26 de mar. de 2019

A twittercracia boçal e o revisionismo histórico: ordem é gourmetizar a ditadura de 64

“Nosso presidente já determinou ao Ministério da Defesa que faça as comemorações devidas com relação ao 31 de Março de 1964 incluindo a ordem do dia, patrocinada pelo Ministério da Defesa, que já foi aprovada pelo nosso presidente”.
Porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros
Repitam comigo. Os regimes sanguinários de Augusto Pinochet, no Chile, e Alfredo Stroessner, no Paraguai, foram democracias e seus generais ditadores foram estadistas. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, eleito, é um ditador, tem que ser deposto e o Brasil reconhece um presidente auto-proclamado – não eleito. Ah, e o golpe militar de 31 de março de 1964, que completa 55 anos, último período ditatorial no país, não apenas não foi uma ditadura, mas deve voltar a ser “comemorado” nos quartéis. Mais perdido do que cego em tiroteio, em um governo pífio que não consegue focar em prioridades, pavio curto a ponto de afrontar o gelatinoso presidente da Câmara, Rodrigo Maia, embora precise do aliado para aprovar a reforma da Previdência, Bolsonaro pariu mais um factoide, acendendo o ânimo dos golpistas civis e fardados – instalados em diversos pontos da sociedade. Na contramão de toda a pacificação – construída pela Nova República -, Bolsonaro deu ordem para que os comandantes militares não deixem domingo, 31 de março, passar em branco. Agora, além dos esclerosados de pijama dos clubes militares, a data deve ser comemorada em unidades por militares da ativa. A definição de “celebração” ficou no ar. Num país pendurado numa Lei de Anistia mal ajambrada, e onde militares e civis fazem vista grossa para as expressões “revolução” e “ditadura”, o Estado decidiu assumir institucionalmente o lado dos que não veem os chamados anos de chumbo como uma interrupção democrática.

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A ditadura que não houve, segundo Bolsonaro, que mandou os quartéis comemorarem 31 de Março de 1964.
Pior. Desde que assumiu o mandato, Bolsonaro não apenas não consegue pacificar o país, como comporta-se como se estivesse em campanha, no palanque, falando para os seus, por meio de uma twittercracia boçal – nas palavras de Carlos Bolsonaro, porque “é isso que o conecta com o povo, já que não tem mídia a seu favor” -, e opondo-se aos “outros”, os que não concordam com ele, número crescente segundo as pesquisas de popularidade. A ordem de Bolsonaro, transmitida pelo metálico porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, de que queria uma celebração “devida” de 64, deve ser interpretada pelos comandantes militares, e generais empoleirados no Planalto, que parecem ter mais juízo, como uma orientação presidencial para que 31 de Março seja lembrado intramuros, ou seja, dentro de quartéis e batalhões, com a leitura da ordem do dia, realização de formaturas e palestras sobre o tema. Mas para a sociedade fraturada é a antecipação de mais embates, que não se limitarão às redes sociais, mas que servem como uma convocação às ruas. Quem acha que o regime dos generais, que durou 21 anos, foi uma ditadura, com mortes e desaparecimentos, de um lado; e quem acha que foi uma revolução para impedir que o país caísse nas mãos do fantasma do comunismo, de outro. Todos estão convocados a sair às ruas. Talvez se enfrentar. Quem sabe não é exatamente o que Bolsonaro quer.

Leia também “Bolsonaro e o “negacionismo histórico”: os planos do capitão e de seus cúmplices fardados de apagar a ditadura de 1964”, escrita em 1º de outubro de 2018.

Bolsonaro age como um profeta do caos. Uma embaixador mundial das ditaduras passadas, como fez no Paraguai, ao chamar Stroessner de estadista, e na última quinta, 21, em visita oficial ao Chile, quando, para constrangimento geral, reverenciou o ditador Augusto Pinochet, que comandou o país de 1973 a 1990, em anos marcados por violência com a morte de mais de três mil pessoas, segundo estatísticas do governo chileno. As declarações de Bolsonaro foram classificadas como “infelizes” pelo atual presidente do Chile, Sebastian Pinera. Claro que as ditaduras atuais são relativizadas pelo capitão – as de esquerda, não interessam, as de direita, são parceiras.

Por aqui, os militares deixaram o Palácio do Planalto em 1985, com aposse do ex-presidente José Sarney, vice de Tancredo Neves – que foi eleito ainda pelo voto indireto, mas morreu antes de receber a faixa presidencial. Bolsonaro quer recontar a história. Talvez em breve ordene que o Ministério da Educação, que virou uma repartição de Olavo de Carvalho, revise os livros de história. Já foi assim, quando eu, nascido em 1966, durante a ditadura, estudei. O fato é que sem conseguir entender qual é natureza da função para a qual foi escolhido pela maioria dos eleitores no ano passado, Bolsonaro, como escreveu em editorial O Estado de S.Paulo – veja só, hem – “drena as energias do País ao concentrar-se em temas de pouca relevância, mas com potencial de causar tumulto. Ocupado com questiúnculas que fazem a alegria de sua militância, Jair Bolsonaro parece ter abdicado de governar para todos”.

Ricardo Miranda
No Gilberto Pão Doce

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