29 de mar de 2019

A popularidade de Bolsonaro vai cair mais

No final de janeiro, esta coluna se encerrava com um diagnóstico fácil. Dizia: “Quanto à imagem, a luz vermelha já está acesa para Bolsonaro”. Era evidente que a avaliação do governo ia piorar.  

Semana passada, antes de completar cem dias, quando tradicionalmente se considera que termina a “lua de mel” da opinião pública com um novo governo, saiu uma pesquisa do Ibope confirmando o prognóstico. Em pouco mais que dois meses, de meados de janeiro a meados de março, a avaliação positiva do governo caiu 15 pontos porcentuais. A confiança da população se deteriorou, passando de 62% para 49%.

É hora de fazer uma nova aposta, de que a popularidade de Bolsonaro e a aprovação de seu governo vão continuar a cair nos próximos meses. É até provável que a queda seja rápida e acentuada, levando-o a um cenário parecido com o que enfrentaram Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff no segundo semestre de seu segundo mandato. O tucano atingiu, em agosto de 1999, o índice de apenas 12% de avaliação positiva, enquanto Dilma, nessa altura, estava abaixo de 10%. O capitão pode bisar o desempenho de ambos antes do fim do primeiro ano.

São três os principais motivos que explicam o que ocorre agora e o que deve acontecer daqui para a frente.

1º A base de Bolsonaro é pequena   

Contrariando a versão que circulou depois de sua vitória eleitoral, de que estávamos perante um tsunami que havia inundado a sociedade brasileira, o bolsonarismo sempre foi um fenômeno limitado. Em agosto, na média das pesquisas publicadas, a dois meses do primeiro turno, Bolsonaro mal passava de 15% em listas com Lula e de 20% quando Haddad era apresentado como o candidato do PT.

Essa é sua base própria, formada por pessoas que haviam sido atraídas pela atuação do capitão ao longo de anos e o clima de opinião pública que o País vivia. Para crescer na reta final, beneficiou-se do declínio de outros nomes à direita, incorporando eleitores que o percebiam apenas como instrumento para derrotar o PT.

Bolsonaro foi além de 15% ou 20% mediante a incorporação tardia de pessoas que relutaram em apoiá-lo até às vésperas do pleito. Não votaram nele por seus méritos, mas por falta de opções competitivas na direita ou desencanto com Haddad.

Analisando a queda no Ibope, percebe-se que ela foi maior nos segmentos de renda mais baixa, onde estão os alvos dos ataques que a campanha Bolsonaro desferiu contra Haddad na semana que antecedeu o primeiro turno. Foi assim que o capitão venceu, mas sem conseguir formar uma base que ultrapassasse o núcleo de evangelizados de longa data.

Mamadeiras de piroca podem ganhar votos, mas não fornecem autoridade e legitimidade.

2º As expectativas criadas são inadministráveis

Sem base ampla na sociedade, eleito por uma soma de nãos (para alguns,  contra o PT; para outros, contra Haddad), o lógico é que Bolsonaro tentasse ser diferente depois da vitória, procurando consolidar o apoio daqueles para quem nunca fora a opção preferencial.

A outra forma de ampliar sua base seria pelo desempenho. O governo teria que atender rapidamente às expectativas que a sua eleição havia criado: “arrumar a bagunça”, “acabar com a violência”, “fazer o Brasil crescer”. São coisas complicadas, mas que haviam sido vendidas como simplíssimas: bastava tirar o PT do governo que tudo estaria resolvido.

É óbvio que isso nada disso aconteceu de janeiro para cá. E a chance de que qualquer uma dessas metas seja cumprida, por esse governo, em qualquer prazo razoável, é zero. Sem contar que as sugestões até agora alinhadas para consegui-lo nada têm de “novo”. As propostas de Guedes são mais velhas que a Sé de Braga e o  pacote de Moro, em seu bacharelismo, tem cheiro de naftalina.

3º Bolsonaro é Bolsonaro

Como o escorpião da fábula, Bolsonaro não consegue ser diferente do que é. Mata quem o leva de uma margem do rio à outra, apenas porque não consegue conter seu desejo de matar, mesmo sabendo que se afogará. Não seria por uma mera eleição para presidente da República que ele se sentiria na necessidade de mudar.

O erro mais grave que um político pode cometer é acreditar que tem superpoderes, algo de que Bolsonaro e sua trupe têm absoluta certeza. Não passa, contudo, do caminho mais curto para o fracasso.

Vão insistir no que sabem fazer: reagir com arrogância à queda de popularidade que os aguarda. A cada pesquisa nova confirmando-a, responderão com bravatas. E, assim, vão agravá-la.

É só esperar para ver.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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