20 de mar. de 2019

Filé à Wellington é antiquado e conservador como Bolsonaro e Olavo

Envolto em massa folhada, tem patê e refogado de cogumelos...
E que o caminho para o banheiro esteja livre...
Teve caipirinha. Teve ainda quindim, é verdade. Mas não teve churrasco nem moqueca. Tampouco teve camarão com chuchu, prato típico do Rio de Janeiro – cidade que apresentou ao Brasil e ao mundo Jair Messias Bolsonaro, nosso 38º presidente da República.

Em vez de comida brasileira, o embaixador Sergio Amaral optou por beef Wellington para o prato principal no jantar de domingo, na residência do diplomata em Washington. À mesa, estavam Bolsonaro, o mago das redes sociais Olavo de Carvalho, Steve Bannon e a nata do pensamento conservador norte-americano.

Beef Wellington. Ótimo: a imprensa brasileira reproduziu o cardápio como se o taxista Uélito, lá de Belford Roxo, soubesse o que é um beef Wellington.

O filé à Wellington é um mastodonte culinário, um fóssil vivo que pasta pelas estepes da cozinha internacional há vários séculos.

De genética francesa, foi incorporado pela aristocracia britânica como pièce de résistance gastronômica – um suntuoso manjar à frente da comida mais tripudiada do mundo. A elite dos Estados Unidos também adotou o bife à Wellington como curinga nos jantares de gala.

É um prato concebido para impressionar: uma peça grande de filé mignon envolta em massa folhada — com 5 milímetros de espessura, de acordo com o livro “Todas as Técnicas Culinárias”, da escola Le Cordon Bleu– e assada à perfeição.

Entre a carne e a massa, patê de foie gras e duxelles, um refogado de cogumelos e temperos. Quando chega à mesa, parece um empadão. Então alguém rompe a massa dourada e fatia o filé, revelando seu interior uniformemente rosado. Para completar o serviço, molho madeira. Com vinho madeira de verdade, não o molho ferrugem do quilão da esquina.

Para os cozinheiros, o beef Wellington é um pesadelo. Não à toa, a receita surge sempre que um reality show culinário precisa de uma dose extra de sadismo para elevar a audiência.

O filé, oculto sob a massa folhada, é assado às cegas. Pode ficar cru. Pode passar demais. Depois de fatiado, babau: não há mais o que se possa fazer.

O cardápio traz uma carga semiótica muito forte, talvez involuntária: ele simboliza a aceitação, por parte dos brasileiros, da superioridade dos anglo-americanos. Se quiséssemos nos impor, serviríamos vatapá.

O beef Wellington é um prato antiquado e conservador como os convidados do embaixador. Sua história remete a epopeias militares do passado.

Ele foi batizado em homenagem ao militar britânico Arthur Wellesley, o primeiro Duque de Wellington e primeiro-ministro do Reino Unido por duas vezes. Foi ele quem colheu os louros da derrota imposta a Napoleão na batalha de Waterloo.

Os franceses ainda não digeriram o episódio, como mostra um trecho do livro da Cordon Bleu: “Filet de boeuf em crôute (filé de carne bovina na massa) já era um prato clássico da culinária francesa muito antes da época de Wellington”.

Quem se importa? Na história, sobra apenas a versão dos vitoriosos.

Marcos Nogueira
No Folha

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