8 de mar. de 2019

O governo do fim

Pode parecer uma tática de mobilização, mas é mais do que isso. Ela fora usada, tal qual, no ano passado.

Diante de um impressionante movimento espontâneo de mulheres que levou centenas de milhares de pessoas às ruas para gritar "ele não", o senhor Bolsonaro e a sua equipe dispararam milhares de imagens fakes de WhatsApp com cenas feitas sob medida para chocar os padrões de certos setores da sociedade brasileira. Ninguém foi punido por tal operação de circulação de mentiras. Ao contrário, ela foi decisiva para a pavimentação da vitória de sua candidatura.

Agora, o senhor Bolsonaro tenta o mesmo jogo. Não houve na história recente deste país Carnaval tão claramente utilizado para expressar a revolta popular contra o governo de plantão. Diante disso, o próprio Bolsonaro, agora fantasiado de presidente da República, coloca em circulação outras imagens da mesma natureza na esperança de anular a percepção do fato de que, apenas dois meses depois de sua posse, as ruas cantam e dançam contra ele. As últimas pesquisas demonstraram como a popularidade está em queda.

A tática pode lá ter seu efeito dentre os apoiadores orgânicos do desgoverno em curso. Ela remobiliza tropas acuadas pela decomposição acelerada de seus discursos de moralidade, de crescimento e de paz social armada.

Ela pode dar alguma sensação de superioridade moral em meio a denúncias sistemáticas de corrupção no partido do governo, revelação de ligações entre o núcleo duro do Planalto e as milícias, além da inação absoluta diante de crimes ambientais e catástrofes humanitárias. Isso será importante para uma minoria aguerrida que irá com o senhor Bolsonaro até a cova.

Mas ela demonstra, para boa parte do resto da população, como ninguém mais alimenta a ilusão de governar o Brasil.

Nos dias em que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) reviu para baixo a previsão de crescimento do Brasil neste ano (1,9%), mostrando a verdadeira expectativa em relação às suas "reformas", o ocupante da cadeira da Presidência estava mais preocupado em postar imagens de golden shower, ameaçar processar um humorista, além de divulgar música contra Caetano Veloso e Daniela Mercury.

Pode parecer as mais crassa irresponsabilidade, mas essa loucura tem método. A função de Bolsonaro não é governar, pois ele sabe muito bem ser impossível. O Brasil não se governa mais, nem mesmo na aparência, muito menos com seu governo de jornalistas plagiadores, religiosos obcecados por questões de gênero, diplomatas que se julgam cruzados, intelectuais autodidatas, atores pornôs, deputados do baixo clero, generais da reserva, assassinos de índios, adoradores de milicianos e economistas especializados em especulação financeira.

O programa que levou Bolsonaro ao poder nunca foi um programa de governo — não foi à toa que nenhum debate ocorreu em campanha. Ele era um programa de guerra.

A lógica por trás dele consiste em dizer: vamos parar com essa ilusão de governar, o que proponho é permitir uma sociedade armada, em que atirar é um direito, sem mais obrigação de aparência de solidariedade social e com a certeza de que o Estado irá alimentá-la continuamente com o espetáculo catártico de chacinas contra pobres e caça periódica aos comunistas escondidos nas universidades, escolas, teatros e sob a Lei Rouanet.

Em um tuíte onde anunciava uma Lava Jato contra a educação, o senhor Bolsonaro afirmava que as universidades ensinam uma sociedade dividida que visa enfraquecer a nação, por isso elas precisariam passar por um pente fino bem ao gosto do seu funcionário prestativo, o senhor Moro, que "limpou" o país para abrir caminho ao seu chefe e sua gangue.

Bolsonaro tem razão, ensinamos mesmo uma sociedade dividida. Essa é sua verdade fundamental. Basta ver como as seis principais fortunas desse país representam a soma do rendimento de praticamente metade da população mais pobre. Basta se perguntar quantos negros são professores, juízes ou diplomatas. Se isso não é resultado de divisão e luta de interesses, sugiro que revisemos uma vez mais o sentido das quatro operações matemáticas elementares.

De toda forma, o problema de Bolsonaro não é com a divisão da sociedade, mas com quem a opera e com qual propósito. Ninguém fala em sociedade unificada sem antes massacrar os setores que ele gostaria de ver expulsos do novo corpo social imunizado. Faz-se necessário transformar o Estado em gestor da purgação.

Bolsonaro sabe muito bem que a sociedade é dividida. Ele apenas quer ser o operador dessa divisão, o que seria uma maneira de tentar eliminar a força política das divisões reais.

Vladimir Safatle, Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

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