5 de mar de 2019

Ernesto Araujo é folclórico e tosco. E também um rascunho de ditador


A intenção do chanceler é criar no Itamaraty uma milícia intelectual ultrarreacionária, sem nenhuma flexibilidade para com um pensamento minimamente divergente


A notícia que consta no link abaixo é surpreendente sobre o tipo de guerra ideológica empreendida pelo governo Bolsonaro. Ou pelo menos por seus setores mais hidrófobos. Vai um trecho:

“O embaixador Paulo Roberto de Almeida foi demitido nesta segunda-feira (4) do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), órgão vinculado ao Ministério das Relações Exteriores. Ele assumiu a direção do instituto em meados de 2016, durante a gestão de Michel Temer (MDB).

A demissão ocorreu após Almeida republicar, em seu blog pessoal, também nesta segunda-feira (4), três textos recentes sobre a crise na Venezuela, um assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, outro pelo embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero e o terceiro pelo atual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Araújo, em seu texto, critica as posições de FHC e Ricupero sobre a situação venezuelana, afirmando que os dois “escreviam seus artigos espezinhando aquilo que não conhecem, defendendo suas tradições inúteis de retórica vazia e desídia cúmplice”.”

QUEM É PAULO ROBERTO ALMEIDA?

Trata-se de um diplomata e pesquisador de direita, neoliberal e professor do Instituto Rio Branco, tendo já servido em Washington. Está na carreira desde 1977 e tem vários livros e artigos escritos. É firme opositor da centralidade do Mercosul na política externa e alinha-se, em geral, com as posições do PSDB. Tem como alvos preferenciais a política externa “ativa e altiva” e a esquerda em geral.

Quando Araujo comete essa violência com um representante do neoliberalismo, o sinal é claro. A intenção do chanceler é criar no Itamaraty uma milícia intelectual ultrarreacionária, sem nenhuma flexibilidade para com um pensamento minimamente divergente.

MUITAS VEZES, A CRIAÇÃO DO NÚCLEO DURO de determinada orientação político-intelectual se constitui em tática eficiente numa disputa de hegemonia. Vai aqui um exemplo.

Perry Anderson (em “Balanço do neoliberalismo”, artigo de 1992) investigou a genealogia histórica do pensamento econômica que se tornaria hegemônico no final dos anos 1980. Escreve ele:

“Em 1947, enquanto as bases do Estado de bem-estar na Europa do pós-guerra efetivamente se construíam, não somente na Inglaterra, mas também em outros países, neste momento Friedrich Hayek convocou aqueles que compartilhavam sua orientação ideológica para uma reunião na pequena estação de Mont Pèlerin, na Suíça. Entre os célebres participantes estavam não somente adversários firmes do Estado de bem-estar europeu, mas também inimigos férreos do New Deal norte-americano. Na seleta assistência encontravam-se Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga, entre outros. Aí se fundou a Sociedade de Mont Pèlerin, uma espécie de franco-maçonaria neoliberal, altamente dedicada e organizada, com reuniões internacionais a cada dois anos. Seu propósito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras para o futuro”.

Anderson explica que tais ideias eram francamente minoritárias num mundo em que se afirmavam o socialismo real e a socialdemocracia europeia. Por vinte anos, Hayek e seus aliados teorizaram e formularam sem concessões, em uma espécie de estufa intelectual protegida do mundo externo. A dinâmica durou até a crise do dólar, no início dos anos 1970, quebrar todos os parâmetros do pós-Guerra. Foi quando o neoliberalismo emergiu como encadeamento intelectual lógico e inflexível. E se impôs.

Ou seja, Hayek criou um núcleo duro para defender ideias neoliberais antes que essas alcançassem poder político.

ARAUJO, EM SUA BIZARRICE, nunca disputou nada, nem ideias e nem diretrizes. Não tem nem de longe a envergadura intelectual de Hayek. Quer impor a partir da caneta, cuja tinta é fornecida por Bolsonaro. A dureza – e a tosquice – de seu – vá lá – pensamento não granjeia muitos adeptos. Ele, ao que parece, não pretende realizar nenhuma disputa política. Com a caneta na mão e montado num governo de tons miliciano-militares pretende impor seu pensamento na base da porrada.

Sua meta é criar bandos de freikorps – desordeiros nazistas dos anos 1920 – intelectuais para redesenhar não apenas o Itamaraty, mas todo o arcabouço da política externa brasileira, montada desde, pelo menos, 1930. Entre suas características arraigadas estão o multilateralismo, a não-ingerência em assuntos internos de outros países e uma política externa voltada para o desenvolvimento, o que implica certa autonomia em relação aos Estados Unidos.

Que em sua cruzada psicótica o terraplanista ataque Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães é coisa que está na conta. Investir contra a direita tradicional já revela uma psicopatia política com claras tendências ditatoriais.

Araújo é folclórico. E perigoso.

Gilberto Maringoni
No GGN



Embaixador exonerado aponta 'quebra de procedimento' no Itamaraty

Paulo Roberto de Almeida publicou textos críticos a Ernesto Araújo nas redes sociais; para diplomata, ministro é um 'júnior' na carreira

O embaixador Paulo Roberto de Almeida, exonerado do cargo de presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), nesta segunda-feira, 4, afirmou ao Estadão/Broadcast que sua saída aconteceu devido ao seu “espírito libertário”, expresso principalmente em suas redes sociais.

Almeida disse que já estava esperando a atitude do Itamaraty e critica a atuação do novo governo frente à Casa. “Os embaixadores estão obedecendo a ministros de segunda classe no Itamaraty. E todas as secretarias são ocupadas por funcionários juniores, ou menos antigos dos que estavam antes”, afirmou Almeida, que é diplomata de carreira desde 1977 e já serviu em diversos postos no exterior, inclusive na Bélgica.

Em relação ao chanceler Ernesto Araújo, diz que os próprios militares que integram o governo já demonstraram incômodo com algumas de suas posturas. “Os militares parecem também terem visto isso e adotaram uma espécie de ‘cordão sanitário’ ao redor do chanceler”, afirmou.

Como foi que o senhor ficou sabendo da sua exoneração?

Recebi um telefonema do Chefe de Gabinete do Ministro de Estado (Pedro Gustavo Ventura Wollny) reclamando das minhas postagens no meu blog pessoal. Realmente, coloquei aquela palestra do (Rubens) Ricupero na segunda-feira passada, coloquei o artigo do Fernando Henrique Cardoso, no domingo, e o próprio artigo do chanceler (Ernesto Araújo) à noite. E claro, teci comentários. 

Paulo Roberto Almeida
O diplomata Paulo Roberto de Almeida em discurso no Senado Federal em abril de 2017 em sessão solene sobre os 100 anos de Roberto Campos 
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Há também outras postagens, anteriores a estas, que são críticas...

Sim, eu sou um espírito libertário, enfim, acredito que posso debater tudo. Enfim, eles ficaram irritados e ele (Wollny) me telefonou para dizer que não era saudável.

O chefe de gabinete então deixou claro que a exoneração tinha relação com as postagens?

Sim, claro. Com meu blog, sem dúvida nenhuma. Mas isso já era previsível. Eu já estava preparado. Porque o ministro de Estado demitiu todos os chefes da Casa. Desde antes de tomar posse, em dezembro, eles estavam anunciando que todos os subsecretários, os embaixadores, estavam dispensados.

E no lugar, hoje, os embaixadores estão obedecendo a ministros de segunda classe no Itamaraty. E todas as secretarias são ocupadas por funcionários juniores, ou menos antigos dos que estavam antes. Há muito embaixador sem função, o que vai ser meu caso agora também.

Por que o senhor acredita que isso ocorreu?

Isso ocorreu porque o chanceler Ernesto Araújo também é um embaixador júnior. E ele está usando um critério geracional, digamos assim, para renovar a chefia. O que pode ocorrer em determinadas circunstâncias, mas o fato é que houve uma quebra de hierarquia muito clara no Itamaraty desde janeiro. Houve também uma ruptura dos procedimentos quanto à reforma na Casa, totalmente sem consulta, sem nenhuma preparação.

Como o senhor vê o desempenho do chanceler até este momento?

Não sou eu que estou vendo. Os jornalistas todos têm feito comentários sobre as posturas anti-globalista, anti-climatista, essas questões envolvendo a Venezuela. Os militares parecem também terem visto isso e adotaram uma espécie de “cordão sanitário” ao redor do chanceler.

Isso porque foram várias coisas anunciadas que eles tiveram de dizer não, como a base militar nos Estados Unidos, a postura anti-China, a mudança da nossa embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Teve também uma primeira reunião do Grupo de Lima em que ele aceitou a cessação de qualquer relação militar com o governo de Nicolás Maduro.

Há muitos elementos aí que criam um certo desconforto tanto na Casa quanto fora dela. Acredito que o fato de eu repercutir um pouco esse debate público incomodou um pouco. 

O senhor acredita que ainda podem haver novas exonerações no Itamaraty?

Vários embaixadores já foram exonerados de seus cargos que estão sem função. Então, acho que há essa perspectiva geracional. Não conheço nenhum diplomata petista. Talvez tenha dois ou três, mas devem estar quietos. Essa coisa de limpar o petismo do Itamaraty, o marxismo cultural, isso é uma grande bobagem. Porque o Itamaraty é feito por profissionais, que, claro, atendem ao presidente, seguem a política externa do Palácio. Algumas medidas tomadas recentemente são pouco compatíveis com a chamadas tradições do Itamaraty.

Camila Turtelli
No O Estado de S.Paulo

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