31 de mar. de 2019

Relembre: Vídeo “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015”

Esse importante capítulo de correção histórica e de marco na antropologia forense mundial foi acompanhado pela equipe GGN, resultando na produção do documentário “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015”


Depois de mais vinte anos e uma articulação em todos os níveis, prefeitura, governo federal, universidade, MPF e profissionais estrangeiros tentam dar respostas a desaparecidos políticos; o GGN acompanhou esse processo e produziu um documentário


Vinte e cinco anos se passaram desde que as ossadas de desaparecidos políticos da ditadura brasileira (1964-1985) foram encontradas na vala clandestina de Perus, no cemitério Dom Bosco, na zona norte de São Paulo. No ano passado, os resquícios dos mortos pela ditadura começaram a receber a devida investigação, após períodos de negligência. Esse importante capítulo de correção histórica e de marco na antropologia forense mundial foi acompanhado pela equipe GGN, resultando na produção do documentário “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015”, lançado neste sábado (30), no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca, em São Paulo.

A partir de agora, o GGN disponibiliza o documentário, na íntegra. Acompanhe:



Formado por diversos especialistas, o Grupo de Trabalho Perus é fruto da iniciativa do então secretário Municipal de Direitos Humanos e Cidadania Rogério Sottili, em articulação com a então ministra de Direitos Humanos Ideli Salvatti, apoio do Ministério Público Federal e a estrutura da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com experiências internacionais, profissionais da Cruz Vermelha, peruanos e argentinos também foram trazidos para compor a equipe que trabalha incessantemente, sob o rigor da técnica e do calendário, com o objetivo comum de trazer respostas.

O processo de identificação de, ao todo, 1.049 ossadas tem por fim buscar nomes: de quem eram os resquícios encontrados. Entretanto, o longo processo de negligência a que foram submetidos os ossos prejudicam a investigação. Ainda que não seja possível definir todas ou alguma das identidades, o Grupo conseguirá fazer um balanço de informações: como aquela pessoa foi ferida, como morreu, se era homem ou mulher, criança ou adulto.

“Eu acho que o Brasil está vivendo um novo momento que quer dizer o seguinte: chegou a hora de virar essa página da história! Não é mais possível a gente viver com fantasmas de generais de reserva, se pronunciando a cada semana sobre uma barbaridade e amedrontando o Estado. Isso não é mais possível! Até porque, se a gente não contar essa história e não enfrentar essa verdade vamos ficar sobre fantasmas de pessoas que estão a beira de desaparecerem”, disseRogério Sottili, em entrevista ao GGN.

“A ciência chega até a um certo lugar, depois não há nada a fazer. Creio que o mais importante para as famílias é que, finalmente, está se fazendo algo sistemático. Ou seja, a intenção existe!”, afirmou o antropólogo peruano da equipe José Pablo Baraybar. “Perus é um pretexto, tem que ser um pretexto, para entender como é que um país moderno, o maior da América Latina, uma potência como é o Brasil, poderá terminar um jogo de mais de mil pessoas que não têm identidade”, refletiu.

“Vai chegar um momento que nós teremos que dar condições dignas, um sepultamento digno pra essas ossadas, mas não teremos identificação”, manifestou a reitora da Unifesp Soraya Smaili. “Nós temos que trazer isso à tona! Perus nos ajuda a enxergar isso. O papel da universidade vai além, tem a função de se abrir e de ir para a sociedade colocar suas contradições”, apontou.

“Se eu não tivesse feito nada como prefeita de São Paulo, teria valido para tomar essa iniciativa, ter coragem de enfrentar as consequências, as ameaças, a possibilidade de fracasso, poderia não ter dado certo”, contou Luiza Erundina, que à época da abertura de Perus era prefeita de São Paulo e determinou os primeiros passos para as identificações. “Eu me sinto gratificada ao povo de São Paulo, de ter me dado um mandato, e agradeço a Deus a oportunidade de ter tido esse poder, e colocá-lo a serviço de uma causa, que tem sido para mim o sentido da minha vida”, disse ao GGN.

Na estreia do documentário “Ossadas da Vala Clandestina de Perus, de 1970 a 2015” (2015, 22 min), da Equipe GGN, também foram exibidos os documentários “Vala Comum” (1994, 30 min), de João Godoy, e “Apelo” (2014, 13 min), de Clara Ianni e Débora Maria da Silva. O Espaço Itaú de Cinema ainda foi palco de um debate, com mediação do jornalista Luis Nassif, e participação do secretário-adjunto Municipal de Direitos Humanos, Rogério Sottile, da procuradora da República Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, e do coordenador do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense, Prof. Dr. Rimarc Gomes Ferreira.

Acompanhe as entrevistas e reportagens da série “Ossadas de Perus: A Difícil Transição”.

Patrícia Faermann
No GGN

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