23 de mar de 2019

O tolo na montanha

O comércio do Brasil com os Estados Unidos foi deficitário para nós entre 1901 até o início da Segunda Guerra Mundial


A recente “aula magna” do novo ministro das Relações Exteriores do Brasil aos alunos do Instituto Rio Branco trouxe à memória a letra de Fool on the Hill, de autoria de Lennon e McCartney. A letra, por sua vez, revela uma ironia sobre o guru Maharishi Yogi que, segundo eles, “na montanha vê o sol se pondo, seus olhos no rosto veem o mundo girando e nunca dá resposta alguma”.

A aula se inicia com a “importante” constatação de que os ingressos no IRBr não são estudantes de Relações Internacionais. Depois, desfia um diagnóstico crítico sobre a política externa brasileira dos últimos anos, usando o mesmo sufixo ao mencionar itens daquela agenda diplomática como comercialismo, nominalismo, tematismo, climatismo, globalismo, universalismo e multilateralismo. No entanto, para classificar as alternativas que propõe para a agenda seriam necessárias palavras com os sufixos “ice”, “ante”, “ez” e “em”.

A começar pelo seu entendimento sobre o comércio internacional. Disse outra obviedade: que a política externa não é apenas comércio. Porém, quando teve a oportunidade no cargo de ampliar o escopo e resgatar uma característica importante da política externa brasileira, que é a intermediação pacífica de conflitos, no caso da Venezuela não somente a perdeu, como escolheu um lado e nos incluiu no conflito. Da mesma forma em relação ao conflito histórico na Palestina, no qual escolheu o lado israelense chocando-se com as resoluções da comunidade internacional, inclusive aquelas apoiadas pelo Brasil desde 1948, ao defender a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

O ministro também disse que o comercialismo nos domina, traz poucos resultados e perspectivas e acrescentou que não “entregará a alma” em troca da venda de soja e minério de ferro e que bom mesmo foi entre 1900 e 1975, quando o Brasil foi um dos países que mais cresceu no mundo graças à parceria com os Estados Unidos. Quando diversificou suas relações em direção à Europa e América Latina na década de 1970, o crescimento estagnou. Mais tolices, pois é inegável o papel do comércio exterior no desenvolvimento de qualquer país, tanto ontem, quanto hoje. Se o comércio não fosse importante, porque a guerra comercial entre EUA e China? Aliás, é comum os opositores dos governos Lula e Dilma atribuírem seus bons resultados econômicos unicamente ao boom das commodities na nossa pauta de exportações. O ministro também parece ignorar que as crises do petróleo, o fim do acordo de Bretton Woods, a mudança do paradigma econômico do pós-segunda guerra para o neoliberalismo, a crise da dívida externa e a financeirização da economia a partir dos 1970 reduziu sobremaneira o crescimento econômico mundial, Brasil incluído, precisamente pela interligação global que já estava estabelecida entre os países capitalistas.

Quanto à parceria que encanta o ministro e que se tornou um meio de vida para seu guru na Virgínia, sem mencionar os danos que nos causou durante a Guerra Fria, particularmente para nossa democracia, os dados de exportação e importação do IBGE, Banco do Brasil e Alice Web desmentem frontalmente sua afirmação. As exportações brasileiras entre 1901 e 1939 dirigiram-se principalmente para a Europa. Este destino foi superado pelos EUA entre 1940 e 1966, mas embora este possa ter sido o principal receptor individual de nossas exportações desde a gestão Rio Branco frente ao Itamaraty até 2008, foi somente durante a segunda guerra mundial e no início dos anos 1950 que estas chegaram a superar 50%. Em todo o restante do século XX, as exportações brasileiras para a América do Sul, Argentina em particular, Europa, Ásia, Oriente Médio e África, estas duas últimas a partir das independências na década de 1950, somadas, sempre foram majoritárias em comparação com as destinadas aos EUA.

Analisando as importações constatamos que o comércio do Brasil com os Estados Unidos foi deficitário para nós entre 1901 até o início da Segunda Guerra Mundial quando a balança se equilibrou, mas voltou a ser deficitária quando ela terminou e a balança somente se equilibrou ao final dos anos 1960.

Até o final da década de 1970, a participação brasileira no comércio mundial alcançou 1,4%, mas ela decaiu posteriormente para 0,9% devido à década perdida dos anos 1980 e às orientações do “Consenso de Washington” (o nome não é coincidência). No entanto, durante o governo Lula, esta participação voltou ao patamar tradicional e fez parte do crescimento econômico e comercial dos países emergentes. Tal participação, no início dos anos 1990, respondia por um terço do comércio mundial e, no novo século, antes da crise iniciada nos Estados Unidos e que depois contaminou a Europa, passou a responder pela metade do comércio.

Por fim, em 2010 o Brasil chegou à situação de sexta economia mundial, por várias razões, mas principalmente por ter ampliado suas relações internacionais e as comerciais. O único senão é a constatação do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães de que, apesar de sua importância no cenário internacional, o Brasil ainda não teria resolvido suas disparidades internas nas áreas sociais, culturais e outras, em comparação com os países mais desenvolvidos.

Este é um desafio que caminhávamos para superar, mas que não está na agenda do atual governo, muito pelo contrário, e tampouco na do chanceler e de seu “Maharishi” dos montes da Virgínia. Aliás, ele esteve nesta semana em Washington junto com seu chefe e com seu guru, empenhado em entregar as riquezas do Brasil a troco de banana.

Kjeld Jakobsen
No CartaCapital

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