31 de mar de 2019

Mídia brasileira se deixa humilhar na era Bolsonaro


Estávamos em 2016. A dois anos, portanto, das eleições regulamentares, previstas em lei. Estimulado por uma articulação urdida no seio do PSDB – que já vislumbrava a sua total incapacidade de fazer o próximo presidente – e de um vice do PMDB, ressentido e ambicioso, (com certeza de olhos no fórum privilegiado do cargo) o Congresso atropelou a Constituição e aprovou um impeachment sem crime configurado, sem provas concretas para justificá-lo.

O país trocou os pés pelas mãos. Tal como em "Alice no país das Maravilhas" – (Lewis Carrol), encantou-se com o exotismo de um coelho que falava e usava relógio. Entrou em sua toca sem refletir que descer seria fácil. Difícil mesmo era encontrar a saída.

O que faltava na conta da presidenta Dilma, para levá-la ao impeachment, sobrava na do vice: fortes indícios das suas falcatruas. E o que importava isto, naquele momento, se havia o perigo do retorno de Lula? Tudo, menos a volta de Lula, pareciam concordar a elite, a classe média intolerante e até a corte suprema, que se omitiu em fazer valer a letra da lei em momentos cruciais. Nada disto contou. Havia um plano de reformas a ser levado adiante, de interesse do mundo empresarial. Porém, o papel decisivo foi o da mídia, orquestrando manifestações e levando para a rua o discurso do ódio ao governo legalmente eleito.

Eis que, Dilma deposta, vieram à tona os malfeitos do vice. Os índices de aprovação da presidenta - um dos argumentos para o seu impeachment -, ainda na casa dos dois dígitos, nunca foram alcançados pelo seu sucessor, que desde que pisou no palácio ouviu o coro de "fora Temer". O que fez a mídia? Não fez. Não apurou verdadeiramente, ignorou denúncias e manobras, movidas a farta distribuição de emendas para impedir que o presidente ilegítimo – nunca é demais lembrar – virasse réu.

Michel não foi incomodado. Entregou o que esperavam dele. O pré-sal, a reforma trabalhista, e quase fez o gol de placa, a tão sonhada reforma da Previdência. Por conta disto, foi deixado em paz, não foi devidamente investigado, não houve apuração, de fato, dos seus malfeitos. Saiu do Planalto pela rampa principal.

Na descida, deu posse ao candidato que se não foi o escolhido dos meios de Comunicação, foi o acolhido. Valia qualquer um, desde que o PT fosse escorraçado de Brasília. E a mídia lá, omissa. Não cobraram do candidato da ultradireita participações em debates, não respeitaram o tempo de TV estipulado para a campanha, na cobertura do atentado sofrido pelo candidato; não se debruçaram, de fato, sobre a vida pregressa do candidato e suas "ramificações"; não cobraram dele projetos, plataforma de governo, nada.

Eis que agora, no vazio que se evidencia o seu governo (?), com três meses no posto, esta mesma mídia se dá conta de que é barrada em coletivas, é acusada de persegui-lo e é tratada a pão e água. Perplexa, entra em um processo de esquizofrenia. Nos editoriais, cobra a ausência de ações efetivas, acusam-no de jogar o país num "deserto de ideias", e de não ter aptidão para o cargo. Na linha editorial, em suas coberturas, continua passando a mão sobre a sua cabeça, para não atrapalhar o desenrolar da reforma da Previdência, o samba de uma nota só em que se transformou o discurso dos meios tradicionais. Todo apoio ao mercado financeiro!

Nunca antes na história deste país os jornalões e os principais canais de TV foram banidos dos salões do poder. Assim mesmo, humilhados e escorraçados, seguem com o rabinho entre as pernas, dando uma no prego outra na ferradura, à espera da manchete dos sonhos: "Aprovada a reforma da Previdência". Enquanto isto, escrevem editoriais raivosos, mas não contribuem no trabalho de apuração para esclarecer as muitas perguntas que deveriam ajudar a responder.

Quem mandou matar Marielle? Onde está Queiroz? Para onde foram tantos depósitos feitos pelo chefe de gabinete do filho do presidente? E outras tantas, que gostaríamos de ver respondidas. Por onde anda Adriano, o miliciano? Por exemplo...

Denise Assis, Jornalista há 43 anos, vencedora dos prêmios Esso e Ayrton Senna de Jornalismo, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade, autora dos livros "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", e membro do Jornalistas pela Democracia

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