em resposta a seu apelo.

01.02

Tenho uma viagem marcada para os Estados Unidos na semana que vem. Vou tentar visitar o professor para conversar com ele sobre filosofia. Depois de perguntar para muita gente, descobri o número de celular da mulher dele, Roxane. Mandei um WhatsApp, será que dou sorte?

02.02

Como não recebia resposta à mensagem, telefonei para a Virgínia. Falei com uma filha de Olavo, Leila, e depois com Roxane. As duas foram simpáticas e disseram que me ajudariam. Antes de desligar, resolvi contar a história toda: não é só que eu era aluno e queria conversar com o mestre. Tem também que essa história toda vai virar uma matéria para a revista Época.

03.02

Deu no Facebook de Olavo: “Ontem ligou um daqueles meninos da É-Porca pedindo entrevista. Doravante, entrevista para esse tipo de revistinha de merda só concedo se for mediante pagamento e com direito de veto a qualquer parte do texto antes da publicação”. E, logo depois: “Desde quando, para divulgar minhas ideias, preciso de revistas e jornais que alcançam um público bem menor que o meu? Que esses garotos vão entrevistar suas mães”. Como sou bom em ver o lado positivo das coisas, fiquei grato pela qualificação de “garoto”. Mandei um WhatsApp, insistindo.

04.02

Perguntado sobre se já leu os livros de Olavo, o general Mourão deu uma risada de deboche. Olavo respondeu aos gritos no Facebook: “SÓ UM CHARLATÃO DESPREZÍVEL DEBOCHA DE LIVROS QUE NÃO LEU. É VOCÊ, MOURÃO”. Passou o dia irritado com isso. “Sorrisinho de deboche é argumento de puta”, postou mais tarde.

05.02

Hoje viajei para Nova York com alguns colegas. Fomos papeando desde o aeroporto. De repente me dei conta de que estou tão mergulhado no mundo de Olavo que não estou conseguindo pensar em outra coisa. Notícias ligadas a ele estão chegando a mim a cada 10 ou 15 minutos, todo dia, por Facebook, WhatsApp ou pelo Seminário de Filosofia, a ponto de preencher meu tempo todo. Ele vem postando mais de 60 vezes ao dia, um volume tão imenso que monopoliza minha atenção. A cada silêncio na conversa com meus amigos, os únicos temas de conversa que me ocorriam eram o Foro de São Paulo, o general Mourão e as intrigas entre filósofos. A noção do que é realidade foi se tornando meio fluida para mim. Tive um calafrio quando vi um sujeito beber uma Pepsi diet no avião.

06.02

Chegando aos Estados Unidos, vi que o filósofo postou no Facebook: “Se você, repórter da grande mérdia, quer me entrevistar, não me apareça aqui sem uma declaração assinada pelo diretor de redação autorizando-o a examinar sua matéria antes de publicada e vetar qualquer palavra que me pareça inadequada. Se vier sem isso, não passará da porta”.

O mesmo recado chegou a mim por WhatsApp, enviado pela Roxane. Mandei uma mensagem tentando explicar que esses termos jamais seriam aceitos e insistindo que ele me recebesse para um café, com total liberdade para definir quais temas poderiam ser tratados. Disse também que vários de seus críticos vinham conversando comigo, enquanto que seus apoiadores não me respondiam. “Vocês estão praticamente me forçando a fazer uma matéria crítica”, argumentei.

Depois Olavo compartilhou um tuíte do filho do presidente, Carlos Bolsonaro, que pareceu uma declaração de apoio em meio às brigas com o PSL e com os generais:

“Acreditar que @OdeCarvalho não é o principal inspirador de toda a transformação cultural que este país atravessa é puramente resultado do gramscismo aplicado em todos os cantos”.

Antes de dormir, dei mais uma espiadinha no Facebook. Olavo havia postado que “um tal de Dênis, repórter da É-Porca, quer me forçar a lhe dar uma entrevista, ameaçando escrever algo contra mim se não o receber. Chantagem porca: por duas vezes os repórteres dessa revista que recebi na minha casa cometeram crimes contra mim”. Meu diálogo com Roxane foi parar na linha do tempo do professor.

O guru de Richmond se diz acossado
O guru de Richmond se diz acossado "por uma rede internacional de caluniadores e difamadores".
Foto: Vivi Zanatta / Folhapress
07.02

Continuei assunto do Facebook do filósofo. “Chega a ser comovente a ingenuidade fingida com que o tal Dênis faz de conta que, após ter sido criminosamente difamado pela É-Porca DUAS VEZES, tenho a obrigação moral de receber de braços abertos o terceiro repórter dessa porcaria que se apresenta pedindo entrevista. A coisa é de uma INSENSIBILIDADE PSICÓTICA”, ele postou. Os dois posts sobre mim somaram quase 4 mil curtidas, com um predomínio de carinhas de ódio. Houve também muitos comentários. Um atacava o “tom de bom moço cordial e de boas intenções que apresentam no começo para dar a facada no fechamento da matéria depois”, outro destacava minha “ingenuidade fingida”. Vários seguidores faziam coro para que o filósofo me processasse.

Os posts foram parar no grupo do WhatsApp em defesa de Olavo e o administrador me expulsou sumariamente.

08.02

Consegui descobrir, num desses sites que vendem dados cadastrais, o endereço de Olavo na Virgínia, e vi que o voo para lá custa menos do que US$ 200. Será que, se eu bater na porta sorridente e tentar me explicar pessoalmente, dou mais sorte do que por WhatsApp? Será que alguém vende licor de laranja das monjas de São Paulo aqui em Nova York?

09.02

Lembrei do rifle que Olavo comprou, com o qual matou um urso no ano passado (para o habitual escândalo da internet), e desisti da viagem. Em vez disso, sentei-me no banco de trás de um táxi amarelo, em Manhattan, coloquei meus fones de ouvido e conectei pelo celular no Seminário de Filosofia. Hoje é dia da aula 459 do COF.

Olavo começou anunciando que falaria de um conceito de sua filosofia: a historiogênese, que é um cacoete de certas escolas filosóficas de considerar a si próprias como a culminação de toda a história humana. Logo percebi, no entanto, que a intenção era, mais uma vez, bater no marxismo. “Marxismo é historiogênese, porque tentou reescrever a história toda a partir da luta de classes”, disse. Para Olavo, isso é “uma palhaçada”, porque é ilegítimo reduzir a esses termos civilizações em que o conceito de luta de classes não existia.

No final, ele anunciou um novo curso. Além do COF, o Seminário de Filosofia frequentemente oferece cursos de seis aulas, que costumam custar R$ 399. O próximo será sobre “Os princípios fundamentais da ciência política”. “Vou mostrar para vocês que não existe nenhum cientista político na universidade brasileira. Nenhum. Zero. Então, por hoje é só. Voltamos com perguntas? Não, não vou responder a perguntas, não, só na semana que vem. Boa noite.”

Intolerância, ódio e violência?

Aulas 11 e 12 — "Onde que eu defendi a punição de alguém que não seja ladrão ou assassino?"

Estátua de Immanuel Kant em Kaliningrado (antiga Königsberg), sua cidade natal. Olavo de Carvalho não entendeu o filósofo alemão, dizem os especialistas. Foto: Vitaly Nevar / TASS
Estátua de Immanuel Kant em Kaliningrado (antiga Königsberg), sua cidade natal. Olavo de Carvalho não entendeu o filósofo alemão, dizem os especialistas.
Foto: Vitaly Nevar / TASS
16.02

A aula 460, pré-gravada porque o filósofo estava ocupado, foi mais uma vez uma resposta. Nas semanas anteriores, o jornal O Globo havia convidado três filósofos especialistas em Immanuel Kant para assistir a uma aula do COF e comentar — e eles tinham chegado à conclusão de que Olavo não entendeu Kant. Depois o jornal Le Monde Diplomatique pediu mais um texto a um dos três filósofos, Daniel Tourinho Peres, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de quem Jean Wyllys foi aluno, e ele aprofundou a crítica, acusando Olavo de “exacerbar a intolerância, o ódio e a violência”.

Olavo começou a aula recusando a acusação que recebeu dos filósofos: “Cadê o ódio, cadê a violência, cadê a intolerância? Onde que eu defendi a punição de alguém que não seja ladrão ou assassino?”. Então ele foi se empolgando: “Vem esse bando de idiotas, vagabundos, mentirosos dizer que tenho raiva da esquerda. Claro que eu tenho, a esquerda tem gente como vocês”. Em minutos, já estava vociferando: “Seu filho da puta, seu mentiroso. Seu vagabundo. Seu criminoso de merda!”.

18.02

Cada vez mais isolados no governo, os três ministros mais ideológicos de Bolsonaro — Ricardo Vélez Rodríguez, Ernesto Araújo e Damares Alves —, foram almoçar juntos. Vélez Rodríguez contou no Twitter como foi: “No cardápio: amor pelo Brasil, fidelidade ao nosso presidente e uma deliciosa sobremesa via WhatsApp com nosso amigo, o professor Olavo de Carvalho”.

20.02

Quando entra no site do Seminário de Filosofia, Olavo recebe uma mensagem de seu navegador de internet que diz: “Esta conexão não é privada”. Hoje ele fotografou a tela e compartilhou no Facebook. O texto na tela dizia que “este site pode estar representando www.seminariodefilosofia.org para roubar suas informações pessoais ou financeiras”.

Esse tipo de mensagem é comum: indica ou que o certificado de segurança do site não está em dia ou que o usuário não fez login para entrar na rede ou algum problema no antivírus. Mas Olavo, quando deparou com o aviso, imediatamente concluiu que só podia ser coisa de seus inimigos: “Pelo uso constante deste tipo de recurso porco, pode-se medir a capacidade intelectual da putada acadêmica antiolavista”.

22.02

Acredito que Olavo já leu muitos livros na vida, mas uma coisa posso garantir: ele não está lendo mais. A frequência de suas postagens claramente não permite mergulhar em livros. Ontem, por exemplo, o mestre postou em seu perfil pessoal quatro vezes pouco antes da meia-noite, depois de novo à 1h30, duas vezes às 2h30, às 3h30 e seis vezes seguidas às 4 horas da manhã. Parou de postar entre as 4h30 e as 8h30 e então postou sem parar mais 47 vezes até o amanhecer do dia 23. Ele está completamente dependente das redes sociais, e quase todos os posts são tomados de fúria.

23.02

A última aula dos meus três meses como aluno de Olavo foi sobre Otto Maria Carpeaux (1900-1978), jornalista, ensaísta e historiador literário que nasceu na Áustria, fugiu do nazismo para o Brasil e aqui viveu.

Olavo admira Carpeaux, apesar da simpatia do jornalista pela esquerda. E, como admira, tem uma tese de que no fundo Carpeaux era um direitista que se fingia de esquerdista para ganhar a aprovação dos intelectuais.

Repetindo uma história que já ouvi dele meia dúzia de vezes, Olavo contou que Carlos Heitor Cony (1926-2018), jornalista de esquerda que foi amigo de Carpeaux, lhe confidenciou que ele rezava escondido. “Como se fosse ser perseguido pelos esquerdistas se eles soubessem que ele era católico”, disse Olavo.

Senti que a escolha desse tema para a aula de hoje teve a ver com um desejo de não brigar nesta noite de sábado. Ao lembrar de um esquerdista por quem tinha apreço, Olavo quis ficar por uma hora longe de sua guerra de múltiplos fronts contra direitistas que ele despreza e esquerdistas que odeia. Fiquei me perguntando se há alunos de Olavo que reprimem suas ideias ou seus desejos, como supostamente Carpeaux reprimia sua fé.

“Hoje não vou responder a perguntas porque estou muito cansado”, ele disse.“Imaginem o que tem sido minha vida desde a eleição do Bolsonaro.”

E se despediu, deixando 200 e tantas pessoas no chat — passada a onda de popularidade, logo após a posse de Bolsonaro, parece que a frequência às aulas vem caindo um pouco.

O que aprendi com Olavo

No fundo, toda a obra de Olavo tem por trás a intenção de atacar alguém ou alguma coisa

Sala da casa de Olavo de Carvalho, em Richmond, onde vive desde 2005. Foto: Jay Westcott / Polaris Images
Sala da casa de Olavo de Carvalho, em Richmond, onde vive desde 2005.
Foto: Jay Westcott / Polaris Images
24.02

Vai se acabando meu terceiro mês como aluno do COF. E aí? O que aprendi?

Aprendi a entender a origem do carisma de Olavo, que antes para mim era um mistério. Minha consciência, buscando o conhecimento (Viu, professor? Aprendi!), concluiu que as pessoas gostam dele e o admiram porque enxergam a dedicação extrema à missão que ele escolheu na vida, ao mesmo tempo que percebem uma certa vulnerabilidade por trás da casca de filósofo durão. Isso fica claro quando ele revela suas fraquezas: por exemplo, quando choraminga que nenhum aluno o defende. É o que basta para centenas de pessoas se mobilizarem a favor dele.

Aprendi também que é mentira que os seguidores de Olavo sejam todos pessoas com deficiência intelectual ou ressentidas por não ter acesso às melhores universidades, como alguns críticos gostam de insinuar. Tive conversas profundas com gente inteligente e seriamente empenhada em aprender.

Não é a burrice que atrai gente ao COF (assim como obviamente não é a burrice que atrai para a esquerda), é outra coisa. Suspeito que, em parte, seja a busca de um senso de pertencimento, do acolhimento de um vovô que ao mesmo tempo tem a aura sábia de alguém que está entendendo tudo — quando está tão difícil entender as coisas — e a informalidade de quem não tem papas na língua.

Aprendi também que, no fundo, toda a obra de Olavo tem por trás a intenção de atacar alguém ou alguma coisa. Quando fala de filosofia, ele ataca as pessoas que escolheram a filosofia como profissão. Quando o assunto é ciência, o subtexto é a superioridade da filosofia sobre a ciência. Qualquer discussão sobre política tem como premissa a má-fé ou o analfabetismo de qualquer um que não concorde com ele. Mesmo seu livro mais filosófico, sobre Aristóteles, dedica quase metade de suas páginas a ofender alguém (no caso, o parecerista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, classificado como “analfabeto” depois de recusar a publicação da tese de Olavo na revista Ciência Hoje ). Olavo pode até se importar com o conhecimento, mas se importa mais com a guerra.

Aprendi que quase toda a obra de Olavo é uma tentativa de negar a complexidade do mundo. Por trás de seus textos estruturalmente sofisticados, há ideias bem simples. Ele quer voltar no tempo, para um mundo que ele fosse capaz de entender: onde só há dois sexos (e não me venha com gênero), Newton basta (sem as incertezas e as heresias da relatividade e da física quântica), preocupar-se com o clima é assunto para São Pedro e todo mundo que não é bom é mau, e vice-versa. Um mundo cristão, de cultura clássica, sob o comando de quem parece estar no comando — melhor se for alguém bem autoritário. Um mundo que possa ser apreendido inteiro por uma única mente brilhante, como a de Aristóteles — sem todas as complicações contemporâneas, que exigem uma imensa diversidade de perspectivas para fazer sentido.

O guru de Richmond se diz
O guru de Richmond se diz "acossado por uma rede internacional de caluniadores e difamadores". Acima, a tela "O bêbado empurrado para o chiqueiro", do holandês Pieter Bruegel, o Velho (1525-30/1569).
Foto: Print Collector / Getty Images
Aprendi também o poder de uma mensagem única que preencha todos os espaços do dia, com a ajuda das redes sociais. A repetição incansável cria um ambiente saturado de informação, que não deixa espaço para mais nada. Quando essa mensagem é de ódio, os efeitos sociais são profundos. É sério: essa experiência me impactou muito e mudou, espero que temporariamente, minha percepção da realidade. Estou me sentindo muito desinformado sobre tudo que não é olavismo, e também muito paranoico, coisa que nunca fui.

Aprendi, mais que tudo, sobre a força demolidora do insulto para impedir qualquer possibilidade de diálogo. Olavo é um artista da ofensa. Julgando pela perspectiva subjetiva de minha consciência, avalio que pelo menos metade das dezenas de milhares de páginas que ele diz ter escrito são ofensas a alguém. De um lado, ele xinga como uma criança: com a repetição infindável de apelidos engraçadinhos ao longo de dias e dias. Mas ele faz isso com a erudição de alguém que lê muito.

Acho que aprendi um pouco a usar dessa arma também. Cheguei mesmo a bolar, para mim mesmo, um exercício para treinar essa habilidade. Imaginei, de maneira hipotética, que eu quisesse ofender Olavo. E aí ofendi, sem dó: com referências a sua idade, a sua saúde, a seu peso, a suas dificuldades cognitivas na infância que formaram uma personalidade obcecada pela ideia de entender tudo. Dei-lhe apelidos feitos de palavras horríveis, inclusive uma com rima quase perfeita com seu sobrenome. Ficou bom. Ficou demolidor. Senti o poder que isso pode ter, de incitar.

Mas por que mesmo eu iria querer incitar alguém, num momento como este? Que uma pessoa que tenha acesso ao poder do Estado, inclusive de mobilizar violência a seu serviço, esteja incitando, aí já é outra história.

Olavo de Carvalho criticou o ministro da Justiça, Sergio Moro,
e depois o elogiou por retirar a indicação da cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Olavo de Carvalho criticou o ministro da Justiça, Sergio Moro, e depois o elogiou por retirar a indicação da cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.
 Foto: Ana Branco / Agência O Globo
26.02

Assim como sobre a evolução ou o formato esférico da Terra, Olavo mandou avisar que não tem opinião formada sobre a reforma da Previdência, num post que deve ter deixado muito apoiador de Bolsonaro nervoso.

Depois ganhou um novo alvo quando o ministro da Justiça Sergio Moro chamou a especialista em segurança pública Ilona Szabó, que se considera uma liberal, para ser suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Olavo ficou furioso porque considera Szabó esquerdista, por causa de sua proximidade com Fernando Henrique Cardoso. A treta durou 48 horas, até Moro voltar atrás na indicação, depois de ser pressionado pelo presidente.

Mais tarde, surgiu no Facebook uma petição on-line pedindo a Moro e a Bolsonaro que defendam Olavo dos crimes que vêm sendo cometidos contra ele. O abaixo-assinado fala de “perseguição, fake news e assassinato de reputação” contra meu professor e sua família, denuncia uma “rede que atua dentro e fora do país e que incita o ódio através de ataques constantes”, sem mencionar nada específico.

27.02

Hoje chegou o boleto com a mensalidade do COF. Deletei.

02.03

Mas aí hoje Olavo postou um apelo a seus seguidores no Facebook:

“Acossados por uma rede internacional de caluniadores e difamadores, recebemos ainda uma cobrança monstruosa de despesas médicas e impostos, e vamos precisar desesperadamente da ajuda de nossos amigos.”

Olavo pede dinheiro e fornece seus dados bancários no Brasil e nos Estados Unidos. Disse que só pode pagar pela ajuda com livros autografados e sua profunda gratidão.

A cobrança à qual ele se refere foi por causa de uma internação de emergência para tirar um tumor da traqueia, em março do ano passado, contrariando a tese olavista, muitas vezes repetida, de que fumar faz bem à saúde. Aparentemente, a conta do hospital chegou agora — acontece isso nos Estados Unidos, você é atendido sem que ninguém discuta custos e de repente chega em sua casa uma conta astronômica.

Eduardo Bolsonaro compartilhou o apelo olavista, ajudando bastante a divulgá-lo.

Na página pessoal de Olavo, uma aluna perguntou, em relação ao apelo:

“Professor, acho que peguei o bonde andando e não estou entendendo o que está acontecendo. O senhor está com dificuldades para custear as despesas médicas que o senhor teve no ano passado, quando precisou ficar internado em um hospital? Os débitos fiscais são perante o Fisco dos EUA ou daqui do Brasil? Estão alegando sonegação? O que isso tudo tem a ver com a perseguição que seus detratores vêm impondo ao senhor? Isso tem a ver com a renda que o senhor tem com o COF, com os alunos brasileiros? Estão alegando evasão de divisas?”

Ela foi gentil na pergunta, e conferi que é uma verdadeira admiradora de Olavo, que contribuiu para outras campanhas em benefício dele e de outros ícones da direita, e tem papel de liderança organizando jovens. Mas ficou sem resposta.

Procurei o e-mail do Seminário de Filosofia na minha lixeira e fui lá renovar minha mensalidade: mais R$ 60. O tema da aula foi o projeto da Escola de Frankfurt, um grupo de filósofos alemães de um século atrás, de destruir o mundo. Segundo Olavo, os frankfurtianos dominam o pensamento de esquerda hoje e, consequentemente, mandam na mídia, na universidade e no PT. É basicamente por isso que é impossível dialogar com toda essa gente: todos eles estão trabalhando pela destruição do mundo.

Era sábado de Carnaval, passava das 11 da noite e eu ouvia da janela gritos da festa lá embaixo. Enquanto isso, quase 800 pessoas discutiam animadas no chat, lotado de novo, sobre as formas mais eficazes de doar ao mestre.

Entre os filhos do presidente da República, Eduardo Bolsonaro é o que tem uma relação mais próxima com Olavo de Carvalho. Foto: Montagem sobre foto de Paola De Orte / Agência Brasil
Entre os filhos do presidente da República, Eduardo Bolsonaro é o que tem uma relação mais próxima com Olavo de Carvalho.
Foto: Montagem sobre foto de Paola De Orte / Agência Brasil
03.03

Carnaval animado na Virgínia. O professor estreou hoje mais um canal de comunicação: o perfil do Twitter @oproprioolavo. Agora dá para passar quase 24 horas por dia consumindo e comentando conteúdo dele, sem fazer mais nada. Você checa o Twitter, tem algo ultrajante lá, comenta, depois faz o mesmo na página pessoal no Facebook, depois na fanpage e, quando terminar de comentar lá, já tem algo novo no Twitter. É assim dia e noite. Fora os grupos de apoio no Facebook. Estou quase agradecendo ao sujeito que me expulsou do grupo do WhatsApp.

O maior alvo dessa metralhadora é Mourão: hoje houve um post dizendo que é melhor Bolsonaro confiar nos filhos do que nele, outro dizendo que ele não vê Bolsonaro como comandante — o que em si já é um golpe militar —, um dizendo que ele próprio, Olavo, defende mais a honra das Forças Armadas do que o general vice, um comparando o capitão comprometido com as promessas de campanha com o general que as despreza, outro lembrando que Mourão deveria servir à vontade popular, entre tantos. Olavo também compartilhou um “Pedido de Desculpas” do Movimento Direita Brasil, por ter recomendado o voto em Alexandre Frota, depois dos ataques do ator a Olavo.

Sobrou tempo para uma advertência ao presidente, a quem Olavo permanece fiel:

“Bolsonaro está dando mais atenção gentil a seus inimigos do que ao povo que o elegeu. Isso é SUICÍDIO. Ou ele vira as costas aos fofoqueiros e fala ao povo uma vez por semana, ou pode-se considerar derrotado desde já”.

Em suas aulas, o filósofo elogia os governos de Viktor Orbán, da Hungria (na foto), e Andrzej Duda, da Polônia, ambos
Em suas aulas, o filósofo elogia os governos de Viktor Orbán, da Hungria (na foto), e Andrzej Duda, da Polônia, ambos "abertos para o transcendente", na opinião de Olavo.
Foto: Bernadett Szabo / Reuters
07.03

O presidente deu mais mostras de que escuta o mestre: anunciou que faria lives semanais pelo Facebook e publicou hoje a primeira, criticando campanhas de educação sexual e reclamando de lombadas eletrônicas. Dois dias antes, ele já tinha elogiado Olavo no Twitter, mesmo com o filósofo descendo a lenha todo dia em seu vice.

Mas, mesmo com o apoio de Bolsonaro, Olavo está furioso. Hoje parece ter rachado com o governo.

“Já não posso mais me calar. Todos os meus alunos que ocupam cargos no governo — umas poucas dezenas, creio eu — deveriam, no meu entender, abandoná-los o mais cedo possível e voltar a sua vida de estudos.” Sua explicação foi a seguinte: “O presente governo está repleto de inimigos do presidente e inimigos do povo, e andar em companhia desses pústulas só é bom para quem é como eles”.

Será que a influência do filósofo no poder está se acabando?

Em suas aulas, o filósofo elogia os governos de Viktor Orbán, da Hungria, e Andrzej Duda (na foto), da Polônia, ambos
Em suas aulas, o filósofo elogia os governos de Viktor Orbán, da Hungria, e Andrzej Duda (na foto), da Polônia, ambos "abertos para o transcendente", na opinião de Olavo.
Foto: Alik Keplicz / AP Photo
08.03

Quanto entrei na sala de aula para assistir à aula número 463, encontrei, pela primeira vez, mais de 1.000 alunos no chat. O clima era de comoção. Muita gente xingando Mourão, outros atacando o diplomata Paulo Roberto de Almeida, demitido nesta semana da diretoria do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, depois de compartilhar críticas a Olavo. Vários discutiam a confusão no Ministério da Educação, onde um assessor, o coronel Ricardo Roquetti, era acusado de tutelar o ministro, indicado por meu professor, a mando de Mourão, e de perseguir os alunos de Olavo, que ocupam posições-chaves na pasta.

A aula não falou de nenhuma dessas polêmicas: foi sobre ciência política. Olavo disse que “não temos nada a comemorar pela modernidade”, referindo-se ao fim da Idade Média. “O resultado foi o homem perdido. O individualismo é a consequência, porque o ‘eu’ foi tudo que restou a ele, quando acabou o império e a autoridade da Igreja.” Sobrou tapa para Haddad (“que quis transformar São Paulo numa cracolândia”) e Obama (“que nem nasceu nos Estados Unidos — tem documento falso”), acusados de, por influência da Escola de Frankfurt, propor uma política “baseada no prazer sexual”.

Elogios só para a Polônia e para a Hungria, cujos governos, que vêm sendo acusados de destruir a democracia, segundo Olavo estão “abertos para o transcendente”. António Salazar, ex-ditador de Portugal, também foi citado em tom positivo: “Um homem mais religioso do que todo o clero brasileiro junto”.

Mas, numa semana de muita polêmica, que terminou com Olavo solicitando a todos os seus alunos que deixassem o governo, o professor nem falou de Brasília. Será que ele realmente resolveu abrir mão do poder político e dedicar-se a ser um professor que fala de filosofia?

09.03

Parece que não. O coronel Roquetti foi demitido do Ministério da Educação, a mando do presidente, e os alunos de Olavo, pelo visto, ficaram. Ao longo dos últimos três meses, meu professor comprou briga com quase todo mundo que ele não indicou no governo. Até agora, os Bolsonaros apoiaram-no em todas e demitiram quem ele mandou — Ilona Szabó, o coronel Roquetti, Paulo Roberto de Almeida —, mesmo contra a vontade de figurões como Moro e Mourão.

Não há nada a comemorar com o fim da Idade Média e o surgimento da modernidade, lamentou o filósofo. O resultado é o individualismo e um
Não há nada a comemorar com o fim da Idade Média e o surgimento da modernidade, lamentou o filósofo. O resultado é o individualismo e um "homem perdido", disse.
Foto: Jay Westcott / Polaris Images
11.03

Agora meu professor parece ter rachado também com o ministro que ele mesmo indicou, Ricardo Vélez Rodríguez. No Twitter, ele perguntava se “Vélez se vendeu ou se deu?”. Bem que o colega dele, o filósofo Joel Pinheiro da Fonseca, com quem almocei na semana passada, tinha me avisado que brigar com as pessoas é o modus operandi de Olavo. É assim que ele passa pelo mundo: tretando. E com muita frequência o seguidor de hoje vira o arqui-inimigo de amanhã.

Aliás, li hoje um denso artigo filosófico de um desses ex-seguidores, Martim Vasques da Cunha, publicado na semana passada no jornal conservador Gazeta do Povo. Chama-se “O mínimo que você precisa saber sobre o pensamento de Olavo de Carvalho”. O texto é cuidadoso e respeitoso, e dedica bem mais elogios do que críticas ao ex-professor. Mas as críticas são fortes: Cunha acusa-o de ter um projeto de poder com toques místicos. “O que era para ser uma comunidade de estudos tornou-se depois uma ‘teia hierárquica’, cuja meta é influenciar espiritualmente os eventos políticos de uma nação, como uma casta.” Para Cunha, o que Olavo tem em mente é “um programa de reforma intelectual, moral e espiritual do ser humano”: ou seja, a coisa mais autoritária que existe. A resposta de Olavo a esse tipo de crítica vem na forma de apelido: no caso, Mastim Vaca. Fico aqui pensando qual apelido ele vai me dar. Pênis Burroman, será? Ou será que vai me reservar a suprema humilhação de me ignorar?

Mas o que não foi ignorado hoje foi um tuíte de Olavo dizendo que nenhum estudante consegue sobreviver na universidade sem usar drogas e participar de bolinação coletiva. A mensagem bombou nas redes sociais, servindo de escada para uma infinitude de piadas.

12.03

Uma coisa que Olavo disse me faz pensar muito: a ideia de que um professor universitário tem conflitos de interesse demais e não pode pensar livremente. Acho que ele tem razão, sabia? Realmente vivemos uma época em que é difícil pensar com liberdade.

Mas tenho notado que Olavo convive também com um número enorme de conflitos de interesse. Por exemplo: ele sabe que sua audiência aumenta — e a receita também — se ele se comportar menos como um filósofo e mais como um soldado.

Esse papel de animador de torcida que ele tem certamente o atrapalha na hora de olhar para as coisas querendo realmente ganhar conhecimento.

Hoje, por exemplo, a Polícia Federal tinha acabado de anunciar que o matador de Marielle Franco era vizinho de Bolsonaro, e que o motorista que conduziu o assassino no crime foi fotografado ao lado do presidente. Olavo postou: “Pô, presidente, a mídia já está insinuando que o senhor e sua família são culpados da morte da Marielle. Nem diante de uma coisa dessas o senhor vai tomar a iniciativa de processar os caluniadores?”. Não é estranho que um filósofo nunca, jamais, em tempo algum critique ou sequer admita dúvida sobre o presidente da República? Que livre-pensador é esse, casado com o poder?

Denis Russo Burgierman
No Época

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