28 de mar de 2019

Petraglia: maior defensor da moralização do futebol brasileiro tinha duas empresas para compra e venda de jogadores em paraíso fiscal


A voz mais contundente pela moralização e transparência do futebol brasileiro há quase quatro décadas tinha duas empresas para compra, venda e gestão de carreiras de jogadores em um paraíso fiscal.

Ao mesmo tempo em que repetia na imprensa sua pregação por “limpeza da corrupção e moralidade”, Mário Celso Petraglia abriu no Panamá a “Soccer Development” e ainda a “The Soccer Consulting”, de acordo com os registros obtidos pela reportagem na Junta Comercial daquele país. Procurado pela reportagem, Petraglia negou a existência das empresas e ameaçou processar em caso de publicação. (ver “Outro Lado” ao fim da reportagem). A abertura das empresas, em fevereiro de 2005, é exatamente na época em que o dirigente corria a Europa em busca de parceiros para a implantação de um plano que foi batizado de “Engorda-Jogador”, utilizando o Athetico Paranaense como barriga de aluguel para valorizar atletas e depois negociar. E três semanas antes do anúncio da entrada de US$ 2 milhões anuais por conta de um inédito acordo de “naming rigths” para a Arena da Baixada.


O endereço das empresas abertas no paraíso fiscal é o mesmo de Curitiba que consta em processos que correm na justiça paranaense em nome de Mário Celso Petraglia encontrados pela reportagem:




Ocupando cargos no Athetico Paranaense desde 1984, passando três vezes pela presidência e por todos os cargos de comando e atualmente novamente na presidência do conselho deliberativo, sempre na condição de todo-poderoso do clube, Petraglia jamais revelou ou teve revelado que manteve paralelamente empresas no exterior registradas tendo como objeto, como está nos documentos, a “compra e venda de jogadores jovens de futebol em todo mundo”, “seleção e avaliação de jogadores que irão compor o portifolio da empresa”, “negociar as condições de investimentos em relação a aquisição e venda de jogadores”, “dar seguimento (aconselhamento, supervisão e monitoramento) das carreiras dos jogadores que compõe tais empresas”, “aconselhamento aos jogadores em negociações com clubes estratégicos a fim de maximizar os ativos”, entre outros itens. Veja o objeto das empresas de Petraglia nos registros das empresas panamenhas:


Na Soccer Consulting, aberta no Panamá em 28 de fevereiro de 2005 enquanto era presidente do conselho deliberativo do clube paranaense e efetivamente exercia o comando geral, Petraglia é o único brasileiro entre os proprietários. Três dias antes, 25 de fevereiro, os registros do paraíso fiscal mostram que o dirigente abriu a “Soccer Development” tendo um compatriota na sociedade: Paulo Sérgio Gallotti Prisco Paraíso.

O sócio de Petraglia na empreitada também é ligado ao futebol e seus negócios. Foi presidente do Figueirense entre 2000 e 2002 e um dos responsáveis pela mudança de regime na instituição catarinense para clube-empresa. Enquanto pregava a necessidade de se modernizar o futebol brasileiro transformando os clubes em empresa, Prisco Paraíso abriu a empresa com Petraglia.

Alguns meses antes, em 17 de junho de 2004, Prisco Paraíso abriu no Brasil uma empresa para gerir o futebol do Figueirense, a Florianópolis Participações e Gestão Desportiva.

Na ocasião, em ato falho, o dirigente citou Petraglia como sócio na empresa aberta para gestão do Figueirense. A fala virou escândalo e logo Prisco Paraíso correu para desmentir: “Devo ter me equivocado ao dar a informação, mas na verdade, eles foram os parceiros de primeira hora. O Petraglia, como ex-presidente do Atlético no fornecimento de jogadores por empréstimos ao Figueirense”, de acordo com reportagem publicada no Estado de São Paulo de 18 de junho de 2004. A bomba solta sem querer teve efeitos no Paraná, e a assessoria do Atlhetico correu, de acordo com a reportagem, a desmentir, “afirmando que o dirigente paranaense não tem participação como investidor na empresa criada para gerir o Figueirense”.

Se não eram sócios oficiais na gestão do Figueirense conforme o ato falho de Prisco Paraíso, na offshore panamenha com nome ligado ao futebol estão lado a lado.

Sócio de Petraglia no Panamá teve prisão pedida pelo MPF-SC em 2000

Antes da sociedade com Petraglia, Prisco Paraíso foi Secretário da Fazenda de Santa Catarina (1996) e, em decorrência de improbidades no exercício do cargo, chegou a ter pedido de prisão solicitado pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina em maio de 2000, acusado de malfeitos no exercício do cargo.

Prisco Paraíso foi um dos envolvidos em um esquema fraudulento através de títulos precatórios, como está relatado na Folha de São Paulo de 29 de julho de 1997.

O sócio de Petraglia nas empresas panamenhas aparece assim no inquérito do escândalo: “O Sr. Paulo Prisco Paraíso teve uma atuação ímpar em todo o “Esquema” de Precatórios; sendo inclusive citado no depoimento dos dirigentes do Banco Vetor como sendo o contato daquela instituição com o Estado de Santa Catarina.Verifica-se, pelo rastreamento de suas ligações telefônicas, que, no dia das negociações dos títulos, o Sr. Paulo Prisco Paraíso manteve contatos, por meio de seu aparelho celular, com vários participantes do “Esquema” de negociações, encontrando-se, na oportunidade, em São Paulo”.

A denúncia do Ministério Público Federal de Santa Catarina foi por crime contra o sistema financeiro, fraude e estelionato e finalizava as investigações do escândalo dos precatórios naquele estado. O sócio de Petraglia apareceu na peça do MPF-SC com o ex-governador Paulo Afonso Vieira (PMDB) e mais 12 envolvidos, acusados de negociar Letras Financeiras do Tesouro do Estado de Santa Catarina com deságio de R$ 86,8 milhões, “para pagamento de comissões a diversas pessoas físicas e jurídicas de fachada”.

De acordo com os procuradores Marco Aurélio Dutra Aydos, Ana Maria Guerrero Guimarães e Maurício Gotardo Gerum, que assinaram a denúncia na ocasião, os precatórios foram comercializados, entre 24 e 29 de outubro de 1996, por R$ 518,3 milhões, quando possuíam um valor real de R$ 605,1 milhões. Na denúncia, esse deságio (14,3 %) foi utilizado para benefício dos acusados e para pagamento de “pedágio” para empresas e pessoas físicas que fizeram a suposta lavagem do dinheiro.

Foi requerida a imediata apreensão das Letras do Tesouro do Estado, pelo Banco Central. Além da apreensão, os procuradores pediram a comunicação da decisão judicial à Comissão de Assuntos Econômicos e à presidência do Senado. No final, os promotores “dado à intensidade do dolo, num dos maiores golpes talvez já registrados na história do sistema financeiro” pedem o cumprimento das penas em regime fechado.

Já em relação as sociedades de Petraglia e Prisco Paraíso no Panamá, vale ressaltar que ter empresa no exterior não é necessariamente ilegal pela lei brasileira, que permite desde que tal negócio seja declarado para a Receita Federal e Banco Central.

A maior parte das empresas abertas em paraísos fiscais por brasileiros não tem registro na Receita Federal e no Banco Central, que não confirmam tal tipo de informação.

Nesses casos, muitas foram constituídas com o objetivo de fraudar informações patrimoniais como ocultação de bens, sonegação de tributos e envio para o exterior de bens com origem ilícita.

Empresas panamenhas de Petraglia tinham sócios ligados a bancos suíços

Entre os sócios de Mário Celso Petraglia e Prisco Paraíso, dois nomes chamam atenção. Na Soccer Development, onde os dois aparecem nos registros, consta o nome do suíço Matteo Dignola e o respectivo endereço em Lugano, Suíça. Dignola era do Banca della Svizzera Italiana (BSI) e em suas informações pessoais consta ter sido gerente da instituição no Brasil entre 2002 e 2003, posto onde acumulou contatos com brasileiros interessados em abrir contas na Suíça.

As conexões que ligam o Brasil a Matteo Dignola não pararam em Petraglia e Prisco Paraíso. Em janeiro de 2005, um mês antes dos cartolas brasileiros abrirem suas offshores no Panamá, o suíço aparece na abertura de um BSI Investment Advisor também no Panamá. E seu sócio na ação é José Eugênio Silva Ritter. Que depois viria a ser conhecido no Brasil por aparecer como “laranja” em uma empresa com conexões com o ex-ministro José Dirceu.

Um outro homem do sistema financeiro suíço aparece também na Soccer Consulting: Marco Bulani, que também exerceu cargo executivo no BSI na década passada.

A abertura de uma empresa em um paraíso fiscal com conexão a um banco em países como a Suíça é comum. Recebe pelos especialistas nas instituições de investigação o nome de “dupla camada”, formando esquema complexo dificultando o rastreamento do dinheiro.

A abertura das empresas em paraíso fiscal por parte de Mário Celso Petraglia ocorreu exatamente no momento em que o Athletico Paranaense, então ainda Atlético sem “H”, passava por uma mudança de rumo em seu planejamento. Transformação comandada exatamente por Petraglia.

Offshores panamenhas foram abertas em meio a plano conhecido como “Engorda-Jogador”

Naquele momento, o clube paranaense transformou-se praticamente em um fundo de investimento. Com o seguinte modus operandi: a busca de talentos promissores no mercado brasileiro ainda com baixo custo. Após esta fase de garimpagem, os talentos iam para o Atlhletico e passavam a ter exposição na vitrine atuando pelo clube. Após tal valorização eram vendidos muito mais caros ao mercado exterior para qual eram preparados.

O plano está retratado em um processo na justiça paranaense (TJ-PR 7613436) e na edição 1292 da Revista Placar, de março de 2006, na reportagem “Como funciona o ‘Engorda-Craque’, a nova negociata do futebol”. De acordo com a reportagem, entre os anos de 2004 e 2005, Petraglia percorrreu países europeu em contato para efetivar o fundo. Na ocasião do que chamou-se de esquema, até um técnico estrangeiro, o alemão Lothar Matthaus, foi contratado para comandar o time e ajudar a abrir o mercado europeu.

Em 2005, outro fato representou grande entrada de dinheiro nos cofres do clube paranaense: numa quinta-feira, 17 de março daquele ano, três semanas depois da abertura das empresas panamenhas de Petraglia, foi anunciado o primeiro contrato entre um clube de futebol brasileiro e uma empresa para um acordo de naming rights. A partir daquela data, o velho Estádio Joaquim Américo Guimarães, remodelado como Arena da Baixada, passava a se chamar oficialmente como “Arena Kyocera”. Valor do acordo: US$ 2 milhões de dólares ao ano, três anos de contrato. Total: US$ 6 milhões de dólares.

Outro lado:

Mário Celso Petraglia:


Paulo Sérgio Gallotti Prisco Paraíso:

A reportagem tentou contato com Paulo Sérgio Gallotti Prisco Paraíso sem sucesso. Pediu ainda para que Petraglia encaminhasse as questões devido a dificuldade de contato com Prisco Paraíso, também sem sucesso. Caso venha a receber resposta, será publicado aqui.

Marco Bulani:

A reportagem não conseguiu contato com Marco Bulani. Caso venha a receber resposta, será publicado aqui.

Matteo Dignola:

A reportagem não conseguiu contato com Mateo Dignola. Caso venha a receber resposta, será publicado aqui.

Lúcio de Castro
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