17 de mar de 2019

Sarampo a bordo de navio MSC Seaview pode se disseminar

 Crime contra a saúde pública 

MSC Seaview mantém viagens, apesar de casos confirmados; vigilância estadual e de Santos são contra, Anvisa libera

Fotos: Roberto Bonfim/Secretaria da Saúde de Santos e divulgação
Em 6 de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou: o sarampo avança em todo o mundo.
No dia 28,  a advertência foi do Fundo Internacional de Emergência para a Infância das Nações Unidas (Unicef). Dos dez países  responsáveis por 74% do aumento de casos entre 2017 e 2018, o Brasil ocupa o terceiro lugar.
Aqui, de janeiro de 2018 a janeiro de 2019, foram confirmados 10.274 casos, incluindo 12 mortes.
Em informe atualizado em fevereiro deste ano, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)/OMS é taxativa:

O sarampo é uma doença grave, altamente contagiosa.
Pode causar complicações debilitantes ou fatais, incluindo encefalite (uma infecção que leva ao inchaço do cérebro), diarreia e desidratação graves, pneumonia, infecções de ouvido e cegueira.
Bebês e crianças pequenas com desnutrição e sistema imunológico frágil são particularmente vulneráveis a complicações e morte.
Pois, na noite dessa sexta-feira, 15/03, cerca de 5 mil passageiros – pagando, em média, R$ 5 mil cada — embarcaram no porto de Santos (SP) para um cruzeiro de sete dias pela costa brasileira a bordo do transatlântico MSC Seaview.
Pelo site da empresa, é tudo de encher os olhos — itinerários, cabines, restaurantes, piscinas, possibilidades de entretenimento.

O que talvez alguns viajantes ignoram é que o vírus do sarampo está circulando nesse navio há mais de um mês.

Na tarde de 15 de fevereiro, a empresa fez sua primeira notificação à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

No dia seguinte, o MSC Seaview – com seus cerca de 1.500 tripulantes, a maioria terceirizados – atracou em Santos como faz desde novembro de 2018.

Agora, já são 18 casos confirmados: 16 tripulantes, 1 passageiro e 1 servidora da Secretaria de Saúde de Santos, que integra a equipe que investiga o surto.

Há 31 suspeitos, inclusive passageiros, cujas amostras de sangue estão sendo analisadas pelo Instituto Adolf Lutz, em SP.

“Em se tratando de sarampo, a suspeita de um único caso já é situação de risco”, alerta Brigina Kemp, assessora técnica do Conselho dos Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems-SP).

“Por ser evento de saúde pública, o correto seria parar o navio por certo tempo, higienizá-lo e trocar a tripulação, para não colocar em risco outras pessoas”, atenta Marco Manfredini, apoiador do Cosems-SP.

É o que há, insistentemente, há um mês têm recomendado os técnicos do Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE-Santos), da Secretaria Estadual de Saúde, e os da Secretaria de Saúde de Santos.

Porém, a Anvisa Santos, por determinação da Anvisa, em Brasília, tem liberado a circulação do navio.

Vinculada ao Ministério da Saúde, a Anvisa é que tem jurisdição e legisla sobre saúde e segurança em portos e aeroportos. Logo, tem a última palavra.

“Em vários contatos com a Anvisa, eu disse que era preciso interditar o navio, não adiantou”, frisa o secretário da Saúde de Santos, Fábio Ferraz.

“Desde 2009, não temos um caso de sarampo contraído no município. Nosso receio é que, a partir das pessoas infectadas, o vírus se dissemine na cidade”, diz, em alerta.

“Em 2018 inteiro, tivemos três casos em todo o Estado. Só neste navio já são 18 confirmados!”, diz, indignado, Manfredini.

Os técnicos pediram à MSC que, pelo menos, cancelasse neste momento os pacotes de gestantes não vacinadas, bebês com menos de seis meses e imunodeprimidos (por doenças e/ou tratamentos, como o câncer).

Em contato com o vírus, são mais suscetíveis de desenvolver o sarampo e ter complicações. Em gestantes, pode provocar aborto ou parto prematuro.

“Mas nem esse mínimo a empresa fez. Havia gestantes e bebês de colo circulando normalmente no navio”, denuncia Manfredini. “E se uma criança morrer?”

EM UM DIA,  NÚMERO DE TRIPULANTES DOENTES SALTOU DE 1 PARA 12 

Mensalmente os secretários municipais de Saúde da Baixada Santista, o diretor regional da Secretaria Estadual e apoiadores do Cosems-SP realizam uma reunião.

Na última, em 27 de fevereiro, os casos de sarampo no MSC Seaview foram o assunto principal da pauta.

Presentes, técnicos da regional da vigilância epidemiológica estadual e o secretário da Saúde de Santos expuseram a situação.

Manfredini participou da reunião e relata a batalha:

15 de fevereiro – Como se trata de uma emergência em saúde, a empresa informa a Anvisa, que, por sua vez, notifica a secretaria municipal e a regional da vigilância epidemiológica: havia suspeita de rubéola em um tripulante do MSC Seaview, que atracaria no dia seguinte.

Pela legislação brasileira, a empresa tem que informar  a suspeita de rubéola às autoridades sanitárias em até 24 horas.

16 de fevereiro — Profissionais da vigilância epidemiológica estadual e municipal (incluindo médicos) e Anvisa sobem a bordo para discutir os casos com a equipe do navio, examinar e coletar sangue para exames.

O número de tripulantes doentes já havia saltado de 1 para 12.

Os exames clínicos não indicavam rubéola, mas sarampo, também de notificação compulsória em até 24 horas.

Eles tinham febre alta, nariz escorrendo, olhos vermelhos lacrimejantes, tosse, prostração e manchas vermelhas elevadas (pápulas) no rosto se espalhando para o restante do corpo.

“Como o sarampo é altamente contagioso, esses 12 casos já deveriam estar ocorrendo há um tempo, sugerindo possível disseminação do vírus entre tripulação e passageiros”, observa Brigina, doutora em Saúde Coletiva.

Àquela altura, a vigilância epidemiológica já tinha uma certeza: a doença era de transmissão respiratória e se disseminava rapidamente.

O navio havia chegado de Salvador e tinha problema grave no ar condicionado.

Os tripulantes doentes estavam espalhados em várias cabines insalubres. Os técnicos que desceram até eles pingavam de suor.

A primeira medida foi transferi-los para área arejada, onde ficassem juntos, inclusive para maior controle da disseminação da doença.

No dia 16, os técnicos só conseguiram iniciar a investigação do que estava acontecendo a bordo, pois a Anvisa liberou o transatlântico para seguir viagem. Destino: Porto Belo e Balneário Camboriú (SC).

18 de fevereiro – Saem os primeiros resultados dos testes.  Sarampo, mesmo.

O MSC Seaview está em Santa Catarina.

A pedido da equipe do GVE-Santos, a vigilância sanitária de lá inicia imediatamente vacinação dos cerca de 1.500 tripulantes.

O objetivo é o que o que os técnicos chamam de bloqueio vacinal, ou seja, interromper a cadeia de transmissão  e eliminar os suscetíveis no menor tempo possível.

“Quanto antes o bloqueio é feito, mais sucesso se tem na interrupção da cadeia de transmissão”, salienta Brigina.

Desafio ainda maior será vacinar os passageiros no dia 20, quando o MSC Seaview aportaria, de novo, em Santos.

ANVISA ACHOU ABSURDO VACINAR MAIS DE 9 MIL 

19 de fevereiro – A Anvisa, assim como a MSC, está preocupada em liberar o navio e a tripulação.

São feitas várias videoconferências.

Visando também ao bloqueio vacinal, os técnicos do GVE-Santos e da secretaria municipal recomendam a vacinação dos quase 5 mil passageiros que desembarcarão no dia seguinte e dos outros cerca de 5 mil que vão iniciar o cruzeiro.

A Anvisa em Brasília acha absurdo. Chega a dizer que a recomendação é “emocional”.

O GVE-Santos finca pé. Diz não. Diz também que, no dia seguinte, era necessário a Anvisa segurar o navio por, pelo menos, oito horas para que os seus técnicos e os da secretaria municipal pudessem vacinar os mais de 9 mil passageiros.

20 de fevereiro – O MSC Seaview atraca em Santos com mais tripulantes doentes.

Vigilância estadual e secretaria municipal de Saúde iniciam a mega vacinação.

Uma equipe fora do navio, faz a triagem e a vacinação dos passageiros que vão embarcar. E outra dentro, vacina quem está terminando o cruzeiro.

“O critério para não vacinar era ter à mão o cartão de vacinação, comprovando a imunização”, diz o secretário Fábio Ferraz.

Como o cartão de vacinas não é um documento que se tem normalmente na carteira, a maioria foi vacinada.

O problema é que a vacina não tem efeito imediato. Demora 15 dias para dar proteção.

“Na prática, estamos apenas promovendo o bloqueio vacinal”, diz, preocupado. “É o que podemos fazer no âmbito municipal.”

Como até hoje a Anvisa não interditou o navio, o MSC Seaview segue os seus cruzeiros pela costa brasileira.

“Muito estranho tudo isso”, diz, intrigada, Brigina.

 EMPRESA NÃO DIZ POR QUE NÃO CANCELOU VIAGEM  DE BEBEZINHOS

Questionamos a MSC Cruzeiros e a Anvisa.

À empresa, via sua assessoria de imprensa, perguntamos:

1) O que a companhia tem a dizer a respeito da ocorrência de casos de sarampo entre tripulantes e passageiros do seu navio, que está circulando pela costa brasileira?

2) Que medidas já adotou para proteger os tripulantes que ainda não adoeceram e evitar o risco para os passageiros?

3) Por que os tripulantes do seu navio não são vacinados?

4) Considerando que há um vírus circulando no navio, por que não o interditou nem substituiu a tripulação?

5) Por que não cancelou neste momento os pacotes de gestantes não vacinadas, bebezinhos de colo e imunodepremidos?

6) O que pretende fazer para bloquear a circulação do vírus responsável pela doença?

A íntegra da resposta está ao final.

Em defesa da saúde pública, há pontos que exigem considerações.

1) A MSC Cruzeiros ignorou a nossa pergunta sobre os bebezinhos de colo, gestantes não vacinadas e imunodeprimidos, que têm mais riscos de complicações graves do sarampo.

A razão é óbvia: a empresa não cancelou os pacotes desses passageiros, como solicitou a vigilância epidemiológica.

2) A MSC também não respondeu por que os tripulantes do seu navio não são vacinados.

Aqui, talvez por dois motivos:

Não tem como política a vacinação dos seus trabalhadores, ao contrário de outras empresas do setor.

Também não segue a recomendação do Brasil de que os viajantes, entre os quais profissionais de saúde e tripulantes, sejam vacinados.

A OPAS também preconiza:
Vacinar populações em risco (sem comprovação de vacinação ou imunidade contra sarampo e rubéola), como profissionais de saúde, pessoas que trabalham com turismo e transporte (hotelaria, aeroportos, motoristas de táxi, etc.) e viajantes internacionais.
Os técnicos da regional de vigilância epidemiólogica após vacinações de passageiros do MSC Seaview. A foto do topo é dentro do navio
3) Quanto aos números, a nota diz (os negritos são nossos):
Durante a última quinzena de fevereiro, um número limitado de membros da tripulação do MSC Seaview apresentou sinais potenciais de sarampo.

 (…)

No total, ao longo do período de duas semanas, 26 membros da tripulação reportaram sintomas, mas todos eles estão agora em boa saúde e totalmente recuperados. Neste momento não há nenhuma ocorrência de sarampo a bordo.
O que é um número limitado?

“Se a suspeita de um único caso já é situação de risco, 26 suspeitos em duas semanas é muito!”, adverte Brigina Kemp.

Significa, pelo menos, um caso por dia.

4) Em relação às medidas para os tripulantes e passageiros, a nota da MSC diz:
Como precaução e de acordo com as rigorosas diretrizes de saúde para tais casos, os membros da tripulação afetados foram imediatamente mantidos em observação e isolamento, recebendo visitas diárias de nossa equipe médica. Suas cabines foram cuidadosamente limpas e higienizadas duas vezes por dia como medida adicional de segurança sanitária.

Durante todo o processo, a MSC Cruzeiros trabalhou em estreita colaboração com a ANVISA. Como medida de precaução, toda a tripulação – assim como os funcionários recém recrutados para embarcarem – receberam a vacina tríplice viral (SCR).
Essa resposta talvez leve o leitor desavisado a achar que a MSC foi muito cuidadosa com a saúde dos tripulantes e passageiros e custeou as vacinas.

Nem uma coisa nem outra.

Quem custeou todas as vacinas à tripulação e aos passageiros dessa empresa privada foi o Sistema Único de Saúde (SUS).

Isso mesmo, o SUS!

O Ministério da Saúde envia as vacinas às secretarias estaduais de Saúde que as repassam aos municípios.

No caso do MSC Seaview, as aplicadas nos tripulantes são da Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina.

Já as usadas nos passageiros são Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. E os profissionais que aplicam, da prefeitura de Santos.

Aliás, as equipes de Santos têm trabalhado muito para garantir o bloqueio vacinal e o município pago a conta das horas extras.

No dia 20 de fevereiro, quando houve a vacinação para mais de 9 mil passageiros, a secretaria municipal disponibilizou 110 servidores para a tarefa fora da rotina. Nos embarques seguintes, em torno de 70.

“A VACINA APLICADA NA HORA DO EMBARQUE NÃO GARANTE IMUNIDADE”

6) Na sequência dos parágrafos destacados logo acima, a nota diz:
Essa medida [vacinação no embarque/desembarque] foi tomada sob a direção e orientação das autoridades de saúde da ANVISA e teve como objetivo garantir a imunidade a bordo e viagens seguras para nossos hóspedes e tripulação.
A única forma de prevenir o sarampo é a vacina.

Só que, ao contrário do que induz a nota da MSC, a vacinação no dia do embarque não tem a mesma eficiência de proteção da vacina feita no tempo adequado.

“Aplicada no momento do embarque não garante imunidade”,  alerta a assessora técnica do Cosems-SP.

“Para efetivamente se protegerem, tripulantes e passageiros tinham que ter recebido a vacina 15 dias antes do embarque ou na época de vacinação de cada faixa etária”, esclarece.

O calendário do Ministério da Saúde prevê a primeira dose aos 12 meses de idade. É a tríplice viral: sarampo, caxumba e rubéola. E a segunda dose, aos 15 meses, a tetra viral: sarampo, caxumba, rubéola e varicela.

Parêntese.

“A vacina contra o sarampo não provoca autismo”, avisa Gerson Salvador, médico infectologista.

Essa informação ficou famosa após Andrew Wakefield,  pesquisador do Reino Unido, publicar no The Lancet, uma das revistas científicas mais conceituadas no mundo, que o autismo poderia ser um evento adverso da vacina.

“Era fraude, foi provada, confessada pelo próprio autor”, enfatiza Salvador.

Fechado parêntese. Voltando à vacinação.

O calendário nacional de imunização do sarampo não é só para bebês até 12 meses.

O esquema para as outras faixas etárias é este:

Crianças de 12 meses a menores de 5 anos de idade: 1 dose aos 12 meses (tríplice viral) e outra aos 15 meses de idade (tetra viral).

Crianças de 5 anos a 9 anos de idade que perderam a oportunidade de serem vacinadas anteriormente: duas doses da tríplice viral.

Adolescentes e adultos até 49 anos: de 10 a 29 anos, duas doses da vacina tríplice; de 30 a 49 anos, uma dose da tríplice viral.

EMPRESA CHEGOU AO CÚMULO DE DENUNCIAR TÉCNICA POR FAZER O CERTO

7) Para finalizar, a MSC diz na nota:
 Enquanto permanecemos vigilantes, estamos confiantes em dizer que a situação de saúde pública a bordo é muito boa e que não houve mais casos relatados entre nossa tripulação nos últimos dias.

Ao longo das últimas semanas, o navio recebeu constantemente autorização da ANVISA para continuar suas viagens ao longo de seu itinerário e não houve impacto para a experiência de férias dos nossos hóspedes.
“Esta confiança ainda é precoce”, previne Brigina Kemp. “O impacto pode acontecer após a viagem.”

Na verdade, a longa resposta da MSC (na íntegra, ao final) parece mais material publicitário.

E quem a lê sem essas observações talvez conclua que a empresa foi colaborativa e aplaudiu as ações dos profissionais que botaram a mão na massa. Leia-se: os técnicos da regional da vigilância epidemiológica estadual e municipal.

Infelizmente, não foi.

Além de não apoiar, dificultou o trabalho. Chegou ao cúmulo de denunciar à Anvisa uma técnica, alegando que ela manteve em cárcere privado parte da tripulação.

Acontece que o protocolo para situações como a dos tripulantes infectados do navio é isolamento social do doente e seus contatos, para proteger as demais pessoas no entorno.

Explica-se. O vírus altamente contagioso é espalhado por tosse e espirros, contato pessoal próximo ou contato direto com secreções nasais ou de garganta infectadas.

O vírus permanece ativo e contagioso no ar ou em superfícies infectadas por até duas horas e pode ser transmitido por uma pessoa infectada a partir de quatro dias antes e quatro dias depois do aparecimento de erupções cutâneas

“O tempo médio entre a pessoa ter contato com o vírus do sarampo e o início das erupções cutâneas é de dez dias”, explica o infectologista Gerson Salvador.

É a chamada incubação, que oscila entre 7 e 18 dias.

Nesse período, embora a pessoa não tenha sintomas, o vírus está circulando naquela população e infectando outros indivíduos.

“A pessoa transmite o vírus pela saliva independentemente do grau de expressão clínica, isto é, a doença não precisa ser clinicamente muito aparente”, prossegue Gerson.

“A eliminação do vírus na saliva pode anteceder de 1 a 3 dias a manifestação clínica, qualquer que ela seja”, acrescenta.

Portanto, o que, de fato, garantiria a segurança dos passageiros teria sido parar o navio e trocar  toda a tripulação.

Mas isso implicava perda de faturamento.

Assim, entre a saúde dos tripulantes e passageiros e o lucro, a empresa optou pelo dinheiro.

Nós perguntamos à Anvisa por que liberou o navio, já que o vírus do sarampo estava circulando.

Em resposta  enviada, a agência diz (na íntegra, ao final):
A Anvisa aplica medidas sanitárias no Brasil a fim de minimizar o risco de transmissão de doenças em seu território, sem causar interferências desnecessárias no tráfego de pessoas e no comércio internacional.
Curiosamente, basta um único caso de tuberculose em cargueiro para a Anvisa segurar o navio na barra.

Por que esse tratamento diferenciado para o transatlântico da MSC Cruzeiros?

A troco de quê?

MSC NÃO ‘FAZ LIÇÃO DE CASA’; SANTOS E ESTADO PAGAM A CONTA

Desde que o surto de sarampo eclodiu no MSC Seaview, além dos 1.500 tripulantes imunizados em Santa Catarina, 19.885 passageiros foram vacinados em Santos até essa sexta-feira, 15 de março, visando ao bloqueio vacinal.

A informação é da Secretaria de Saúde de Santos, que detalha os dados.

1º bloqueio – 20 de fevereiro, 8.267 vacinados, entre desembarque e embarque

2º bloqueio – 23 de fevereiro, 2.158 vacinados no embarque

3º bloqueio – 26 de fevereiro, 3.400 vacinados no embarque

4º bloqueio – 2 de março, 1.800 vacinados no embarque

5° bloqueio – 9 de março, 2.277 vacinados no embarque

6º bloqueio – 15 de março, 1.983 vacinados no embarque

No embarque dessa sexta-feira, houve 1.363 recusas. E 1.667 foram dispensados em função da idade (mais de 60 anos) ou estarem com vacina em ordem.

A primeira dose da vacina contra sarampo (tríplice viral) em clínicas particulares de imunização está em torno de R$ 120.

Considerando que é  a MSC é uma empresa que lucra — e muito! — com esses cruzeiros, só a título de curiosidade levantamos o preço da primeira dose da vacina contra sarampo (tríplice viral) em clínicas particulares. Está em torno de R$ 120.

Agora, faça as contas:

21.385  vacinas (1.500 em tripulantes e 19.885 em passageiros) x R$120=R$ 2,56 milhões, sem incluir seringas, agulhas e horas extras dos servidores.

Mas isso é NADA perto do risco potencial de reintrodução do vírus do sarampo não só na população de Santos, mas também na de  outras cidades  e estados.

Explico. Provavelmente o MSC Seaview tem hóspedes de todo o País.

É possível que passageiros tenham desembarcado em período de incubação e de transmissibilidade e disseminado para outras pessoas por onde circularam ou ainda vão circular.

O MSC veio da Europa e desde novembro está fazendo cruzeiros na costa brasileira.

Nesse período, a tripulação desceu normalmente do navio, frequentou bancos, supermercados, bares, shoppings, pegou táxi.

Será que antes do alerta de 15 de fevereiro nenhum tripulante apresentou sintomas, como urticária e conjuntivite?

Será que a equipe do navio não detectou ou ignorou?

Estranhamente a empresa só notificou os casos quando a vigilância epidemiológica de Santos detectou o surto.

Algum tripulante deve ter apresentado os sintomas antes de 15 de fevereiro.

Pelo menos um dado indica que sim. Um passageiro que fez o cruzeiro de 2 a 9 de fevereiro, quando desembarcou em Santos  – portanto antes da notificação às autoridades sanitárias –, está positivo para sarampo.

Lamentavelmente, Santos está pagando a conta de todos os estragos do MSC Seaview circulando com o vírus do sarampo.

A propósito.

Esse absurdo todo foi só irresponsabilidade?

Ou seria crime contra a saúde pública e os cofres do município?

ÍNTEGRA DA RESPOSTA DA MSC CRUZEIROS

“Durante a última quinzena de fevereiro, um número limitado de membros da tripulação do MSC Seaview apresentou sinais potenciais de sarampo. Como precaução e de acordo com as rigorosas diretrizes de saúde para tais casos, os membros da tripulação afetados foram imediatamente mantidos em observação e isolamento, recebendo visitas diárias de nossa equipe médica. Suas cabines foram cuidadosamente limpas e higienizadas duas vezes por dia como medida adicional de segurança sanitária.

No total, ao longo do período de duas semanas, 26 membros da tripulação reportaram sintomas, mas todos eles estão agora em boa saúde e totalmente recuperados. Neste momento não há nenhuma ocorrência de sarampo a bordo.

Durante todo o processo, a MSC Cruzeiros trabalhou em estreita colaboração com a ANVISA. Como medida de precaução, toda a tripulação – assim como os funcionários recém recrutados para embarcarem – receberam a vacina tríplice viral (SCR).

Além disso, todos os passageiros que embarcaram e desembarcaram a partir do dia 20 de fevereiro receberam a vacina SCR (Sarampo, Caxumba e Rubéola). Essa medida foi tomada sob a direção e orientação das autoridades de saúde da ANVISA e teve como objetivo garantir a imunidade a bordo e viagens seguras para nossos hóspedes e tripulação.

Paralelamente a esta medida e conforme solicitado pela ANVISA, nós também informamos proativamente todos os hóspedes para ficarem atentos a quaisquer sinais específicos de doença. Nosso Centro Médico do navio está aberto aos nossos hóspedes e um check-up médico específico para este tipo de doença é fornecido gratuitamente.

Também realizamos um grande número de ações preventivas – mais de cem – em todos os níveis da operação do navio para garantir ainda mais a segurança da saúde pública. Por exemplo, aumentamos o número de higienizadores de mãos distribuídos nas áreas de tráfego intenso, como entrada do teatro ou recepção; aumentamos a frequência de limpeza intensiva e higienização de áreas específicas; e aumentamos o nível de conscientização sobre saúde pública e higiene entre nossos hóspedes.

Infelizmente, um hóspede brasileiro desenvolveu sintomas de sarampo após o cruzeiro realizado entre os dias 2 e 9 de fevereiro. Estamos acompanhando o estado de saúde dessa pessoa e oferecendo nosso apoio. A informação mais recente que temos é que esta pessoa está se recuperando bem e está com boa saúde.

Enquanto permanecemos vigilantes, estamos confiantes em dizer que a situação de saúde pública a bordo é muito boa e que não houve mais casos relatados entre nossa tripulação nos últimos dias.

Ao longo das últimas semanas, o navio recebeu constantemente autorização da ANVISA para continuar suas viagens ao longo de seu itinerário e não houve impacto para a experiência de férias dos nossos hóspedes.

ÍNTEGRA DA RESPOSTA DA ANVISA

A Anvisa aplica medidas sanitárias no Brasil a fim de minimizar o risco de transmissão de doenças em seu território, sem causar interferências desnecessárias no tráfego de pessoas e no comércio internacional.

De acordo com o Regulamento Sanitário Internacional, o sarampo não é considerado uma doença definida como emergência em saúde pública. A doença é, inclusive, endêmica em diversos países europeus.

Mesmo assim, a Anvisa exigiu e acompanhou procedimentos para minimizar a possibilidade de transmissão da doença. Dentre eles, destacam-se:

– Manutenção do isolamento total dos tripulantes doentes em suas cabines;

– Limpeza e desinfecção de todas as cabines desocupadas no desembarque, áreas públicas e superfícies( maçanetas, corrimão de escada, botões de elevador, etc);

– Correto manejo dos resíduos gerados a bordo (Resíduos das cabines e serviço médico considerados como infectante);

– Correto manejo da roupa de cama contaminada das cabines isoladas (existe um protocolo especifico para esse manejo sem cruzamento com roupa de cama das cabines não isoladas);

– Vacinação de todos passageiros que desembarcaram e embarcaram no porto.

A Agência também disponibilizou um aviso sonoro no navio, orientando os viajantes que caso apresentem sinais e sintomas compatíveis com o sarampo (febre, coriza, conjuntivite ou manchas na pele) a procurarem o serviço médico a bordo ou, no caso do desembarque, procurar uma unidade de saúde para avaliação clínica, informando que esteve a bordo da embarcação. Os avisos sonoros são transmitidos a cada 2 horas para tripulantes e a cada 3 horas para passageiros.

Conceição Lemes
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