9 de mar de 2019

Correios vivem uma guerra silenciosa entre general e o kassabismo


Presidente da estatal, Cunha, o militar, tenta esvaziar os poderes dos apadrinhados do PSD que o cercam. E desconfia de sabotagem

O general Juarez Aparecido da Paula Cunha é amigo do general Hamilton Mourão mas chegou ao comando dos Correios antes do amigo entrar no Palácio do Planalto. Uma escolha do dono do PSD, Gilberto Kassab, manda-chuva nos Correios no governo Michel Temer. Um delator da JBS/Friboi, Ricardo Saud, disse que na eleição de 2014 viu apenas duas pessoas embolsarem grana arranjada na empresa pelo PT: uma era Kassab.

Em 19 de dezembro, Kassab recebeu a Polícia Federal (PF) em casa, devido a denúncias friboianas, e a visita lhe custou o confisco de 300 mil reais e o embaraço de desistir de ser chefe da Casa Civil do governador paulista, o tucano João Doria Jr. Será que ele acreditou que faria do general Cunha uma espécie de marionete do PSD?

O general primeiro entrou no Conselho de Administração dos Correios, em junho de 2018, devido provavelmente ao tino eleitoral de Kassab, a vislumbrar a chance de Jair Bolsonaro vencer a eleição. Em novembro, selado o triunfo do ex-capitão nas urnas, Kassab, que era ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações, fez de Cunha presidente da estatal.

Agora o “ex-secretário de Dória sem nunca ter sido” e seu PSD começam a perder a paciência com o general. Em conversas recentes com alguns interlocutores, Cunha mostrou estar desconfiado de que apadrinhados do PSD nos Correios tentam derrubá-lo. Quatro, para ser mais específico.

O motivo da silenciosa guerra interna não é apenas filosófica. O general é nacionalista, defende que os Correios continuem sendo uma estatal, enquanto seu antecessor, Guilherme Campos, fiel aliado de Kassab, tinha preparado o terreno para a privatizar a empresa. Não. A divergência é mais picante.

O general quer mexer no aparelhamento do PSD nos Correios. Tenta duas tacadas. Uma é uma reestruturação interna que jogou para um colega de farda, o coronel Artur Solon, chefe da área de compliance da estatal, o controle das nomeações regionais na empresa.

O controle das nomeações estava com o diretor de Operações, Carlos Fortner. Este é amigo de faculdade de Kassab, a Politécnica da USP, cursada também por Campos, outro antigo colaborador kassabista.

Fortner era presidente do CNPq, órgão sob o comando de Kassab no ministério da Ciência, e entrou nos Correios quando o então ministro teve de sacrificar um outro aliado, Francisco Armênio de Mello Esquef, em outubro de 2017.

Esquef era uma espécie de tesoureiro informal de Kassab e do PSD. Caiu da diretoria de Finanças devido a uma denúncia feita ao Tribunal de Contas da União (TCU), de que um contrato de 850 milhões preparado por Esquef era pura bandalheira. A contratação sem licitação de uma empresa catarinense, a Nexxera, para digitalização das correspondências de grandes clientes dos Correios.

A denúncia dizia que, sob Esquef, o financeiro dos Correios tinha virado “uma verdadeira zona de negócios ilícitos”. Será que Fortner ficara no lugar de Esquef com a missão de fazer igual só que com mais discrição? Hoje em dia é diretor de Operações, não mais de Finanças.

A reestruturação interna foi solicitada pelo general a funcionários da estatal. Na gestão Guilherme Campos, os Correios gastaram 35 milhões de reais com um consultoria, a Accenture, em troca de um projeto de reestruturação. Não é à toa que o TCU investiga esse aparente desperdício de verba pública, se é que foi desperdício. Consta que o produto final da Accenture foi um power point e só.

A outra tacada do general contra a kassabização dos Correios foi no Postal Saúde, o convênio dos funcionários da estatal. Cunha quer demitir o presidente do convênio, Ariovaldo Aparecido da Câmara. Ficou um bom tempo a evitar reuniões com Câmara, por exemplo.

O lobby do PSD pela permanência do dirigente é grande, daí o general ainda não ter conseguido a degola. Nos Correios, comenta-se que Câmara teria procurado parlamentares do partido para se salvar. Ou seja, para eles criarem problemas para o governo Jair Bolsonaro no Congresso.

Câmara está no cargo desde julho de 2016, por indicação de Campos, o primeiro homem de Kassab nos Correios. Dilma Rousseff tinha sido afastada do Planalto em maio, e com Temer o PSD tomaria conta do ministério da Ciência, Tecnologia e Comunicações e do que havia embaixo da pasta: os Correios e o Postal Saúde.

Qual a importância política do Postal Saúde? Muita, diz um funcionário de carreira dos Correios. As vagas de dirigentes regionais do convênio são preenchidas por escolhidos do presidente da empresa. Esses dirigentes fazem lobby político-eleitoral de seus padrinhos. E ainda conseguem uma grana para os candidatos do partido, conta o funcionário.

Terá sido para discutir coisas desse tipo que Campos e Câmara reuniram-se em um café em um shopping de Brasília durante a eleição, mesmo que Campos já tivesse deixado os Correios pois era candidato a deputado federal por São Paulo? CartaCapital obteve fotos da “reunião”.


Com pouco tempo no cargo, Câmara contratou como assessor especial um advogado chamado Leopoldo Alves Jorge Neto, até fevereiro diretor-executivo da Geap, outro convênio de servidores públicos – no caso, o funcionalismo federal. Teria sido uma contratação para, digamos, aprender um certo know-how?

Desde o governo Temer, a Geap tem sido controlada politicamente pelo PP, partido do ministro da Saúde de Temer, Ricardo Barros, e do líder de Temer na Câmara, Aguinaldo Ribeiro. Agora a PF investiga um suposto esquema de achaque do PP contra hospitais.

O esquema funcionaria assim: o ministério da Saúde e a Geap atrasariam pagamentos a hospitais. E estes teriam de pagar propina para que seu pagamento fosse para o início da fila dos atrasados. Consta que hoje em dia o Postal Saúde tem vários pagamentos em atraso também.

A propósito: em 1º de março, a Agência Nacional de Saúde (ANS) mandou cancelar a venda de 46 planos de saúde, e entre eles, o Postal. Significa que os convênios têm de atender adequadamente os atuais clientes, antes de buscarem novos.

Alves, o homem que assessorou Câmara na Postal Saúde, é personagem de uma história esquisita ocorrida com um jornalista-blogueiro de Brasília.

Donny Silva, que descreve Alves como “petista”, publicou no início do ano algumas histórias contra Alves na Geap. Segundo ele, em 8 de janeiro o assessor de imprensa da Geap, Wendell Rodrigues, procurou-o e eles marcaram um café para dois dias depois. Rodrigues teria feito uma proposta: montar uma parceria entre o blog e a Geap.

Em troca de 7 mil reais por mês, o blogueiro publicaria histórias favoráveis a Alves e à Geap. E apagaria tudo o que já tivesse escrito desfavoravelmente a Alves. Este caiu do cargo na Geap logo após o blogueiro contar publicamente o episódio.

Ariovaldo Câmara não teve uma conduta merecedora de notícias desfavoráveis em blogs apenas por ter se cercado na Postal Saúde de um personagem como Leopoldo Alves. Há mais coisa que o general Cunha deve achar bem pouco republicana.

Em agosto de 2016, uma auditoria interna feita no Postal Saúde a pedido do Conselho Deliberativo do convênio apontara um cabidão de emprego. Ainda não era de gente do PSD, mas do PDT.

Recorde-se: em outubro de 2015, Dilma tirou o ministério das Comunicações das mãos do PT e entregou ao PDT. O ministro era o deputado André Figueiredo (CE), ainda hoje líder da bancada. Uma troca de olho na batalha do impeachment que viria em 2016. Troca inútil, aliás.

Com o PDT no ministério, Correios e Postal Saúde foram aparelhados pelo PDT. Em maio de 2016, um cabide de empregos para pedetistas foi denunciado ao então procurador-geral da República, Rodrigo Janot. A denúncia listava 124 pedetistas nomeados País a fora no Postal Saúde, um total de 970 mil reais em salário mensal.

O principal acusado de patrocinar as nomeações partidárias era o então diretor de Pessoal dos Correios, Heli Siqueira de Azevedo. Este tinha sido indicado para o cargo pelo deputado federal Mario Heringer, que apesar disso votou pelo impeachment de Dilma. Heringer e Azevedo eram parceiros antigos. O primeiro teve o segundo como assessor parlamentar entre 2009 e 2011. Em 2010, chegaram a ser investigados juntos no Supremo Tribunal Federal (STF) por crime eleitoral.

O cabide foi investigado também por uma auditoria interna no Postal Saúde. Um relatório de agosto de 2016, obtido por CartaCapital.

De novembro de 2015 a junho de 2016, diz o documento, foram contratadas 127 pessoas, das quais 31% eram pedetistas de carteirinha. Mais: para acomodar a turma nova, houve 131 demissões, das quais 54% sem justa causa, o que acarretou um gasto de 1,7 milhão de reais com multas.

Por meio da assessoria de imprensa, o Postal Saúde informou que, como resultado da auditoria, houve “demissão das pessoas que não atendiam os requisitos para a função” e a criação de regras de admissão. Informou ainda que o relatório foi encaminhado aos Correios e ao Ministério Público Federal e que este arquivou o caso.

O que o Postal Saúde não diz, afirma um servidor de carreira dos Correios, é que ninguém foi punido pelo cabidão. Azevedo, por exemplo, continuou diretor da estatal até dezembro, quando houve mudança de governo.

Em uma ação trabalhista movida contra o convênio por uma ex-diretora, Cynthia Teixeira Sá, que deixou o emprego na época do impeachment, Azevedo é citado nominalmente. Testemunho dado por um outro ex-diretor do convênio, Telmo Castrillon de Macedo, que também foi degolado em 2016.

“Ambos (Cynthia e Macedo) deixaram de ser diretores da Postal Saúde”, disse Macedo, “porque sofreram pressão muito forte do presidente” da empresa, Ariovaldo Câmara, “do vice-presidente de RH” dos Correios, que era Azevedo, e “de políticos para a demissão de funcionários e contrastação associadas a determinados partidos”.

A auditoria interna no Postal sobre o cabide tinha sido solicitada pelo Conselho Deliberativo do convênio. Agora dois conselheiros preparam-se para concorrer a um novo mandato de quatro anos: Anézio Rodrigues e seu suplente Jorge Luiz Gonzaga Ribeiro. A eleição será em 15 de março. Terão sucesso apesar da falta de empenho na punição dos implicados no relatório do cabide?

O que o Postal Saúde também não diz, prossegue aquele servidor dos Correios, é que do relatório de agosto de 2016 para cá surgiu um novo cabide, desta vez do PSD.

A área de auditoria interna da estatal também recebeu o documento. Via assessoria de imprensa, os Correios disseram que, como a papelada também foi enviada ao MPF, “a empresa entendeu que não havia providências adicionais a serem adotadas”. E acrescentou: “Destaca-se, também, que o Conselho de Administração dos Correios acompanha periodicamente os relatórios elaborados pela auditoria dos Correios relacionados à operadora do plano de saúde”.

Registro: o general Cunha faz parte desse Conselho desde junho de 2018. Não soube de nada antes nem sobre o cabide do PDT nem do PSD?

Será que em sua aparente enfrentamento da kassabização dos Correios, o general acabará engessado pela estrutura de controle interno (auditoria, corregedoria) dominada exatamente pela turma do PSD? Um funcionário concursado da estatal diz que essa estrutura de controle é montada para funcionar assim: fazer vista grossa com os amigos e aplicar a lei contra os inimigos.

O chefe da corregedoria dos Correios na época de Guilherme Campos, o aliado de Kassab, era Antonio Joaquim de Maria Neto. Este certa vez se debruçou sobre um caso a envolver o ex-diretor de Finanças Francisco Esquef, aquele da “zona de negócios ilícitos” pró-kassabismo, mas não fez nada. Depois acabou promovido a número 2 na diretoria de Administração quando esta tinha exatamente Esquef no comando, a acumular a área financeira.

Um bom exemplo de como os órgãos de controle são ocupados por indicados de políticos em busca de proteção é o Comitê Disciplinar (Codis), repartição vinculada diretamente à presidência dos Correios.

Em março de 2018, o Codis aprovou um novo regimento, com direito a mandato de cinco anos, renováveis por mais cinco, para cada integrante, recebedor de uns 18 mil mensais, fora anuênio.

O comitê tem hoje um apadrinhado (Renan Cantoara) de Heli Siqueira de Azevedo, o diretor do cabidão, por exemplo. Um protegido de Carlos Fortner, Flavio Roberto Fay de Souza, que vem a ser também o presidente do Conselho Deliberativo do Postal Saúde que pediu a auditoria sobre o cabide e ficou por aí. Um homem forte junto a Kassab e Esquef, Jameson Reinaux da Cunha, número 2 na diretoria de Finanças.

Um baita cerco ao general Paula Cunha em sua aparente disposição para deskassabizar os Correios.

André Barrocal
No CartaCapital

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