24 de mar. de 2019

Jânio Quadros e a desconstrução do sistema político brasileiro


Jânio Quadros foi o primeiro político brasileiro do pós guerra a basear sua carreira no combate à corrupção e ao sistema politico tradicional.

O Brasil da segunda metade dos anos 40, quando Jânio se iniciou na política, vivia uma grande ressaca democrática do fim do Estado Novo e início da República de 1946, com novos partidos e novos políticos, mas a base do sistema tinha suas raízes na República Velha, reciclada pela Revolução de 30.

Nomes e famílias da Primeira República atravessaram os anos varguistas e chegaram a 1946 com surpreendente vigor, como o Deputado Artur Bernardes, eleito em 1946 para a Câmara dos Deputados e que já tinha sido Presidente da Republica de 1922 a 1926.

Nomes tradicionais de antes e durante a Era Vargas reaparecem por si ou seus descendentes como congressistas, governadores e prefeitos, de Norte a Sul do País, com nomes tradicionais agora na fase democrática, como Flores da Cunha, Benedito Valadares, Negrão de Lima, os Andrada, Adhemar de Barros, os Ramos e Bornhausen, os Távora, os Ludovico e Caiado.

Os códigos da politica tradicional foram mantidos, o sistema estava de pé após reformas e reconstruções, os compromissos e as regras de conduta e de negociação se mantiveram, a antiguidade contava como valor, a lealdade era necessidade absoluta, o Congresso a partir de 1946 tinha um bom nível de qualidade, grandes nomes, bons oradores, uma elite intelectual, escritores importantes, juristas, era um sistema político bem azeitado.

Jânio Quadros, um anti sistema, colocou tudo a perder. Sua renúncia se deveu a incapacidade de se integrar ao sistema politico sentado no Congresso, Jânio não conseguia dialogar com os partidos a nível nacional. Sua experiência anterior de Prefeito e Governador deu certo porque era muito mais simples operar em legislativos locais homogêneos e menores, mas a nível federal o jogo era outro e Jânio não sabia e não queria jogar.

A RENÚNCIA DE JÂNIO QUEBRA O SISTEMA

A renúncia de Jânio em 1961 desarranja o sistema, porque o Vice que assumiu não tinha a capacidade de liderar o poder e desde o início ficou na dependência de forças fora do sistema político para governar, dependia dos militares, dos sindicatos e do empresariado.

Pela falta de um claro centro de poder, o País entrou em crises sucessivas de governabilidade que desembocaram no regime militar de 31 de março de 1964.

Pode-se dizer que Jânio, por sua renúncia, desarrumou o sistema que entrou em crise e não mais encontrou um claro eixo de sistema politico, evidentemente considerando o período militar como um intervalo com um poder fora do sistema democrático anterior e posterior.

O CENTRO DO PODER PÓS 64

Um centro de poder exige uma liderança clara, indiscutível. Tancredo teria sido essa liderança, Itamar Franco foi um centro de poder, FHC idem, Lula foi um centro de poder que colocou tudo a perder ao sacrificar José Dirceu e indicar Dilma, que não soube liderar o sistema, que se desfez nos seus mandatos para não mais se reconstituir, hoje o Congresso brasileiro é de baixa qualidade, não atende aos desafios do País, é dispersivo e desfuncional.

Um centro de poder exige um líder aceito por todas as correntes políticas, mesmo as adversárias, respeitado por suas convicções e estatura.

Jânio foi um ótimo Prefeito e Governador, mas não tinha envergadura para ser Presidente, faltava-lhe tolerância e paciência para lidar com todas as correntes políticas, perseguia adversários com inquéritos e prisões, algo incompatível com uma liderança aceita por todos.

O Brasil exige lideres de dimensão nacional, acima de ideologias e regionalismos, com visão de Estado e de País, o que não é coisa fácil.

André Motta Araújo
No GGN

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