28 de mar. de 2019

De pior a pior

Nas últimas 48 horas, a atmosfera esquentou no território da política muito além do agravamento esperado. As frentes de turbulências acirraram-se ao mesmo tempo. Como são muitas, formaram um todo capaz de prenunciar, ou mesmo de introduzir, um estado de crise aguda. Neste caso, uma situação que tanto pode se resolver em prazo razoável, como se estender com as características dos últimos meses.

O dia político se encerrou, nesta quarta (27), sem indício algum de ação eficaz do governo para recuperar alguma energia política. Tarefa que é pior para Jair Bolsonaro porque, além de sua falta geral de qualificação, em seu governo não há quem tenha a competência e a experiência para induzir uma acomodação dos desentendimentos. Na área oposta, há vários.

Nenhuma formação do Congresso aceita ser publicamente desprestigiada. Nos últimos plenários da Câmara, e em menor grau no Senado, houve sempre a reação da chantagem, sendo aumentado o pagamento a cada pacificação ilusória e temporária.

Com quase três décadas enriquecendo na vida de parlamentar, Bolsonaro nada aprendeu dela. Mesmo que a índole do atual Congresso venha a continuar a do antecessor, o que parece difícil, Bolsonaro recebeu-o e o manteve sob pontapés verbais sem ideia de como seriam recebidos. E a nova legislatura não estava disposta a desmoralizar-se logo de saída: os acusados de "velha política" decidiram mostrar novidades ao acusador.

Mais do que sucessivas derrotas, Bolsonaro foi posto sob desafio pela Câmara, com os 453 votos que aprovaram, contra míseros 6, o projeto que obriga o governo a liberar as verbas incluídas no Orçamento pelos congressistas. O projeto diminui muito os recursos financeiros do governo. Em termos políticos, reduz a compra de congressistas, cujas propostas de verbas dispensam o compra-e-vende com o governo.

Bolsonaro não esteve sozinho no agravamento das turbulências. Paulo Guedes e Sergio Moro deram as outras contribuições mais importantes. O ministro da Economia expôs o seu desprezo pelo Congresso, não pela primeira vez, mas como um insulto de alcance amplo. Mandar um assessor à Comissão de Constituição e Justiça, quando o convidado a falar da Previdência era ele, será inapagável por muito tempo.

Em seu favor, Guedes não tem nem sequer a imagem positiva como ministro da Economia. Está à vista de todos que, ou não sabe por onde começar, ou não sabe o que fazer. São três meses de imobilidade em um ministério que tomou muitas atribuições alheias, como se ansioso para enfrentá-las. Guedes também achou que o desprezível Congresso não seria problema, tratando-o com sua costumeira arrogância. À distância. Do alto. De onde está vendo o seu engano desastroso.

Moro engoliu o trompaço de Rodrigo Maia, mas a docilidade não lhe serviu. Maia não se mostra disposto a desgastar-se, e queimar seu futuro político, por domar a Câmara para Bolsonaro & cia. A motivação de Maia era outra, mas é hora, mesmo, de acabar com a redução da presidência da Câmara a coordenadoria de bancadas, para servir a governos ou a fins políticos. A presidência é da Câmara, é de tudo e todos que a componham, e nisso se destina servir a todos os que elegeram seus pretensos representantes. Maia, quando quer, sabe ser carne de pescoço — como, aliás, suas fotos informam — e agora quer.

Desses conflitos básicos saíram extensões e ânimos não extinguíveis por si mesmos nem atacáveis com a necessária competência política. Em meio ao tumulto, Bolsonaro sai para dar ajuda eleitoral ao seu congênere Binyamin Netanyahu. Aproveite enquanto pode.

Janio de Freitas

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