13 de mar de 2019

Bolsonaro faz jogo político ao misturar facada com morte de Marielle

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Crimes são graves, mas bem diferentes

“Eu também tô interessado em saber quem mandou me matar”, disse ontem o presidente Jair Bolsonaro, ao comentar a prisão de dois acusados de executar a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e o motorista Anderson Gomes.

Sempre econômico ao tratar do caso, até porque a assessoria do hoje presidente disse durante a eleição que a opinião dele sobre os assassinatos seria “polêmica demais”, Bolsonaro afirmou: “Espero que realmente a apuração tenha chegado de fato a quem foram os executores, se é que foram eles, e a quem mandou matar”.

Depois, falou da facada que levou na campanha, mais uma vez misturando coisas diferentes. Fez jogo político.

Ao nivelar o atentado que sofreu ao assassinato de Marielle e Anderson, o presidente usa a manjada estratégia de animar o núcleo bolsonarista (extrema-direita radical que age nas redes sociais). Bolsonaro também foge de questionamentos incômodos sobre um caso que desprezou na campanha e que é tratado de forma insensível por ele e os filhos políticos.

A facada em Bolsonaro e as mortes de Marielle e Anderson foram crimes contra a democracia. Em ambos os casos, houve violência física contra um adversário político. Isso é inaceitável na democracia.

O atentado de 6 de setembro de 2018 contra Bolsonaro foi condenado com veemência pela imprensa e demais candidatos. Mas ele não agiu assim no episódio Marielle.

Ao nivelar os dois casos, cobrando quem seriam os mandantes de ambos os crimes, Bolsonaro fez uma mistificação política. Uma primeira investigação da Polícia Federal concluiu que Adélio Bispo agiu sozinho e que tem histórico de problemas mentais. Uma segunda apuração da PF vai na mesma linha, mas o presidente não aceita tal conclusão.

Adélio pegou uma faca e se meteu no meio de uma multidão para tentar matar Bolsonaro. O modus operandi é típico de lobos solitários com problemas psíquicos. Não parece uma operação calculada do crime organizado.

Nos assassinatos de Marielle e Anderson, houve longa preparação e execução com assinatura de matadores profissionais. Esse procedimento é típico de crimes por encomenda para matar adversários políticos.

Repetindo: ambos os crimes são graves, mas bem diferentes.

Caminhos necessários

A polícia precisa colocar foco nas relações políticas e pessoais dos dois acusados de executar Marielle e Anderson: o sargento reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz. Também devem ser investigados os históricos patrimoniais de ambos (seguir o caminho do dinheiro).

A vida social dos acusados é um caminho interessante. Pode dar resultado averiguar que locais visitavam, de quem era amigos. Por exemplo: há câmeras de segurança no condomínio de Ronnie Lessa que podem dar pistas de sua rotina?

Federalização já

O vazamento da operação que acabou prendendo os acusados de serem executores de Marielle é mais uma prova de que a investigação sobre mandantes do crime deveria ser federalizada. A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, deveriam discutir essa possibilidade.

Desastre educacional

É grave a situação no Ministério da Educação. A pasta virou refém de uma luta interna estimulada por um escritor de extrema-direita, um ministro incapaz para a função e um presidente despreparado que ora cede ao fundamentalismo político, ora à pressão da ala militar. Esse enredo custará caro às gerações futuras.

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